terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Juventude eterna



Juventude passada em África é juventude para sempre. O cheiro da terra fica impregnado na pele, a luz do pôr-do-sol cola-se na retina, transporta-se tudo no atrelado da memória leva-se para onde se vai e com isso se vai montando uma forma de estar no mundo. Reduzir essas lembranças ao cheiro da terra ou ao pôr-do-sol não é, contudo razão para nos apropriarmos de uma civilização milenar, há outros factores, as vivências, as amizades, os amigos de terreiro, as partilhas e compadrios inocentes, que nos aproximam mas não nos tornam donos de coisa nenhuma. O grande erro dos brancos em relação a África foi pensarem que europeizar os africanos à força era suficiente para lhes controlar os sentimentos encastoados em séculos de tradições. Os brancos nunca tiveram capacidade para entender os negros africanos, porque não quiseram na sua prosápia de civilizadores interesseiros, a Europa nunca quis e continua a não querer perceber a África e não são os imensissímos estudos feitos ao longo da ocupação branca dos territórios africanos que darão o toque de rebate para a tomada de consciência, no convencimento de que os seus valores “ocidentais” são superiores aos dos africanos. Esqueceram sempre que África é culturalmente mais antiga e mais homogénea que a Europa e que foi lá que apareceram os primeiros homens Australopitecos, há uns 3 a 4 milhões de anos, na zona do Transval, sul da África.
Ter vivido a infância e a juventude em África não significa, necessariamente, conhecer África e os africanos mas ajuda, quando se conviveu com africanos da mesma idade, se comeu o funge da mesma lata de leite Nido negra do fumo da fogueira, se bebeu da mesma água da chuva, se dormiu na mesma cubata, se tenha ouvido a transmissão oral da vida da família, se tenha queimado os pés na areia encarnada a ferver de sol. Ajuda, mas não basta. Não basta dizer-se que se tem coração negro enrolado em pele branca. A inversa também vale. Nenhum branco tem o direito de vestir a pele negra simplesmente porque nunca chegou a sentir a humilhação, a exploração desumana, a ignorância atrevida, o abuso interesseiro, numa sucessão de centenas de anos, não foram escravizados e enviados para o Brasil, para os Estados Unidos ou para a Jamaica, não tiveram necessidade de mostrar um cartão assinado todos os dias pelo patrão empregador, não conheceram o chicote do diligente cipaio seu patrício, não carregaram sacos de café, não escavaram a terra em busca de diamantes. Isso ficou colado na pele ao longo de gerações.
Quando se é muito jovem, não se tem percepção disso. Na vivência de uma criança branca na África colonizada não há traumas, não há sentimentos de culpa, há só liberdade de passarinho e a cor da pele não é percebida. Tudo se passa com naturalidade, os dias fluem em ritmo lento definido pela própria Natureza, a terra quente, o embondeiro carregado de múcua, a gajaja acompanhada de pó da estrada, o papagaio feito de papel de embrulho colado com funge, o banho na cacimba das chuvas da época, a fogueira à porta da cubata, o carrinho feito de bambu com rodas de caricas, o regresso à noite a casa dos pais, a escola, as linhas de caminho de ferro de Portugal, a fotografia de Salazar na parede da escola, nada saber das quedas do Duque de Bragança, da fenda da Tundavala, da Baía dos Tigres, da Rainha Ginga, de povos e reinos com história, importante mesmo era ir apanhar mabangas na maré baixa para o arroz domingueiro, a tomada de consciência do lugar de cada um poderá chegar, ou não um dia, um dia não marcado no calendário quando despertam as interrogações, os porquês, o peso das origens e a hora da escolha. Ficam recordações ficam, de cheiros, sons, vozes, falares, cores, do fim do asfalto, do espaço, do horizonte avermelhado ao fim da tarde, dourado ao princípio do dia, dos pequenos amigos de infância de calções sem cor, numa terra a crescer mais depressa que nós para um destino que ninguém poderá prever.

hs

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Noche de luces

Una noche del pasado enero me encontré sumergida en un mar de luciérnagas. Serían las nueve cuando comenzó el encantamiento.¿Quién podría evitar cerrar los ojos, hundir los brazos en la dulzura cálida del verano y desear fervientemente ser cubierta de gemas iluminadas a la manera de una deidad pagana?- Yo no sería la excepción.

No fui una estatua del paganismo, pero sí, los bichitos de luz tropezaron con mi vestido, mis brazos y algunos descansaron en mi pelo.

¿Magia...? ¿Hechizo...? ¿Vida...? En verdad no existe criatura igual creada con el logro acabado del sentido del amor: iluminarse para enamorar.

Iluminarse ...y volar.

Marita Faini-(Argentina)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

entrar a cem e sair a duzentos à hora!

Gostei da expressão do Helder sobre a poluição que escorre na maioria das revistas. Aqui há dias numa alegre discussão sobre cinema com as minhas filhas e os filhos de uns amigos, constatei a dificuldade em perceberem certas vivências que a nossa geração usou (os círculos de cinema por exemplo). As vivências deles foram torpedeadas com tanta e tão rápida informação que não custa perceber o porquê de eles não entenderam porque precisámos de criar aqueles espaços para podermos ver (e dialogar) cinema a sério. Quando cheguei a casa escrevi estes versos e entreguei uma cópia a cada miúdo que participou na amena cavaqueira e, curiosamente, ficaram na mesma: continuaram sem entender. Deixo-vos aqui os ditos (os versos, claro):

CÍRCULOS DE CINEMA

Instalações exíguas onde cabia a máquina
De projectar de 8mm e um montão de prateleiras
Cheias de fitas excepcionais, desde o traquina
Chaplin aos consagrados que não filmavam asneiras
(Renoir, Resnais, Eisenstein, Wells, Bergman,) numa esquina
Qualquer, influenciando uma geração sem coleira
Que apelidaram (e amaldiçoaram) de esquerda
Com uma conotação estagnada, quase lerda.

Horas e horas sentados analisando planos,
Contraluzes irreais, ângulos impossíveis,
«Plongées» e «travelings» aproximando fulanos
Numa organização de movimentos imprevisíveis.

Formaram personalidades estes mestres,
Divertindo e engrandecendo partículas
Ínfimas de mentes quase silvestres
Que se recusavam a serem gotículas.

Permitiram que víssemos para além do individuo,
Que escutássemos atravessando o ruído,
Ensinaram a aproveitar o resíduo,
Mostraram como se decompõe o poder instituído
Remarcaram o afecto que se tornou assíduo
E recuperaram o que tínhamos de diminuído.
A melhor forma de lhes agradecer não é num poema,
É transmitir aos vindouros porque foram um noema.


Estoril, