domingo, 1 de Novembro de 2009

AS IMAGENS DO LUIS

A INSUPORTÁVEL DAMA DO SAPATO VERMELHO

Ele faz o favor de me distinguir com uma admiração mais própria dos jovens em relação aos deuses da pop do que aquela de que me julgo minimamente credor: nenhuma.
Mas o Luís Fernando insiste em afirmar que me idolatra - o exagero é meu - desde os seus tempos de miúdo de escola e pé descalço no Uíge, antiga cidade de Carmona. Dizia-se ser a capital do café, a terra onde moravam mais produtores de café por metro quadrado. Curiosamente a riqueza nos bolsos desses “homens do café”, ou roceiros, em pouco ou nada se reflectia no desenvolvimento da cidade talvez porque grande parte do pecúlio ficava empenhado em cocktails falsificados nos cabarets da capital.
O Luís conta sempre a quem chega de fresco à redacção que o Helder era o ídolo dele naqueles tempos em que, como outros miúdos, corria morros e vales para ir ver as corridas de automóveis na cidade. Mal ele sabia, passados mais de 30 anos, que iria poder materializar a imagem dourada do homem do capacete ao volante de velozes e barulhentos bólidos a rasgarem as ruas de … Carmona. E, eu, mal sabia que iria cruzar-me com um antigo e incógnito admirador que, mais tarde, teria o sortilégio de reverter o sentido da admiração.
Mais do que antigo “kandengue” de pé descalço (como ele orgulhosamente se qualifica) num Uíge que ele venera e deseja fazer crescer, Luís Fernando é jornalista e escritor. Para mim, ele é um pintor sublime de palavras com que preenche telas de páginas da vida.
Se, em miúdo, eu era o ídolo dele por uma actividade efémera, agora, em idade adulta, ele é a minha referência perene em elegância na escrita. Escritor “compulsivo”, Luís Fernando faz do mais pequeno episódio do quotidiano uma estória e delicia-nos com a sua prosa alegre, corrida, expressiva.
Cada crónica dele, no jornal O PAÍS ou na revista VIDA é um manancial de figuras, de imagens que têm o condão de nos colocar directamente na acção.
Quem é que não está mesmo a ver o que é “uma respeitável dama entrada em anos, castigada pela impertinência da celulite “?
“A insuportável dama do sapato vermelho” é o título da crónica de Luís Fernando publicada na última página da Vida de 30 de Outubro deste ano. Pelo ritmo da escrita, dá a impressão que Luís Fernando a escreveu de um só fôlego, sem parar para pensar, na qual, nem o corrector automático do Word teve tempo de actuar.
É a história de uma senhora que entra, sem ter sido convidada, numa recepção dada por uma embaixada europeia, em Luanda. Se uma embaixada não é o sítio ideal para a intriga e o suspense, então não sei se haverá outro melhor para tal efeito cinematográfico. “Pareceu estranha a todos aquela voluptuosa irrupção num recinto que só concentrava casais”. Ambiente descrito, apresto-me a encostar-me ao balcão para testemunhar a sequência da prosa, quero dizer, do filme e já salivo os bombons de letras que se me apresentam a seguir.
“Cruzou na diagonal o rectângulo sem gente”, isto é, a dama atravessou um espaço vazio entre a entrada e uma zona onde se encontravam convivas. Imagino os olhares de uns … e de outras … até porque, o derradeiro troço da marcha que parecia decalcada a papel químico de uma noite de Óscares em Los Angeles” (estão a ver ???), “deu a todos a possibilidade de reparar na cor dos sapatos da misteriosa mulher: um vermelho sangue de absoluta vivacidade.”
A história desenrola-se em rápidas pinceladas de mestre. O homem a quem ela, a dama, tinha segredado qualquer coisa, “escapuliu-se em rápidos segundos, só, como se de repente um ataque de amnésia lhe tivesse arruinado o cérebro a informação de que tinha a acompanhá-lo, no cocktail de uma embaixada europeia, a mulher de toda a vida, a mãe dedicada dos seus seis filhos”.
Por respeito para com o autor e intenção pedagógica para com os leitores que deverão fazer tudo para lerem a crónica do Luis, não resisto a levantar, mesmo assim, um pouquinho mais da ponta do véu porque foi a mulher “de aspecto desmazelado por culpa implacável do tempo, da celulite e da vida rica, a lançar à desconhecida a óbvia pergunta: - quem é você?”.
Me desculpem os meus esforçados leitores, terei de omitir aqui a continuação do intrigante episódio que, de alma encantada e espírito em estado zen, não sei se aconteceu na realidade ou se, simplesmente, nasceu da inesgotável fonte criativa do Luís.
Retenho tão-somente a subliminar moral da peça onde surge mais uma voz a denunciar uma determinada forma de viver de novo-riquismo enfarpelado em belos fatos azuis às riscas “de um vencedor de nova vaga”.

