domingo, 28 de dezembro de 2008

HOJE É DIA DE FESTA


Este Blog faz hoje dois anos de existência. Quero aqui deixar o meu grande abraço a todos os que, das mais variadas formas, enriqueceram as páginas deste espaço que é aberto, livre e descomprometido, sem complexos, como o que a foto mostra e que só pode ser uma montagem.
Vamos então entrar no terceiro ano deste Blog com um voto de que todos os que por aqui passam sejam felizes, tenham um 2009 cheio de realizações e que a saúde não lhes falte.
Um "abrazo" a los de lengua castellana, especialmente a mi grande hermanita argentina, Marita.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Natal...já passou


Natal....já passou....passa num instante!
Tanta expectativa,
tanta correria,
tanto trabalho,
tanta despesa,
tanta confusão,
e depois....
passa num instante!
Cada vez mais o Natal é sinónimo de compras, prendas, roupas novas ....consumismo, consumismo, consumismo !
Vive-se num mundo de show-off e ostentação, até do que não se tem, e, mesmo sem querermos, somos levados neste turbilhão de compras para a mãe, para o pai, para o tio e para a tia, para a amiga e para a amiga da amiga.....que tambem é capaz de me dar e não posso deixar de ter uma lembrancinha para ela.....uff...que canseira!
Ao fim da noite, temos a casa cheia de papeis de embrulho amarrotados, os adultos meio decepcionados com o que recebem - muitas das coisas, nem sabem para que servem - a criançada com mais 10, 20 ou mais brinquedos ( tudo depende do tamanho da familia) para juntar às dezenas que lá têm em casa e com os quais mal brincam .
Sim, porque computadores ou jogos de computador, não é para o bolso de todos, embora sejam comprados por muitos....que não podem!
Tanta preocupação com os presentes e tão poucas com as festividades em si.
Quantos serão os pais que contam aos seus filhos o que é o Natal, porque temos um Presépio, uma Arvore de Natal....o próprio Pai Natal ???
Será que as pessoas sabem a origem do Natal ?
Quantas saberão?...ou terão interesse em saber?
Pois, para aquelas que têm curiosidade em saber, vou poupar-lhes o trabalho de ir à net procurar.....e aí vai um resumo do que lá vem sobre esta quadra festiva.
Nunca é demais aprender:

O Natal é uma data em que comemoramos o nascimento de Jesus Cristo. Na antiguidade, o Natal era comemorado em várias datas diferentes, pois não se sabia com exactidão a data do nascimento de Jesus. Foi somente no século IV que o 25 de Dezembro foi estabelecido como data oficial de comemoração. Na Roma Antiga, o 25 de Dezembro era a data em que os romanos comemoravam o início do Inverno. Portanto, acredita-se que haja uma relação deste facto com a oficialização da comemoração do Natal.
As antigas comemorações de Natal costumavam durar até 12 dias, pois este foi o tempo que levou para os três reis Magos chegarem até a cidade de Belém e entregarem os presentes (ouro, mirra e incenso) ao menino Jesus. Actualmente, comemora-se o Dia de Reis, a 5 de Janeiro, os tais 12 dias depois do 25 de Dezembro.

Em quase todos os países do mundo, as pessoas montam árvores de Natal para decorar casas .
Acredita-se que esta tradição começou em 1530, na Alemanha, com Martinho Lutero.
Certa noite, enquanto caminhava pela floresta, Lutero ficou impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve. As estrelas do céu ajudaram a compor a imagem que Lutero reproduziu com galhos de árvore em sua casa. Além das estrelas, algodão e outros enfeites, ele utilizou velas acesas para mostrar aos seus familiares a bela cena que havia presenciado na floresta.


Quanto ao Pai Natal, estudiosos afirmam que a figura do bom velhinho foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, homem de bom coração, costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas, próximas às chaminés das casas.
Foi transformado em santo (São Nicolau) pela Igreja Católica, após várias pessoas relatarem milagres que lhe eram atribuídos.
A associação da imagem de São Nicolau ao Natal aconteceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo em pouco tempo.
Até o final do século XIX, o Pai Natal era representado com uma roupa de inverno de côr castanha. Porém, em 1881, uma campanha publicitária da Coca-Cola mostrou o bom velhinho com uma roupa, também de inverno, nas cores vermelha e branca (as cores do refrigerante) e com um garro vermelho com pompom branco. A campanha publicitária fez um grande sucesso e a nova imagem do Pai Natal espalhou-se rapidamente pelo mundo.

Ficaram a saber??? Optimo!!!!

Agora já podem contar aos filhos e aos netos.
Ah ! Do Pai Natal não contem já...deixem-nos crescer nessa doce ilusão de que ele existe mesmo.
Quando deixarem de acreditar é porque cresceram....e não há nada melhor do que ser criança!!!!

PARABÉNS A VOCÊ

Em 28 de Dezembro de 2006 iniciei esta fantástica aventura que é a de abrir um blog e mantê-lo activo. Sem me preocupar com as audiências, sem me ralar com estar ou não estar na moda, sem nunca me ter preocupado com ser ou não uma referência na blogosfera, quis que este espaço fosse livre, descomprometido, partilhado com amigos.
Assim continuará. Se houver necessidade premente de mudar de direcção, abre-se outro blog e alinha-se por essa nova direcção.
Recordo o que escrevi há dois anos atrás:

Porquê este nome, "mais, sempre mais..."? Talvez porque considero que, na vida, temos o dever de nos exigir sempre mais do que julgamos poder conseguir. É como se traçasse uma linha de chegada - virtual - mas com a ideia de ir mais além.
É como dizer-se que "o bom é inimigo do óptimo". Então, se há óptimo, porque nos contentarmos simplesmente com o bom?Tá bem, eu sei !!!! A perfeição não está ao alcance de todos os mortais. Mas, será errado tentar encontrá-la? A excelência não será melhor que a vulgaridade?Se não vivermos em permanente insatisfação, simplesmente nos contentarmos com o que realizamos, por mérito próprio ou por ajuda exterior como poderemos evoluir?Há que descartar o "mais ou menos" tão português, trabalhar para o "mais" e negar o "menos".A vida é feita de pequenas construções diárias, como as gotas de areia molhada que vamos deixando cair para fazer castelos na praia.O grande desafio está em não deixar desmoronar o que está feito.

A todos aqueles que passaram por aqui, a todos aqueles que aqui deixaram comentários, a todos os que fizeram o favor de deixar mensagens, os meus mais sinceros agradecimentos. Especialmente à minha "hermanita" argentina, Marita, nesta data, o meu "abrazo con ritmo de tango".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Natal natal


Se não for um pinheiro, não é árvore de natal...tem de ser pinheiro, nem que venha enroupado em plástico...natal sem árvore não é natal por muito que falte o presépio...a árvore é que é o símbolo do natal...compra-se nas lojas, nas ruas, muito mais facilmente do que o presépio com o menino Jesus mais a mãe Maria e o pai José e os três reis magos e a estrela anunciadora...a árvore é que tem de estar presente no natal dos católicos....de preferência, bem branqueada com aquele spray que emita a neve e enrolada em bolas brilhantes e fios de luzinhas a tremular....
....não é só decorativo o efeito da árvore de natal, é também o centro dos presentes para as crianças... e é vê-las, excitadas, quando lhes é dada a ordem de irem ver "o que o Pai Natal" lhes trouxe....elas, as crianças, estão fartas de saber que não foi Pai Natal nenhum que lhes trouxe as prendas mas fingem que acreditam na história e jogam o jogo...no meu tempo, sem televisão e sem Nintendos, era mais fácil acreditar na história, até porque havia menos "miúdos" com quem trocar impressões sobre o assunto...agora há mais facilidade em esclarecer dúvidas... "olha lá, tu achas mesmo que é o Pai Natal que te dá os presentes de Natal?"..."eu???...interessa-me lá isso....quero é que me dêem o MP4 que pedi"... aceito, contudo, que a figura do Pai Natal ainda sugere algum respeito às crianças especialmente quando as mamãs as obrigam a sentar-se ao colo dele para a foto de recordação...curioso é que Pai Natal e árvore de natal não se encontram, fazendo embora parte da mesma história...nos tempos de hoje, sempre queria ver como faz o Pai Natal para deixar os presentes na chaminé do menino que mora num décimo andar....de um edifício de 20 ... enfim...voltemos à árvore, verdissima, de natal...em país tropical, com mais de 30 graus de temperatura no exterior...até os imbondeiros sofrem, quanto mais um nobre pinheiro nórdico dignamente imitado em versão plástica e desdobrável...
...às vezes, apetece quebrar a tradição ...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

LLEGA LA NAVIDAD...

...Un saludo afectuoso para todos los del blog.....y recordemos aquello de
BIENAVENTURADOS LOS QUE TRABAJAN POR LA PAZ PORQUE A ELLOS SE LES ENTREGARÁ LA TIERRA-"

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Passo em frente

Seis anos depois do fim da guerra civil, Angola assiste ao nascimento do maior projecto de Comunicação Social jamais levado a cabo neste país. Um semanário, o maior parque gráfico do país e certamente dos maiores de África, uma estação de rádio já "no ar", uma estação de televisão a arrancar ainda este mês. E uma distribuidora. E não pára aqui. A seguir, um jornal diário, um semanário económico, uma revista. É o maior projecto privado de Comunicação Social de Angola.
O semanário foi o primeiro a enfrentar o escrutínio e o aguçado espírito crítico da sociedade angolana. Agora já vai no nº 4, as críticas têm sido muito positivas. É a primeira vez que uma publicação sai para a rua oferecendo uma revista de alta qualidade gráfica. Tudo por 250 Kzs, o equivalente a 2,50 euros.

O ENDEREÇO DE O PAÍS É : www.opais.co.ao

sábado, 22 de novembro de 2008

O Desenrascanso

Desenrascanso é uma arte portuguesa.
Não cabe na cabeça de um alemão, de um finlandês, de um sueco. Desenrascar é o que o português melhor sabe fazer. O exacto contrário de planear, o profundo culto do improviso, o jeito de concertar sem ferramentas, de por coisas a funcionar sem ser engenheiro, o desplante de encontrar formas fáceis de ganhar dinheiro difícil e formas dificeis de ganhar dinheiro fácil. Numa linha ultramoderna de montagem de qualquer coisa, o português, se achar conveniente para se chatear menos, altera o esquema. Para reparar qualquer coisa, o português, primeiro, desenrasca a coisa, só depois lê o manual de instruções ... para dizer que "estes gajos não percebem nada disto".
Não sei se é por isso que os países ricos gostam tanto de ter portugueses a trabalhar lá, mas que eles lhes dão muito jeito, isso dão. Reclamam pouco, contentam-se e até se levantam às duas da manhã para irem por um motor a funcionar. Sem lâmpada para verem nem ferramentas próprias.
Devia haver uma gala anual para os melhores desenrascansos portugueses.

Vejam o que diz a Wikipédia, mas em inglês. Alguém desenrasca aí uma tradução?

From Wikipedia, the free encyclopedia Re.

Desenrascanço
Desenrascanço (impossible translation into English) is a Portuguese word used in certain specific contexts and situations. It is used to express an ability to solve a problem without the adequate tools or proper technique to do so, and by use of sometimes imaginative resourcefulness when facing new situations. Achieved when resulting in a hypothetical good-enough solution. When that good solution escapes us we get a failure. Most Portuguese people strongly believe it to be one of their most valued virtues and a living part of their culture. However, some critics (...) are of the opinion that the concept is related to the discoveries period of the 15th century. But sceptics doubt there is any substantial proof of that relation.In the 16th and 17th centuries it was very common for other exploring nations, such as the Dutch, to bring a Portuguese national along during the voyages, because the Portuguese were allegedly the most skilled and knowledgeable in the proper handling of the occasional emergency aboard the ship when the control of the vessel was given to them (what is known among the Portuguese as 'desenrascanço'). Desenrascanço is in fact the opposite of planning: it's managing that any problem does not get completely out of hand and beyond solution.
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domingo, 16 de novembro de 2008

MAIS OBAMA


A "ILEGITIMIDADE" DA IDENTIDADE NACIONAL

Filomena Embaló*


08.11.2008



A eleição de Barack Obama à magistratura suprema dos Estados Unidos da América constitui um acontecimento sem precedentes na história deste país. O sonho de Martin Luther King começa finalmente a tornar-se realidade: o sonho de negros e brancos estadunidenses viverem harmoniosamente e serem iguais. Barack Obama, filho de um imigrante queniano e de uma norte-americana branca, mestiço ou "bi-racial" como se diz localmente, "afro-americano", "negro", foi escolhido pelos eleitores do seu país para, durante os próximos quatro anos, dirigir os destinos da Nação e representá-la no mundo inteiro. Foi uma vitória pessoal, mas também a de toda a comunidade "afro-americana" que durante mais de dois séculos vem lutando pela igualdade de direitos e contra a discriminação. O continente africano jubilou também com este plebiscito, pois um "filho de África" estará ao leme da primeira potência mundial, glorificando assim o continente e os povos africanos. Com ele espera-se um outro olhar e uma nova sensibilidade da Casa Branca em relação à África. Apesar da sua origem africana, Obama é acima de tudo um cidadão dos Estados Unidos, Foi lá que ele nasceu e viveu. A sua nacionalidade é a norte-americana. A sua cultura é a cultura norte-americana, com a qual se identifica. Ele partilha com todos os estadunidenses os mesmos valores, a mesma identidade nacional, o mesmo "sentir norte-americano", a mesma língua, o mesmo solo, a mesma História e a mesma bandeira. E tudo isso faz dele um cidadão de pleno direito que hoje o elevou à mais alta magistratura da Nação. E, como disse, a África está orgulhosa deste "filho" e muitas foram as individualidades africanas que nas antenas das rádios internacionais disseram que os Estados Unidos mostraram que ainda podem dar lições ao mundo e em particular à "velha" Europa. E eu acrescentaria: e sobretudo à Mãe África, estripada pela violência da intolerância! Pois, pergunto-me, se Obama tivesse nascido num país africano, de mãe originária desse país e de pai imigrante (ou vice-versa), em quantos países ele seria elegível à Presidência da República? A lista não deve ser muito longa... Na Guiné-Bissau, infelizmente, ele não teria esse privilégio, uma vez que o Artigo 63°-2 da Constituição diz serem "elegíveis para o cargo de Presidente da República os cidadãos eleitores guineenses de origem, filhos de pais guineenses de origem, maiores de 35 anos de idade, no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos", com a ambiguidade de não se saber o que se entende por "guineense de origem", ou a partir de que geração se é considerado ser "guineense de origem"... O maior paradoxo disto é o facto destes critérios excluírem o próprio Fundador da nacionalidade guineense, Amílcar Cabral. Quantos "obamas "guineenses existem na Guiné-Bissau? Quantos guineenses nascidos de um genitor guineense e de outro estrangeiro que viveram sempre na Guiné-Bissau, sem nunca ter tido outra nacionalidade que não a guineense e sem qualquer contacto com o país de origem do genitor estrangeiro, estão interditados de se candidatarem às eleições presidenciais? Serão eles menos guineenses do que os que têm ambos os pais de "origem guineense"? Não partilham eles com os seus compatriotas os mesmos valores, a mesma identidade nacional, o mesmo "sentir guineense", a mesma língua nacional, o mesmo solo, a mesma História e a mesma bandeira, tal como Obama com os seus compatriotas? Será a identidade nacional guineense uma noção vazia que não dá qualquer legitimidade ao cidadão? Por quê esta discriminação, quando o Artigo 24° da Constituição da República diz que "Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, sem distinção de raça, sexo, nível social, intelectual ou cultural, crença religiosa ou convicção filosófica"? As disposições do Artigo 36°-2 não serão uma discriminação racial? Não estaremos perante uma contradição entre as disposições destes dois artigos da Lei Fundamental? A Guiné-Bissau, como país colonizado que foi e como terra de acolhimento que tem sido, terá que aprender a assumir a integralidade da sua história, bem como a população que hoje tem, fruto dessa história. Esperamos que a eleição do Presidente Obama, para além de trazer as tão esperadas estabilidade e paz no mundo, constitua, em particular para o continente africano, um exemplo de tolerância, em que cidadãos com as mais diversas origens escolheram um presidente não pela cor da sua pele ou pelas suas origens, mas pelas ideias e valores que defende. E se nós, africanos, também tivéssemos um sonho?... Não é o sonho que comanda a vida? Tudo depende do nosso querer, pois, querendo, we can!


* de raízes caboverdeana e guineense, nasceu em Angola, em 1956

domingo, 9 de novembro de 2008

OBAMA


OBAMA E UM ACTO DE CULTURA UNIVERSAL

Manuel Rui Monteiro

poeta angolano

Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.
Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.
Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.
Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o País; e se mudarmos o País podemos mudar o mundo. OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.
Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.
No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.
OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.
Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteiras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.
Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.
No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.
No século passado foi Mandela.
Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.
Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.
OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.
Como Agostinho Neto deixou escrito:
E DO DRAMA INTENSO

DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL

RESULTOU CERTEZA
AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS

NOS ALICERCES DO MUNDO

MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.
manuel rui
foto:Wikipédia


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

AHORA,PREGUNTO A...

.... los portugueses que leen este blog.¿Es verdad, que desde 1992 funciona en Lisboa la fundación "Alergia al Trabajo"?.
Si así fuese...me parece óptimo!!!.
Marita faini Adonnino-Argentina

Curiosos datos rescatados

DE SUEGROS Y YERNOS

"Según cuenta la historia,un tal Paul Laforgue desarrolló un documento que circuló durante el siglo XIX donde reivindicaba al ocio como una sana forma de vida. La cosa es que este señor no era ni más ni menos que el yerno de Karl Marx. O sea que mientras uno analizaba concienzudamente la relación entre el Capital y el Trabajo, el otro se convertía en el abanderado del ocio, a través de su trabajo denominado "El derecho a la pereza". Material que presentó ante el Parlamento francés para que se instituyera al 2 de mayo como "Día Internacional del Ocio", en honor a los 67 mineros de Dantzing (Polonia) asesinados durante una huelga a favor de una reducción de su jornada de trabajo.
La petición no prosperó y al hijo político del padre del Marxismo lo madaron a....trabajar.Sin embargo, la propuesta fue rescatada del olvido en 1989 cuando en Bordeaux (Francia), durante el intento de formación de la Internacional Ociosa, se elaboró un documento titulado "Prolegómenos para una sociedad del ocio". "

(Extraído de la Revista CH de Cable Hogar, número 110 de mayo 2007-Rosario-Argentina.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

el Oscar que no fue dado

Te vamos a extrañar,Paul. Sí, te extrañaremos, pero no por la luminosidad de tus ojos tan celestes, ni por tu talento, ni por tu postura de galán tan admirado, que conservaste hasta el final de tu tiempo en la tierra.
Con tu muerte ,el mundo conoció mucho más de tu vida. Tu humildad y sencillez, a pesar de tus glorias, tu gran corazón.
Cincuenta años al lado de tu esposa, el amor por tu familia y tu gran pasión, las carreras de fórmula, la ayuda a los necesitados.
Eras Bueno. ¡qué galardón!!!!
la vida te debe un Oscar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

EL BESO Y EL ABRAZO

Puede un beso herirme entra las violetas ( a la manera de Góngora "entre las violetas fui herido" ), lo que no me puede herir, es el abrazo.
Hoy es el día de los enamorados , aquí en mi país. ¿Será que muere el invierno? -¿será que ya está la primavera ?...Será...? Pero el aire está cargado de aromas confusos entre energizantes y somnolientos ...jazmines...violetas...narcisos y rosales. Será...tal vez...
y leo esto ,que escribieron en el blog , de los besitos que abundan y se regalan y se dan a brazadas ,sin conciencia, como un leiv-motiv para dar por finalizado un saludo oral,escrito o lo que sea.
A pesar de que el beso fue cantado por excelsos poetas, soñado por enamorados, causa de desmayos a jovencitas de otros siglos, despertado de un sueño de cien años o vuelto a la vida a princesas encantadas, no soy fans del beso.
El beso es peligroso va desde la indiferencia a la traición.Ese beso en el aire de dos que se encuentran. El Amor fue entregado con un beso y la maffia te condena con él.
Sé que hay besos que tienen el poder de trasladarte a otra dimensión, de dejarte a las orillas del espacio, de avivarte una hoguera en las venas y de santificarte. Pero el beso, como Jano, posee varias caras. Por eso soy fans del abrazo. No abrazo a quien no quiero hacerlo, pero me veo obligada a besar a quienes me saludan con ese ritual de moda.
¡Cuánto dice un abrazo!!!.Te acoge, te protege, te confunde con el otro, no se necesitan palabras.
Te abrazo. Aquí estoyAquí estamos hermano,amigo,hijo,tú.Aquí estoy. Aquí estás.
El domingo es primavera. También es el día del estudiante. Habrá besos y abrazos.
Yo? Yo, les dejo mi abrazo.
marita faini adonnino-Argentina

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O beijinho

Não sei exactamente quando começou a moda do beijinho em Portugal.
Bem, o beijinho acho que sempre existiu, naquela versão soft e minimalista do beijo e do beijão. Mas eu refiro-me ao beijinho como cumprimento, como saudação de encerramento de conversa telefónica, ou como forma de cumprimentos: beijinhos lá em casa !!!! E a casa a encher-se de beijinhos indiscriminados, sem destinatário nomeado, assim como quando a gente não se lembra do nome da esposo - ou do esposo - e se generaliza a saudação, beijinhos lá em casa. Fica bem e não magoa ninguém.
O que me confunde um bocado é quando os portugueses dão - ou mandam - "beijinhos grandes". Mas qual é a dimensão de um beijinho e, por arrastamento, qual a do beijinho grande. Acredito que quando alguém deixa, ou manda "beijinhos grandes" a alguém, está a dimensionar o apreço do destinatário. Não se mandam "beijinhos grandes " para a sogra. Quando muito - e é preciso que tudo esteja a correr bem entre todos - mandam-se beijinhos. Ponto. Grandes, só mesmo como expressão de um interesse escondido. Ou para engraxar alguém ou para engatar alguém.
Engraxar o chefe, mandando beijinhos grandes para a esposa é uma boa forma de engrandecer os beijinhos. Talvez daí venha uma promoção, sabe-se lá !!!???. Para engatar é capaz de ser um tanto arriscado usar os "beijinhos grandes". Olha, manda "beijinhos grandes" àquela tua amiga de ontem. O risco não estará propriamente no tamanho dos beijinhos, reside mais é no cumprimento ou não do amigo em "passar" os tais beijinhos de encomenda. Nem sempre (ou quase nunca) a carta chega a Garcia e...lá se vai o engate.
Me parece - corrijam-me se estiver errado - que o beijinho surge nos hábitos dos portugueses como forma de amenizar a força do beijo. Beijo é mais íntimo, ou mais familiar de nível UM. Ninguém se arrisca a dizer ao colega "manda um beijo à tua mulher". Que é lá isso????!!!! Beijo ?????Este gajo manda beijo à minha mulher ????? Vou ter de começar a tomar conta deles, ai vou, vou. Portanto, regra das regras, não se deve mandar beijo à mulher do próximo. Beijinho, beijinho é que se manda. É mais maneirinho e não tem conotação perigosa. O beijo pode ser mandado por SMS, fica lá entre eles os dois e o marido não precisa de ficar com a pulga atrás da orelha.
O beijão é outra coisa totalmente diferente. Tão diferente que poucos sabem o que quer dizer. Não admira. Os brasileiros é que criaram o beijão, não fomos nós. Eles lá sabem o que fazer com tamanho beijo. Vejam bem : bei jão. Não soa a exagero ? Eu acho, mas também devo dizer que venho do tempo do "beijo repenicado". Alguns de vós lembram-se. Aquele beijo sonoro, inocente, que se dava aos filhos para os chatear, que se dava entre pessoas da mesma família, em sinal de familiaridade. Beijo sem compromisso, amistoso, com visualização sonora.
O beijinho preocupa-me. De tanto se ter vulgarizado - muito por conta de um sentido de autodefesa, já aqui raspámos por esse assunto - o beijinho caíu na vulgaridade e perdeu sentido. É beijinho para tudo, para despedida, para agradecimento, para parte de cartão de visita. É a plebe dos beijos. Daí eu pensar que o "beijinho grande" veio para dar alguma dignidade ao simples beijinho. Sempre recebe um certo volume, uma certa forma de dimensão - é grande, não é pequeno.
A contradição, no entanto, mantém-se. Usamos o "inho" como maneira de diminuir, como forma de mostrar carinho, como símbolo da nossa pequenez. É "inho" para tudo. Adoro, por exemplo, quando pedimos a conta no restaurante e o empregado vem solícito, reconfirmar: "é a continha"???? Continha soa a pequenino, devia ser mais pequena do que a conta, mesmo que não seja. E sabe-se que não é nunca. Mas amolece as tentações reivindicativas.
Uma forma de manter alguma dignidade aos beijinhos é acrescentar-lhe "muitos". Muitos beijinhooooos.... Não se levanta aquele problema da contradição dos "beijinhos grandes" - se são inhos não podem ser grandes, se são grandes não podem ser inhos - e sempre ajuda a mostrar alguma consideração pelo destinatário - beijiiinhooooossss, assim prolongando as vogais, dá-se corpo ao beijo e não nos comprometemos demasiado. Só damos ou mandamos beeiiijiiinhoooosss, em despedidas à distância, seja pelo telemóvel seja de um passeio para o outro. E a ética fica defendida.
Os "beijinhos grandes" é que, na minha humilde opinião, estão a precisar de uma revisão do acordo ortográfico. A menos que os brasileiros tenham a soberana vontade de lhe dar identidade e passarem a usar nas telenovelas "bêjinios grandisss". Aí teremos que rever não só o acordo mas também os nossos hábitos aliás, abalados com o"colocar" no lugar de "pôr". Certamente já repararam, os portugueses deixaram de pôr e passaram a colocar. Grave será se, num arranque de personalidade começamos a colocar beijinhos...grandes.
É caso para nos preocuparmos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Angola escolheu a Paz

As recentes eleições angolanas levantaram, muito antes de se realizarem, imensos comentários e muita intriga política, não sei se da chamada oposição - de que alguns elementos preponderantes incitaram ao voto no MPLA - ou se de forças mais ou menos ligadas aos grandes interesses económico-financeiros capazes de fazer ferver nervosos miudinhos em pouca água. O mote foi o mais básico: que as eleições podiam ser agitadas, que os diplomatas tinham que informar as autoridades sobre as suas deslocações com prazos anormalmente dilatados, que poderia haver perturbação urbana, enfim, que se iria viver um clima de terror e de insegurança total. Em complemento, houve gente a correr aos mercados para açambarcarem tudo o que havia de comer para um mínimo de duas semanas. O governo e o partido que o suporta, sabiamente do alto dos seus 33 anos de experiência de poder e de controlo de intrigas palacianas, geriu com bastante eficácia a torrente de "bocas" desestabilizadoras e assegurou um clima de segurança para os dias eleitorais.

Estou em crer que a forma como decorreu o acto eleitoral em Angola, mais do que um sinal de maturidade política, constituiu um aviso sério à chamada comunidade internacional, que tem a mania de mandar em tudo: façam o favor de não se meterem connosco, sabemos fazer o que tem de ser feito, estamos em nossa casa e em nossa que manda somos nós, venha daí o grupo de excursionistas internacionais travestidos de observadores, tipo fiscais de actos eleitorais.


Num país pobrezinho, sem meios nem recursos naturais, os tais observadores poderiam ter um papel de protagonistas e obrigarem o pobrezinho a novo acto eleitoral, caso detectassem qualquer anomalia por mais pequena que fosse. No caso de Angola, acabada de ser considerada o maior produtor africano de petróleo, qualquer "boca" que fosse dos observadores entraria a 100 e sairia a 200 dos ouvidos angolanos. Para as autoridades angolanas, é para o lado que dormem melhor. A comunidade dita internacional - ou parte dela - tem de perceber que Angola e seus governantes, por muito que sejam merecedores de críticas só faz o que entende que lhe dá proveito e não faz concessões.


A chefa italiana do grupo de observadores mandou umas bocas críticas, a observadora portuguesa Ana Gomes mandou outras para, poucas horas depois, virem a público desdizerem-se. Não perceberam aquelas alminhas que Luanda não é propriamente a sede da União Europeia e que os angolanos não são, nem serão nunca europeus, nem mesmo em termos de democracia dita ocidental.


Bastante antes do período eleitoral eu tinha percebido a inclinação do voto dos angolanos - o que eles queriam era que a guerra não voltasse mais - ainda que as discrepâncias sociais estejam demasiado acentuadas. Ao darem uma tão expressiva vitória ao partido no poder, os angolanos quiseram dizer que mais vale viver na estabilidade, ainda que socialmente desamparados, do que apostarem numa mudança e arriscarem-se a repetir dias amargos. Para lá disso, nenhum dos partidos da Oposição soube cativar o eleitorado com um programa realmente interessante. Em contrapartida, o MPLA, do cimo do seu poder imenso, mostrou serviço anunciando programas e desenvolvimento, de alojamento, de recuperação de terras, de melhoria das condições básicas de vida. Seria utópico esperar que, seis breves anos após a paz, tudo estivesse já feito e regularizado e as pessoas se sentissem plenamente realizadas na sua independência. Em eleições consideradas transparentes e correctas, os angolanos escolheram a paz, ainda que a cruzinha devesse ir para outro quadradinho que não o 12º da lista.


O problema da falta de cadernos eleitorais ou de centros de voto por montar é bem pouco merecedor de crítica, num país enorme como Angola, em fase de construção da sua identidade política.


Ninguém quis recuar a 1992. Ainda bem. Agora, Angola vai poder respirar e, nas calmas, à boa maneira africana, organizar a sua vida como muito bem entender.


A comunidade dita internacional que faça os seus trabalhos de casa para as próximas eleições.


terça-feira, 9 de setembro de 2008

A los que cumplen años hoy, nueve de setiembre, entre ellos, Helder, que suenen las campanas a gloria de todos los campanarios.
Marita

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Vida e Morte


a morte é algo importante mas não tanto como a vida....
A vida é que é importante....
...a morte só o é porque termina com a vida. É mais forte, mas também é mais curta....vive-se mais (em tempo) do que se morre, isto é,
não dá para gozar, para aproveitar....a vida aproveita-se, goza-se....CARPE DIEM não é?
A morte é final, definitiva, sem apelo...morre-se e, pronto...acabou....quem fica é que fica a sofrer...quem morreu já não se importa com nada...."et pour cause" !!!!!
A vida é coisa bem mais complicada, porque está na consciência....não se coloca aqui a questão dos em estado de coma ou dos doentes incapazes de usarem o cérebro.....vive-se porque é para isso que se nasceu, há um prazo de validade, morre-se quando se esgota o prazo...
Nunca se sabe quando se vai nascer e nunca se sabe quando se vai morrer, mas, a morte, pode ser programada - amanhã, às 20.30, vou morrer....e amanhã a essa hora, faço qualquer coisa que me acabe coma vida, sei lá, um tiro, um veneno, uma punhalada, um afogamento com uma enorme pedra atada às pernas, um mergulho para debaixo de um comboio, um assalto a um banco à espera de um "sniper" misericordioso...pode-se morrer por marcação,. ..mas não se escolhe nascer ....
o chato mesmo é nascer-se com dor e morrer-se com dor...não tem piada nenhuma...
O nascer não depende do nosso controlo, é assim e pronto, sai-se daquele ninho quente para se entrar num ambiente verde ou azul, conforme o hospital, às vezes com um monte de tubos ligados ..
Mas, morrer, devia ser por escolha própria....excepto aquela morte estúpida do acidente de viação, ou da doença terminal...
Muitos costumam escrever nos seus diários que gostariam de morrer ... "de morte natural". Mas isso não é uma redundância? A morte é a coisa mais natural que temos na vida,.,.. ou não será?
Pesando bem os prós e os contras de viver e morrer, ...
sou levado a crer que a Morte ganha à Vida ...
Não lhes parece? Quem acaba com quê?...
É a vida que acaba com a Morte? Não, quando muito, acaba NA Morte.
Mas é a Morte que acaba com a Vida.
Um a zero para a Morte.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Regresso à mediocridade




Antes de os Jogos Olímpicos 2008 , na fase preparatória, os portugueses foram convencidos pelas mais diversas formas de propaganda de que iriam viver muitos e felizes momentos de atletas lusos subirem ao pódio.