hs

(consultar: www.vida.opais.net)







segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Mais uma de José Saramago

"a Bíblia é um manual de maus costumes" - Saramago

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

ZERO


In "Opinião" do Correio da Manhã


A partir de domingo, quando as autárquicas estiverem resolvidas e o pudor que qualquer campanha eleitoral impõe se dissipar, é natural o PSD volte a exibir, com abundância de pormenores, aquilo em que há muito se transformou: uma agremiação de luminárias sem estofo, capazes de se trucidar mutuamente, em nome de míseros interesses pessoais. A balbúrdia que se avizinha transformou-se, infelizmente, na imagem de marca do PSD.


Constança Cunha e Sá, Jornalista

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Não sou muito de alinhar na carneirada de fácil inserção, aquela que lança uma frase e a repete vezes sem conta, tapando qualquer outra intenção menos clara. Por exemplo, não alinho na ideia desvalorizadora de que o PS, que ganhou e bem as eleições legislativas, "perdeu 500 mil votos". Este número é a base da desculpa dos que perderam, como quem diz que "os tipos ganharam mas perderam", enquanto os que perderam de verdade bem manifesta nas urnas, cantam vitórias indiscutiveis. Quem chegasse agora à Terra e descesse no luso rectângulo, teria certamente alguma dificuldade em perceber esta lógica dos políticos perdedores que ganham.

Mas, o patético é "esta gente" como diz o inefável "Sinhozinho Malta da Madeira", teimar em manter a mesma estrutura mental anos e anos a fio. E, tudo o que propõe de construtivo é ZERO.

Não entenderam alguns dos muitos responsáveis políticos a clara mensagem deixada pelos eleitores ao relegarem para segundo plano um partido como o PSD, não lhe dando nem vitória nem confiança. E só não deram mais votos ao CDS do Portas porque ainda lhe falta "un petit je ne sais quoi".

Há um cheiro a podridão na política portuguesa. Mal foram conhecidos os resultados eleitorais e o CDS subiu o que subiu, surgiram logo notícias sobre a questão dos submarinos "comprados" pelo Portas na qualidade de ministro da defesa. Esgotado - por enquanto - o filão Sócrates, os fazedores de destruição viraram-se para os submarinos. A política portuguesa é tão baixa que já conseguiu ultrapassar o nível do mar.


helder de sousa



sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

CÍCERO

SEM COMENTÁRIOS


Socorro-me da Wikipédia para conhecermos melhor este senhor.

Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C.Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano.

Cícero é normalmente visto como sendo uma das mentes mais versáteis da Roma antiga. Foi ele quem apresentou aos Romanos as escolas da filosofia grega e criou um vocabulário filosófico em Latim, distinguindo-se como um linguista, tradutor, e filósofo. Um orador impressionante e um advogado de sucesso, Cícero provavelmente pensava que a sua carreira política era a sua maior façanha. Hoje em dia, ele é apreciado principalmente pelo seu humanismo e trabalhos filosóficos e políticos. A sua correspondência, muita da qual é dirigida ao seu amigo Ático, é especialmente influente, introduzindo a arte de cartas refinadas à cultura Europeia. Cornelius Nepos, o biógrafo de Ático do século I a.C., comentou que as cartas de Cícero continham tal riqueza de detalhes "sobre as inclinações de homens importantes, as falhas dos generais, e as revoluções no governo" que os seus leitores tinham pouca necessidade de uma história do período.[1]
Durante a segunda metade caótica do século I a.C., marcada pelas guerras civis e pela ditadura de Júlio César, Cícero patrocinou um retorno ao governo republicano tradicional. Contudo, a sua carreira como estadista foi marcada por inconsistências e uma tendência para mudar a sua posição em resposta a mudanças no clima político. A sua indecisão pode ser atribuída à sua personalidade sensível e impressionável: era propenso a reagir de modo exagerado sempre que haviam mudanças políticas e privadas. "Oxalá que ele pudesse aguentar a prosperidade com mais auto-controlo e a adversidade com mais firmeza!" escreveu C. Asínio Pólio, um estadista e historiador Romano seu contemporâneo.
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quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

09.09.09 - NOVES FORA, NADA

Parece que o dia de hoje é um dia especial pelo facto de ser uma data interessante: 09.09.09. Francamente não sei se tem algum significado especial seja em que enquadramento – cabalístico, cronológico, calendário, número capicua (999) – donde, vejo minhas preocupações diárias viajarem para o destino do costume: trabalho, amigos, rotinas.
Acedo, mesmo assim, a fazer uma breve reflexão e, ocorre-me fazer a prova dos nove. O resultado não me parece muito animador, noves fora, NADA. Francamente, gosto pouco de nada. Não devo ser o único. Prefiro cultivar o positivo. Nada invoca-me niilismo, vazio, o culto do não ser, a implosão da subjectividade, como alguém o definiu.
Os niilismos moral e político, por exemplo, podem ser deduzidos do niilismo existencial; pois, se a própria existência não tem valor, isso implica que nada tem valor, inclusive valores morais, inclusive o progresso.
O único modo de compreender o niilismo existencial é através da reflexão. O vazio da existência nunca poderia ser demonstrado através da prática, ou apreendido por meio da experiência imediata. Se, por exemplo, reduzíssemos nosso planeta a nada com bomba nuclear, isso não demonstraria coisa alguma; a visão desse planeta despedaçado também não provaria nada. Tal postura destrutiva prática não faz o menor sentido; equivale a tentar refutar um livro queimando-o.
O niilismo existencial se demonstra quando reduzimos o homem a nada, e para isso basta possuir algum talento intelectual aliado à honestidade, pois o esvaziamento da existência é a mera consequência de a entendermos. Não precisamos degolar a humanidade inteira para provar que a vida carece de sentido.

Socorri-me aqui de um ensaio tirado de Ateus.net para ajudar os meus amigos leitores a perceberem melhor o meu afastamento do Nada. Para mim foi bastante fácil – com tudo reduzido a Zero, nem me preocupo em fazer o “noves fora” simplesmente porque não há nove nenhum em Zero.
E tudo se simplifica.
E eu saio de cena, ufano e imperial, montado na minha quadriga de vaidades passageiras .
E, com algum descaramento, dou meia volta (U TURN como dizem os ingleses), e instalo-me de novo na importância do dia de hoje : 09.09.09.
Mando o niilismo às urtigas, o noves fora para o caixote do lixo, pego no megafone e digo às massas: acreditem que o dia de hoje é mesmo importante – faço anos.

mirando el otro lado de la luna

un ramo de rosas té y somnolientos jazmines tropicales en el día del cumpleaños de un amigo.
Un abrazo desde el alma-marita

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Na senda do silly.,...........




Na senda do silly...



oh!!! que novidade....não é preciso procurar muito...



enfim, finalmente, começaram a aparecer os actores da peça...



frentes a frentes......faixavor....tão possidónios....



declarações de princípios...faixavor.....tão básicos...........



comentários e comentadores....pleeeeaaseeeeeee....



já não é o país que está em crise de inteligência.,...



é essa Europa velha e estúpida, de mamas descaídas,



em busca de protagonismo ... político??? só???? não acho....



económico....? não me parece ......



...anda-se a fazer de conta.... a representar uma comédia....



ou será um drama????



uma farsa, talvez ...........!!!!!!!!!!!!!!!


Merkel who????