Com o passar dos dias, perante resultados que não correspondiam às expectativas geradas pelo orçamento de 15 milhões de euros (que só foi divulgado quando as interrogações começaram a surgir), começou a fixar-se sobre o tecto nacional uma pesada sombra de descontentamento, agravada por aquela outra, bem mais preocupante derivada do pesado endividamento das famílias portuguesas.


Se o futebol já não mitiga as ansiedades lusas viram-se então os holofotes para os feitos pessoais dos nossos atletas olímpicos na esperança de uma breve recuperação da auto-estima nacional.


Vanessa Fernandes, aquela menina de aspecto frágil e aparelho de correcção dos dentes, deu mais uma vez o seu contributo com o segundo lugar no triatlo feminino. Ao carregar sobre os ombros o peso dos numerosos títulos ganhos nos grandes encontros mundiais, Vanessa era favorita. Mas não aguentou a passada daquela australiana vencedora. Paciência, ficou-lhe a prata de honra e deu-nos uma grande alegria.


Rapidamente nos virámos, uma nação inteira, implorando em silêncio um milagre, para o nosso Nelson Évora do triplo salto. Que engraçada esta coincidência dos tris medalhados, tri-atlo, triplo-salto.


Com uma de prata e outra de ouro, suspeito que já não haverá ninguém com vontade de questionar os 15 milhões de euros que pagámos para a nossa representação olímpica.
E vamos ter assunto de conversa por um bom espaço de tempo. E o Governo agradece o bónus dado por estes atletas por poder usufruir de mais uns tempos de desvio colectivo dos reais problemas do país. Os 15 milhões acabam por representar um bom negócio.
Somos bons corações, perdoamos depressa, retratamo-nos nos feitos isolados de alguns seres excepcionais e regressamos à nossa mediocridade passada a euforia.


(fotos Wikipedia)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O BANCO



Mais triste que uma praia sem sol, uma criança sem sorriso, só mesmo um banco sem ninguém.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Muxima, coração







Em Muxima respira-se paz, tranquilidade, sublimação. A capela do século 17, a santa Nossa Senhora da Muxima, o rio Kwanza ali tão sereno, tão potente.
Não há turistas japoneses de máquina fotográfica agarrada às mãos, não há vendedores de souvenirs, não há velas à venda para queimar, não há crentes a andar de joelhos (até porque não há joelhódromo), não há bancas de venda de cruzes, nem de imagens religiosas em plástico. Também não tem câmaras de televisão nem directos. E ninguém anda a pedir contribuição financeira para fazer obras na ermida.
No entanto...no entanto, a ermida está tão nova como há séculos. É o mais carismático centro de catolicismo de África. Os crentes devotam sua fé na Senhora da Muxima, a senhora do coração dos angolanos católicos.
Diz a lenda que a santa apareceu ali sem niguém a ter colocado lá. Há dúvidas sobre se foram os holandeses ocupadores de Angola por cinco anos, ou se foram os portugueses colonos residentes que fizeram tanto a igreja como o forte, hoje catalogados como património mundial pela UNESCO. Mas, se os holandeses nunca foram católicos, como é que iam construir uma igreja católica ali, a uns 180 km de Luanda? O forte, ainda vá lá que não vá mas, a igreja ...
O que interessa é saber que um dia alguém decidiu mudar a santa de lugar e que, sem intervenção humana, ela voltou ao seu pedestal original.
E que Carlos Aniceto Vieira Dias escreveu uma das mais universais melodias de todos os tempos, cantada pelo duo Ouro Negro, cantada pelos angolanos na diáspora, cantada quando dói o coração. "Muximaaaauê". "Kuato dilagi mugibê" é o refrão. Não sei o que significa, alguém pode me ajudar?
Muxima tem o dom de impressionar pela quietude e, a senhora da Muxima, deposta ali por Nossa Senhora (segundo a conveniente lenda), transporta os crentes e os não crentes ao estado ideal de equilibrio com o universo...é a paz que ali se respira, a simplicidade de tudo, a doçura das mulheres seguidoras do culto a cuidarem da igreja como mãe que cuida do filho, que nos transportam a um patamar da existência, desconhecida para a maioria dos crentes e, sobretudo, para os descrentes.






segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Discurso do século

O Discurso do século

Um surpreendente discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena, advogando o pagamento da dívida externa do
seu país, o México, deixou embasbacados os principais chefes de Estado da Comunidade Européia. A conferência dos chefes de Estado da
União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus
ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.

'Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil
anos, para encontrar os que a descobriram só há 500 anos. O irmão
europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder
descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o
pagamento - ao meu país -, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.
Consta no Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas. Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação decapitais não foi mais do que o início de um plano 'MARSHALL MONTEZUMA', para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, dapoligamia, e de outras conquistas da civilização. Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?> Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300. Isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue? Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica...'

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira dívida externa.

domingo, 22 de junho de 2008

Grande


Este menino de 13 anos de idade, Miguel Oliveira, ganhou hoje no circuito inglês de Donington, a corrida Red Bull Rookies Cup, toda ela feita sob chuva.

A vitória do jovem piloto português não podia acontecer em melhor hora, à frente dos grandes pilotos e equipas da moto GP que se encontram em Donington para disputarem o Grande Prémio da Inglaterra de motociclismo.

Se Portugal nos dá poucas razões de orgulho e autoestima nesta fase de profunda crise económica, a vitória deste menino num evento internacional sempre ajuda a recompor o sentimento nacional.

Não será por ele, Miguel, ou pelo Mourinho, ou pelo Figo que os portugueses vão ver as suas vidas sairem do buraco em que estão mas os seus feitos sempre podem servir de exemplo de força de vontade de vencer que é coisa que parece estar a faltar em casa lusa.

domingo, 15 de junho de 2008

Pequenino


Portugal, olhado do lado de fora da Europa, fica reduzido à sua verdadeira dimensão de país sem importância. É como se uma lente de diminuir estivesse virada em permanência para o pequeno rectângulo e nos retirasse todas as possíveis ilusões de óptica sobre o Éden lusitano.

Com a notória capacidade dos governantes de desgovernarem tudo, a leitura dos jornais domésticos - via Internet - mostra-nos um Estado de norte perdido, sem soluções, resignado com o seu triste fado de ser a eterna cauda da Europa. E, como se sabe, a cauda está muito perto do lugar de descargas fedorentas. Nada se pode esperar de bons augúrios com tão vil colocação.

E como se não bastasse, a "nossa selecção" perdeu vergonhosamente com a Suíça, de quem se dizia que seria arrumada em dois tempos, com o mínimo de três golos. Os grandes analistas, mais os responsáveis da equipa, mais os senhores da federação da bola já foram dizendo que Portugal jogou com a equipa de reserva, com as segundas linhas, que o árbitro prejudicou a equipa, tentando amenizar uma derrota- imagem do desgoverno de pessoas cujos rendimentos num mês são superiores ao que muitos lusos nunca ganharão numa vida de trabalho.

Para nós, para os emigrantes,especialmente para os portugueses na Suíça, o dia seguinte ao desta derrota será amargamente engolido com as graçolas bolsadas pelos suíços para quem trabalham.

Ou será que quem jogou com a Suíça não era a selecção nacional portuguesa, aquela que faz milhares de portugueses vestirem as cores da bandeira e correrem aos estádios para apoiarem os jogadores ou para manifestarem, por hora e meia, uma réstea de orgulho, uma esperança de vitória do país sobre o desgoverno?


segunda-feira, 9 de junho de 2008

Quantos poemas tem a noite?


Eu não sei ... deve ter muitos


...aqueles que quiseres ter


...aqueles que souberes ler


...aqueles que te fazem falta


...e ainda aqueles outros


de onde saiem gritos e dores


sussurrados com timidez


de quem está em crédito.




Na coluna da direita, na Sala de Visitas, costumo deixar endereços de lugares onde ir ler um pouco de tudo à distância de um clic (destesto isto da distância do clic mas hoje os meus neurónios de estimação entraram em suspensão) ... são blogs onde me estendo e me deixo envolver ... e que gosto que quem aqui vem se sinta bem e vá até lá esticar o pensamento.