Sarkozy, quem ????


Brawn, ..... ????








sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Silly ... what ????




Seguir o país através dos noticiários da RTP África ou da Sic Notícias torna-se um exercício letal para a inteligência. O mínimo que pode acontecer é…adormecer. A questão é simples: não se vê, não se ouve, nada de interessante, como se a inteligência da nomenclatura nacional tivesse sofrido de súbito trombo com graves consequências sobre a expressão das ideias.
À distância, seguir o país pela televisão assegura uma dolorosa caminhada no reino do não ser.
Diz-se, nesta época, que se está na “silly season”, uma expressão usada pelos ingleses para dizerem que no Verão, não acontecendo nada de relevante, os jornais “inventam” histórias “tontas” para “venderem papel”. “Silly Season” desculpa tudo, define tudo, perdoa tudo, afirma tudo. Talvez por isso os políticos se aproveitem do clima propício à tonteira para dispararem os seus lugares comuns mais vazios e mais pobres de sentido. Eles julgam que estão a ser religiosamente ouvidos e acreditam até que estão a ser compreendidos. Não sabem, porque a prosápia é cega, que as pessoas estão-se perfeitamente marimbando para o que eles dizem. Mas ficam inchados de auto-confiança quando, cinco minutos depois de terem concluído as suas indiscutíveis verdades, as televisões, vazias de veraneantes conteúdos, convocam os seus comentadores residentes para análises mais profundas do que descer à abissal fossa das Marianas.
À mingua de acontecimentos relevantes com dimensão mundial, já que o país, de tão pequenas mentes, nem é capaz de gerar algo que dê que falar pelo mundo, as televisões agarram-se como lapas a acontecimentos fabricados pelos partidos, já que o Pontal se esvaziou dos calores do antigamente onde poeira e febras justificavam umas horas a fazer de conta.
Durante dois dias inteiros, a SIC Notícias repetiu à exaustão uma conversa doutoral do dr. Marques Mendes com análises de análises e comentários de comentários. Um festival de coisa nenhuma para fabricar um acontecimento que só o foi porque não há arribas a desabar todos os dias.
Tenho para mim que ninguém se lembra do que é que o senhor disse, se é que disse. Assim como aposto que ninguém se lembra do que disse – se é que disse – aquele outro senhor mais gordinho numa chamada Universidade de Verão do PSD. Alegremo-nos. A rentrée, que é a forma fina de dizer que “eles” acabaram as férias, propicia momentos elevados de “silly moments” o que não fica mal quando não há mais nada para dizer que repetir o que já foi dito.
Não fossem os profundos oráculos saídos da pitonisa de Belém para provocar as necessárias interpretações, estendidas durante dias como massa de fazer rissóis, o país entraria, inevitavelmente em irreparável estado de coma.
Preocupa-me muito – faz parte das minhas insónias aliás – que até o próprio BE já “perdeu o gás” do esgotado Louçã que, para não perder tudo nas pantalhas televisivas, fez avançar a Drago.
A Drago tem o dom de dizer coisas que também ninguém percebe – como convém aos fazedores de política – mas de uma forma bonita. Por mim falo: não me lembro de nada de relevante que ela tenha dito mas vale a pena olhar para ela.
Outro tanto não poderei dizer daquela senhora a quem devem ter feito operações de descontracção dos músculos faciais para agora poder mostrar uma espécie de sorriso. Parece que disse coisas importantes, a avaliar pela repetição das análises e comentários ao programa que parece ter apresentado para convencer que a governação dela vai ser melhor do que a dos outros.
Pelo menos, esta, não foi ao Pontal. Escapou à influência de um dos maiores centros de fabrico de “silly seasons”. Mas não escapou à mastigação exaustiva dos analistas.