Hoje, descobri mais um "must" de leitura em


http://quantospoemas.blogspot.com/ assinado por MIRABILIS (ou SHERAZADE)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Europe's cheapest petrol / Greenland - Gasolina a 50 cts/litro

Notícias AFP

Where to find Europe's cheapest petrol? Greenland.
by Slim Allagui

ILULISSAT (AFP) - At a small petrol station dating from the 1960s in Greenland, SUVs queue to fill up with the cheapest gas in Europe, at just 3.77 kroner a litre or 50 euro cents (78 US cents).
The low price is not an advertising coup nor public relations campaign, just the regular price for petrol in Greenland, the biggest island in the world with only 57,000 inhabitants.
"And I find the price a little expensive," says Julius Saldgreen, 49, at the wheel of his jeep after picking up his two daughters at school.
By comparison, a litre of unleaded 95 cost 1.52 euros in France and 1.49 euros in Germany last week, while diesel went for 1.45 and 1.48 euros, respectively.
At the other end of the scale, Americans are reeling at the thought of paying almost 4.0 dollars a gallon or 0.68 euro cents a litre.
In Greenland, a Danish autonomous territory since 1979, the local government has long had a retail monopoly on energy, offering generous tax rebates on super unleaded, diesel and heating fuel.
"We do it to help hunters and fishermen in particular, since they have low incomes and the living conditions in the Arctic are tough, with long and very rigorous winters," the head of the local government, Hans Enoksen, told AFP.
In order to maintain low prices even in the most remote parts of the island, the local government has signed long-term contracts for stable charges with the oil companies and stocked enormous quantities of petrol in reservoirs that dot the entire coast.
Price display for fuel is seen at a gas station in Ilulissat©AFP/File Slim Allagui
A "wise approach" hailed by the islanders, according to Saldgreen.
But some are nonetheless unhappy, such as Jan, one of 30 taxi drivers in the western town of Ilulissat who finds "the petrol price too high lately."
His colleague Per disagrees, saying the price at the pump is reasonable.
"But it can't hit five kroner like it did a few years ago, which led to protests from the fishermen who blocked Royal Greenland's fish processing and packaging factory in order to push for higher fish prices, the only way to counter the high diesel price," he explains.
"A rise in petrol prices would lead to higher transport costs and higher inflation. That would penalise consumers and especially the fishermen and hunters, who are already affected by the global warming that is threatening their livelihoods," Per says.
In Ilulissat, a town inscribed on UNESCO's world heritage list, the colourful boats belonging to the halibut and shrimp fishermen are docked in the port.
The fishermen, like everyone else, pay the same low price for diesel as for petrol and heating fuel.
"Otherwise we would have a hard time making ends meet since global warming is causing the Ilulissat glacier to recede," says Knud Kruse, a 41-year-old fisherman who has trawled Greenland's waters since the age of 19.
The glacier is one of the most active in the world, with icebergs breaking off into thousands of pieces into the fjord, "making it hard for us to navigate and lay out our lines," he says.
"I think our leaders understand that we need cheap fuel otherwise there would be no more fishing and this has been the islanders' way of life since the beginning of time," he says.
"When we get paid 6.25 kroner (90 euro cents) a kilo (2.2 pounds) for halibut, the slightest increase in diesel prices hits us full-on."

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A flor

Todos os anos por esta época sou presenteado com lindas rosas no meu quintal na aldeia. São de uma roseira encostada ao muro de divisória com a minha prima.

A rosa não é propriamente a minha flor preferida. Aliás, acho que não tenho nenhuma preferida. Gosto de tudo o que é flor, mas estas rosas têm um significado especial. São de uma roseira plantada pela minha mãe há, provavelmente, uns 40 anos. O espanto não está somente na longevidade da planta mas também na sua capacidade de resistência aos maus tratos que recebeu durante algum tempo quando lhe encostaram um monte de terra e cimento das obras. Esteve tapada durante um ano, abandonada. Algo porém lhe permitiu sobreviver não só ao tempo, às intempéries, aos invernos e verões assim como à falta de respeito dos operários das obras. Aí está a vingança dela: presentear-me todos os anos com as suas belas flores.

Esta roseira é uma resistente.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Maio de 1968 - Maio de 2008



Quarenta anos.

A revolução estudantil que abalou a França e fez tremer muitos regimes.

Naquele tempo existiam convicções fortes, ideologias fortes, espírito crítico. Não sei se hoje ainda restam alguns daqueles fósforos capazes de atear a fogueira da necessária revolução das consciências.

O resto acabou

Há textos que nos dão um murro no estômago e nos fazem dar voltas de insónia na cama.
Este, "O resto acabou" de Isabela, no seu blog "O mundo perfeito" http://omundoperfeito.blogspot.com , para além da inevitável perturbação, coloca-nos perante uma pequena obra de arte literária.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Reticências apenas !...


Reticências...
Reticências da vida...
Reticências vividas...
Reticências de reticências...
Lili Laranjo acaba e publicar o seu 4º livro de poesia "Reticências apenas!..."
Nos dois últimos, Cidália de seu nome, deixa escapar o grito de saudade da terra onde cresceu, se fez mulher e mãe...
neste, Lili é mais reflexiva...e mais universal.
As inúmeras ilustrações de sua autoria - incluindo a capa - completam o toque de sensibilidade artística da Lili.

sábado, 26 de abril de 2008

Liberdade


Parece que ninguém está contente com o "25 de Abril". Uns porque ainda falta cumprir o sonho revolucionário, outros porque no tempo da "outra senhora" é que se estava bem.

Neste dia, é reconfortante ouvir as declarações oficiais dos políticos. O Presidente da República, cuja insensibilidade para com a juventude quando foi governante deixou profundas marcas em gerações, veio, com ar piedoso, "denunciar" a ignorância dos jovens sobre a história recente do país. Mas então o que é que ele quer? Nos longos anos em que foi governante, dos milhões que recebeu da Europa, quanto é que ele "deu" para a educação para além dos muitos milhões para aquele mastodonte do Centro Cultural de Belém?

Os "capitães de Abril", os que não foram fazer negócios milionários de armas, formação militar, empresas de segurança, import-export com as ex-colónias, vêm a terreiro chorar saudades daqueles tempos de tempestade revolucionária e queixarem-se de que as reformas são baixas.

"Retornados" abrem os baús das memórias e deixam cair mais uma lágrima saudosa sobre a foto do que "lá tinham".

Toda a gente se queixa do "25 de Abril" pelas mais variadas e pessoais razões.

De uma coisa não se queixa ninguém - da Liberdade que a revolução trouxe e o regime democrático institucionalizou na Constituição.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dia do Livro


Continuo a preferir o livro em papel aos livros em suportes informáticos que os grandes de Silicon Valley tentam impor-nos. Não há nada como o contacto quente, sensual, quase carnal de um livro nas mãos. Tê-los arrumados em prateleiras, com as lombadas a convidarem-nos para um encontro que será sempre profundo, é ter a sensação da companhia de algo superior que nos transcende.

sábado, 19 de abril de 2008

O real e a fantasia


Como sempre, vou ao Café da Teresa buscar as vianinhas do costume. Quatro chegam para alimentar o pequeno almoço. Lá para o fim da tarde, passa a carrinha do Carlos, enchendo a rua de prolongadas buzinadelas, tipo sirene de ambulância mas sem doentes lá dentro. É a carrinha do pão - dos vários tipos de pão, menos carcaças - que pára à porta para te alimentar o jantar se as vianinhas da manhã tiverem acabado. Assim se vai vivendo na aldeia do século 21.
De manhã, no Café da Teresa, há mais mulheres do que homens, o que não deixa de ser peculiar. Todas vão lá tomar o pequeno-almoço. Galões, torradas, bolos, croissants, num festival de açucar escondido nos travesseiros, bolas de Berlim, pãezinhos de Deus e sei lá que mais delícias da pastelaria portuguesa. Não admira que as mulheres da manhã no Café da Teresa sejam roliças, obesas até. Entre conversas de mesa para mesa - elas conhecem-se umas à outras - irmanadas numa comunidade assente no café da manhã, as mulheres da minha aldeia, aquelas que não tomam o pequeno almoço em casa, discutem coisas impportantes da nossa sociedade. A nova namorada do Cristiano Ronaldo tem sido tema recorrente. Et pour cause. As revistas espalhadas pelas mesas são incitações subliminares à discussão do tema.
Nunca as ouvi falar do Governo, do Presidente da República nem mesmo do Presidente da Junta de Freguesia. Não devem fazer parte das suas preocupações. Nem falam da chuva e do bom tempo o que não deixa de ser notório numa região que vive à base da agricultura. Isso é conversa de homens.
Tomo o meu café, mentalmente calculo o custo das 4 vianinhas - 15 cêntimos cada uma dá 60 cêntimos pelas quatro - mais 50 cêntimos pela bica, ao todo 1.10.
Com ar compungido a moça dá-me a triste notícia. O pão aumentou, agora são 18 cêntimos cada.
Ah aumentou? Então levo três.
Café 50 cêntimos mais 3 X 18=54. Total a pagar 1.04.
Ainda dizem que vida está cara. Poupei 06 cêntimos.
Das mesas femininas chegam-me sons dispersos onde consigo distinguir algo como "mas ela não estava grávida"?
Acho que nunca saberei de quem estavam a falar.
Mas devia ser o assunto mais importante do dia.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A núvem


Hoje havia uma grande e ameaçadora núvem escura sobre as terras da minha vista.

E havia sol um pouco mais perto.

Momentos meteorológicos, passageiros.

Pouco depois, a minha vista chorava de chuva grossa.

E a núvem esbateu seus contornos na paisagem.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

LA DIVINA LOCURA


Es posible que el verde no sea el amarillo ni sea el azul, pero es posible que sea el amarillo y el azul mezclados.
Así son la realidad y la ilusión. ¿Existe la realidad?. Existe.
¿ Pero , todo es realidad?.
¿Existe la ilusión?. Existe.
¿Pero, todo es ilusión? ¿Se puede vivir sólo de ilusión o de realidad?.
Los inflexibles, aquellos que no se inclinan ni para saludar, dirán: La realidad es lo que vale. Dejemos los sueños a los tontos.
¿Podría el mundo avanzar si no existiera la ilusión sobre la vida?.
La ilusión es la ventana por la que el hombre sale de cualquier cárcel.
¿Por qué estoy hoy deambulando por los caminos inasibles unos, bien trazados los otros, de la ilusión y la realidad?.Porque termino de leer un poema de Fernando Birri que me ha impactado.

DON QUIJOTE Y LA MUERTE
(devaneos del flaco hidalgo mientras se está muriendo)

Estoy muriendo,
lo sé
porque entreabro mis ojos
y veo frente a mí la realidad.
Esa enemiga.
esa perra flaca
y gruñidora.
Buenos amigos me fueron
los sueños.
Y el más fiel,
el delirio.


Sancho, Sancho,
en cualquier lugar que tú te encuentres
ahora
no llores esta hora.
Tú ganaste.


Y cuando tú me decías
"son molinos"
yo lo sabía muy bien,
pero quería mostrarte
-no demostrarte
-mostrarte -
a ti que eras redondo
como el mundo,
a ti que eras el mundo,
el valor de la metáfora.


Molinos o gigantes
brazos o aspas,
qué diferencia pasa
entre el fulgor de mis ojos
que se extingue
y aquella otra estrella
Dulcinea,
muerta ha millones de años
que aún me sigue guiando ?


Sancho, Sancho,
tú eres la verdad.
Yo soy la mentira.


Pero cómo
quién
dónde
se explica
que con mi muerte
se te va la vida.

(fernando Birri-argentino ) Berlín-otoño del 96
Un poema que no exige explicación.Su mensaje es claro como "la realidad".La realidad es cruel,para enfrentarla necesitamos la ilusión. El Quijote muere cuando recobra la razón. La realidad, lo mata.
Beber un poco en la copa de la ilusión y la divina locura, es saludable.-
marita faini adonnino-Argentina

terça-feira, 15 de abril de 2008

O grande equívoco


O Presidente da República, cujas acções são conhecidas por nunca "dar ponto sem nó", decidiu pegar na sua Maria e ir passar uma semana à Madeira. Claro que, para justificar as despesas e não precisar de desembolsar os seus ricos euros, decorou o passeio com as cores de viagem de trabalho, com pendor cultural. Teve, à última hora, de amaciar uma outra vertente da sua excelsa visita. É que, para mobilar o programa de tão necessária como urgente deslocação presidencial os assessores presidenciais - aquela espécie de guarda avançada da chamada Casa Civil - tinham acrescentado uma importante actividade, seguramente percursora de futuros melhoramentos na vida dos madeirenses - contacto com as populações para avaliação do grau de desenvolvimento.


Isso é esquecer que a Madeira é governada há mais de 30 anos pelo mesmo reizinho que dança nas ruas em desfiles carnavalescos, cada vez mais semelhante na prática política àquele outro da Venezuela. Que a comitiva presidencial vá dar umas voltas "culturais" pela Madeira, o senhor da ilha ainda deixa. Mas contactar e avaliar o desenvolviento da região é que já não convém muito numa população onde 60% ainda é pobre. As obras de fachada realizada ao longo desses anos, úteis sem dúvida mas duvidosamente utilizadas como bandeira do regime madeirense, estão lá para justificarem as injecções de dinheiros do desenvolvimento comunitário. O turismo é na realidade a grande fonte de receitas da região. Sempre foi.


Graciosamente, porque não pode deixar de ser engraçado, é o grande equívoco em que esta excursão presidencial está envolvido e que o senhor da Madeira que já tratou - delicadamente como é seu timbre - o Presidente da República por "senhor Silva", conseguiu desoficializar a deslocação presidencial com a decisão de facilitar a não realização de uma cerimónia protocolar na Assembleia Regional a desejar-lhe as boas-vindas. Está percebido - sem as boas-vindas oficiais, a presença do Presidente da República na Madeira não é bem-vinda para o dono da ilha.


Admito até que para Cavaco Silva foi um alívio esta miúda trapalhada à moda da Madeira. Assim, ele e sua mulher, mais os assessores, poderão digerir com todo o tempo do mundo, os almoços e jantares oferecidos durante esta semaninha de férias "culturais".


Como diz povo: "são sempre os mesmos !!!!"

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Fogo que arde



Lá se vai arrastando aquela inutilidade olímpica que perdeu todo o significado e toda a glória. E, se por motivos publicitários, ainda merecesse algum respeito, o drama está em que nem por aí a chama, mais o facho, mais os patetas que a levam e a escoltam chegam ao patamar da dignidade.

Aquela parvoeira atingiu os cumes himalaicos do nonsense e só serve para meia dúzia de desocupados do mundo pegarem nuns quantos dizeres politicamente correctos e irem para a frente das câmaras de televisão. Achei uma graça contida ver aquele indivíduo já quarentão a ser levado por dois distintos cops ingleses e a declarar com o ar mais convencido do mundo que “é preciso libertar o Tibet”. Já agora - odeio esta lusitana manifestação de oportunismo mas, pronto, saiu - porque não aproveitar a presença das câmaras de televisão atracadas à porcaria da tocha (olímpica?) para reivindicar a libertação de outras zonas do planeta?. Como “aquilo” vai demorar uns tempos até chegar à China, os manifestantes profissionais poderiam fazer um contrato mais alargado e promoverem, à frente das câmaras de televisão à espera de mais umas detenções em directo, a libertação de outras regiões tipo Madeira daquele bronco do Jardim, ou do Algarve daquele pateta do Bota. Seria giro, sempre traria alguns dividendos e a televisão estaria por lá, obviamente.

Compreendo que a coisa tem a ver com a China e com os multimilionários jogos olímpicos em que participar não é o mais importante, me desculpe o senhor de Coubertin. Compreendo que se está a aproveitar a visibilidade dos Jogos para denunciar o desrespeito pelos direitos humanos na China. Compreendo que dá um jeitão aos guardiões dos bons costumes “ocidentais” a China fabricar tudo o que se compra no Ocidente a preços da chuva mas com uma lagrimazinha fugidia no olho para apaziguar a consciência desconfortável de se saber que grande percentagem das pechinchas foi feita por crianças mais ou menos escravizadas.