Ver o país à distância, através das televisões nacionais, tornou-se um exercício de autoflagelação tal a frequência com temos de beliscar a pele para nos certificarmos se estamos realmente acordados.

sábado, 25 de Julho de 2009

SALZBURGER FESTSPIELE - ferien




Durante anos, Mários Soares foi considerado um viajante “compulsivo” à conta do Estado (que somos todos nós). Foi acusado de aproveitar os altos cargos que ocupou no país – primeiro-ministro e Presidente da República – para fazer turismo disfarçado de viagens de trabalho.
Apesar da gravidade das acusações, nunca ninguém se chegou à frente para colocar o inefável Soares sob o fogo da justiça. Ainda bem. É que se o impedissem de fazer essas viagens, nunca o veríamos a cavalgar, garboso, uma bela e indiferente tartaruga, numa das suas importantes viagens “de trabalho” às Maldivas. Nem o veríamos ostentar os mais diversos chapéus, debaixo daquele sorriso de quem está acima do mundo e o olha com bonomia e alguma compaixão.
Habituámo-nos a essas extravagâncias, ninguém as levou a sério e, aqueles que tentaram criticar esbarraram no mar da indiferença. “Oh!. O Bochechas não tem emenda”, dizia-se num misto de perdão tácito e de “se não for ele será outro qualquer, eles são todos iguais”, e por aí fora no desfiar de um rosário por demais usado.
A virtude, coerência e respeito pela coisa pública são conceitos sem lugar cativo quando até figuras tidas como “sérias e impolutas” se deixam tentar pelos pecadilhos que o poder oferece.
Desde que vi o esfíngico Cavaco Silva a trepar um coqueiro, também numa das suas importantes viagens “de trabalho”, fui levado a concluir que até o mais sério, o mais frio, o mais dedicado político acaba por ceder aos prazeres que o poder pode oferecer. Nunca esperei ver o infalível Cavaco aproveitar-se das iguarias da mesa presidencial. Desajeitado mas convencido da validade dos seus actos, foi vê-lo ir passar uma semana de férias aos Açores sob a capa de visita para se identificar com as necessidades dos açorianos. É claro que os açorianos ficaram muito mais tranquilos ao saberem das preocupações do Presidente da República sobre o seu bem-estar.
Passando de lado a questão dos dinheiros ganhos de forma estranha e aparentemente favorecida, temos agora o Presidente em mais uma importante deslocação oficial, de trabalho claro, à Áustria. Coincidência de datas seguramente não analisada na preparação da visita, a estada de Cavaco Silva e mulher bate mesmo no dia em que se abre o Festival de Salzburgo, o mais importante do mundo da música. Que chatice esta de ter de aceitar o convite do seu homólogo austríaco (que, aliás, ninguém sabe quem é) para ir à abertura do Festival. Mas lá terá que ser!!!! Mais um sacrifício pela Pátria. E logo ele que sempre foi um grande defensor da arte, como se sabe. E admirador de Händel, como se sabe, de quem “Theodora” faz a abertura neste sábado 25 de Julho na cidade que viu nascer Mozart.
É pena esta viagem de trabalho ter coincidido também com a apresentação de grandes pianistas na Gulbenkian, em Lisboa. Mas, obviamente, Lisboa é demasiado longe.
Não tenho nada contra o PR gostar de passear e até de querer aumentar o seu nível cultural, cuja marca deverá subir visivelmente a partir de hoje. Mas, francamente, em época de “vacas magras” gastar dinheiros públicos numas mini-férias na Áustria, com ajudas de custo e despesas pagas pelo Estado, parece muito mal para quem defendeu, em tempos, o rigor nas contas públicas.
Diz-se que “o poder corrompe”....





domingo, 12 de Julho de 2009

O G8 - PAROLE, PAROLE, PAROLE


Não me atreveria aqui fazer uma dissertação sobre o “ponto G”, muito menos sobre o “ponto de rebuçado” nem mesmo sobre o “ponto de cruz”. Vejam lá bem aonde o G me estava a levar !!! A pontos que nem a minha imaginação se atreve tocar. Este G 8 ... é “oitro”. É o dos, dizem, mais ricos e poderosos países do mundo, dos, dizem, mais industrializados do mundo e, muito seguramente, dos mais poluidores do mundo. Reuniram-se, como fazem sempre, num ponto qualquer devidamente preparado para servir de passerelle de vaidades mal disfarçadas, de arrogâncias globalizantes escondidas.
Numa candura pungente os senhores dos anéis do poder decidiram reduzir as emissões de gases de efeito de estufa em 50 por cento até não sei quando. Não sei, simplesmente, porque não me preocupei em acreditar no que li: até 2050 ???? Só 40 anos ??? E querem reduzir em 80% a poluição dos países industrializados em relação ao ano de 1990. "Yah! Right".
Sabiamente, os senhores do mundo – mais a senhora angélica – escaparam a assumir qualquer compromisso intermédio.
Achei deliciosa esta outra preocupação saída da bela cidade martirizada de L’Aquila: os senhores mais a senhora, junto com outros senhores convidados, decidiram esta ternura: reconhecer a necessidade de limitar o aquecimento global a 2%. Não é delicioso?
Falhos de ideias realmente interessantes, “aquela gente”, como diria Alberto João Jardim, deixou escapar para o comunicado final uma preocupação em relação ao seu bem-estar: acham que a subida do desemprego pode por em causa a estabilidade social. É aqui que “eles”, finalmente, mostram a cara. “Eles” têm medo que o desemprego que “eles” próprios causam com as roubalheiras dos grandes gestores bancários e falcatruas de companhias de seguros, possa desequilibrar o conforto sossegado dos seus dias de mandões do mundo.
E, para merecerem a medalha com a efígie da madre Teresa de Calcutá, decidiram mobilizar 20 mil milhões de dólares em 3 anos para lutar contra a fome no mundo.
Então, não é lindo isto? Conseguiram empobrecer o mundo para, numa atitude cândida de solidariedade humanista, se “mobilizarem” ?
O mundo olhou para o G8 que lhe foi imposto pelas televisões como um fait divers, como quem desfolha a revista Caras – ora deixa cá ver como a Michele se vestiu para o jantar de gala; já agora, gostava de ver qual a última manifestação de mau gosto que a Merkel levou à foto de família !!!!????
O que “eles” lá disseram, o que “eles” lá decidiram, está-se tudo nas tintas.
Aliás, estou em crer que o G8 passaria totalmente despercebido se não houvesse aqueles habituais manifestantes profissionais a provocarem as cargas da polícia do signore Berlusconi a quem o Saramago, num assomo do seu mau feitio refinado com a idade, chamou os mimos do costume quando se lembra de um dos seus ódios de estimação: delinquente, corrupto, líder mafioso, vírus. Só porque a editora italiana, propriedade do senhor Berlucosni, recusou-se a publicar o último livro do Nobel português, Cadernos. “Et pour cause.!!!!”
E … o G8 ??? Pois !!!! O G8 valeu pelo Lula que foi lá dizer aos grandes do mundo que, o Mundo, não é bem aquele que “eles” desenharam e para o qual não têm mais do que “parole”, “parole”, “parole”.


hs

Na foto: Lula e Berlusconi






sábado, 4 de Julho de 2009

gripe A-los No-y....


Gripe A:
Los flash de la televisión, los anuncios de los diarios, los afiches: cercan , acosan.

NO NO NO NO
NO ABRAZAR
NO BESAR
NO DAR LA MANO

NO COMPARTIR
NO AL BAR
NO AL CAFÉ AMIGO

Pero estamos en la semana de la dulzura . Llega el día del amigo.

Vestido el corazón de contramano, oyendo sollozar a los abrazos ¿los enviará por el
camino de los sueños?
¿los besos navegarán por el río de la mirada hasta atracar al muelle que los espera?
El corazón, vestido de contramano, se desvela buscando la infracción que lo rescate
.
marita faini adonnino-argentina.

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Miguel Sousa Tavares

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos... Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos... - Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km. Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa. - Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim. Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta... - Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade. Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa. - Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada? - Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor. Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, eram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez. Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:

- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!

Miguel Sousa Tavares, jornalista, escritor de sucesso mas, para mim que o conheço desde os gloriosos anos de A LUTA, de Raúl Rego, é o porta-voz do povo. Ele sabe colocar no papel aquilo que as pessoas comuns têm nos seus pensamentos e não têm como exprimir.
Com a devida vénia, aí está mais uma das suas crónicas publicada no semanário português Expresso.u

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