É um pouco como ostentar Armanis, Timberlands e outros Louis Vuiton e Chanel da Feira de Carcavelos e comentar que os ciganos são uns aldrabões. Please !!! Por favor, respeitem a inteligência alheia.

A política, que devia ser uma actividade digna e honesta tornou-se num meio de atingir fins pouco claros. E muito graças à televisão. O Tibet está a aproveitar esta excelente oportunidade para mostrar ao mundo que tem direito à independência. A China está a aproveitar esta oportunidade para dar uma iagem de modernidade e de “ocidentalismo”. Quando os jogos acabarem, voltará tudo ao mesmo lugar, a China continuará a controlar o Tibet e aquele simpático e inútil monge viajante de óculos pendurados num sorriso eterno, continuará a correr o mundo em busca já não se sabe bem de quê. Talvez angarie mas uns fiéis para o budismo mas não passará disso.

A televisão é que faz acontecer as coisas e já não são os acontecimentos que provocam a televisão. O aproveitamento mediático da passagem do facho – olímpico? – pelo mundo reduziu a zero a mística do significado histórico e multiplicou por mil o valor comercial daquele fogo fátuo. Tornou-se ridículo e sem valor esta progressão da chama que deixa um rasto de manifestações por esse mundo. As ameaças de boicote de algumas valquírias do politicamente correcto só contribuem para agudizar a curiosidade sobre a China. O Comité Olímpico, sempre atento na recolha de mais uns milhões de dólares para os seus dirigentes, não deixará de promover tudo o que for necessário para encher os estádios e os hotéis. E, as televisões, estarão lá todas não só para vender tempos de antena mas também na esperança de que aconteça alguma coisa que perturbe o bom desenrolar dos ditos jogos.

São Jogos de plástico, sem alma, sem crença. Como o foram os de 1936, quando o Hitler se serviu deles para mostrar o seu poderio ao mundo apesar dos boicotes por causa da perseguição que já fazia aos judeus.

Os Jogos Olímpicos modernos não são mais do que os jogos da hipocrisia e do faz de conta, só se salvam os atletas, aqueles que não se drogam por uma medalha.

E, a chama, símbolo já não se sabe de quê, lá estará olimpicamente acesa, fortemente guardada e protegida, para ser apagada em cerimónia de adeus lacrimoso.

domingo, 6 de abril de 2008

Quanto dói?


Há dores que não deviam existir, nenhuma dor, aliás, devia existir, mas infelizmente é assim que a coisa funciona e a dor, não aquela do dói-dói no cotovelo, a outra que não se sente na pele e, contudo, está fortemente impregnada por baixo dela e puxa algo de indefinido no peito e cansa algures na cabeça, essa dor presente desde o levantar até ao levantar seguinte, numa sucessão premente, pressionante, esmagadora.
Uma dor residente desde o primeiro minuto, que vai crescendo e refinando e fica pairando no espírito como que a tomar conta para que ela não saia, para que fique e se prolongue como se, assim sendo, tomasse por fenomenal transmissão a dor alheia, retirando-lhe força na vã esperança de que o sofrimento alheio se torne mais suportável. Duvido que haja dor realmente suportável mas, se calhar, há uma hierarquia da dor que desconheço. E, aí, fico com a eterna questão a respeito do grau - é dor de grau quantos aquela que me assola agora? E a dor de quem retiro esta minha dor, é de que grau?
Quanto dói perder um filho em acidente brutal, na mesma altura em que se vai acentuar a recordação de um ano de perda da mulher companheira de uma vida?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A mensagem


Somos, realmente, visitados por outros seres? Mas porque é que nunca nos mostraram nenhum, daqueles que dizem existir? Numa sociedade globalizada em que nada escapa à câmara do telemóvel ou à da televisão, admira-me que algum ser estranhamente extra-terrestre ainda não nos tenha sido apresentado. Aqueles desenhos circulares em várias partes do mundo, aqueles símbolos inexplicados, as marcas de civilizações antiquíssimas continuam a alimentar a fantasia e a curiosidae dos estudiosos.

Eu duvidava de tudo isso que não passava de invenção de gente estranha disposta a crer em deuses esquisitos até se me depararem estes desenhos numa praia. Certamente, quem os fez, tinha uma explicação plausível, provisória necessariamente já que mais hora menos hora, a maré levaria os traços e, quem passasse ali no dia seguinte, pouco mais encontraria do que uma areia lisa e alguns sinais de civilização materializados em garrafas de plástico e pedaços de rede de pescador.

Que mensagem continha este desenho?

quinta-feira, 27 de março de 2008

Embondeiro, o senhor da múcua




Nos meus tempos de puto radical em Luanda, a expressão "cara de múcua" queria dizer "estar chateado", "estar triste", quando muito "cara de parvo". Tás com cara de múcua. Era uma expressão ... inexpressiva. Servia para tudo o que quisesse dizer tristeza, negatividade.


Nunca me preocupei com isso, com a expressão. Naquele tempo recuado dos anos 50, Luanda era uma cidade pacata a espreguiçar-se devagarinho para cima da terra encarnada da parte alta. Lá em baixo ficava a baía, a ilha, e todas as fantasias dos miúdos daquele tempo. Éramos almirantes de grandes batalhas navais em combates ferozes contra os carapaus de gato ou contra as mabangas meio anestesiadas da poluição dos barcos. Tudo era muito simples, muito natural, até mesmo a paciência de mestre Alcino que insistia em nos incutir as técnicas de bem chinjicar os dongos da pesca e as redes do ganha-pão.


Mas tudo isso eram parentesis na minha adoração - não era admiração não - era mesmo adoração do grande embondeiro existente à beira da estrada de Catete, a estrela polar dos miúdos daquela Vila Alice nascente. Ali nos reuniamos para as grandes conquistas, ali descansávamos das grandes aventuras, ali trepávamos para prescrutar novos horizontes. Dali retirávamos as múcuas pesadas e gordas, que tinhamos de atirar para o chão para vencermos a resistência da casca e termos acesso à farinhenta fruta interior.
Na memória das papilas ainda reside aquele gosto acre que parecia fazer crescer cabelos nos dentes.


O embondeiro, imbondeiro, ou o que lhe chamem, é o elefante africano que não sai do lugar por entender que ali é que presta serviço na sua passividade de se deixar trepar e de ofertar os seus frutos. E, nisso, é mãe de colo aberto a todos os filhos.


Passados tantos anos, não esqueço aquele imbondeiro, está-me retido na retina, é o padrão do descobrimento da minha infância africana.

Un lugar en el mundo




Cuando la vida es enemiga a causa de la insensatez de los que sólo albergan odio y muerte, en algún lugar del mundo los hombres de buena voluntad, los que son capaces de detenerse para saludar al amor y abrazarse, ponen el peso en la balanza para equilibrar lo que intenta desvivirnos.
En esta ciudad que se levanta fresca y joven sobre un río generoso , "árabes y judíos tendrán una escultura que celebre su buena relación a través de los años en la ciudad de Rosario (-)La obra se realizará en bronce que se obtendrá en su mayoría de la donación de llaves( de esta manera todos podremos contribuir) y conforma una testimonia de la buena relación entre ambas comunidades. La esquina elegida constituye el epicentro de la actividad comercial que generan tantos judíos como árabes en la calle San Luis de Rosario.Allí , han sabido convivir año tras año.
(-) Esta escultura será un homenaje a las buenas relaciones entre ambos pueblos en Rosario"( extraído de Rosario,Noticias )
Como en el realismo mágico de las obras de García Márquez, esto sucede en la Argentina. Por eso amo mi país donde , a pesar de que se nos señale de desordenados, irrespetuosos de la ley, con un aire de tango al andar, corruptos en política, impuntuales , una voz en la calle nos hace dar vuelta para caer en los brazos de un amigo que sonríe feliz al encontrarnos.
Este realismo mágico hoy levanta una estatua en pleno centro para homenajear a los hijos de dos pueblos , que a pesar de la historia no pueden odiarse, porque aquí, aquí, sólo tienen cabida para la amistad.
Y así,mientras árabes y judíos eternizan su abrazo en bronce, el mar insomne lame con tristeza la arena de un medio oriente con sabor a lágrimas.
marita faini Adonnino-Argentina

segunda-feira, 24 de março de 2008

Perguntas à Língua Portuguesa

Mia Couto


Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Counter II

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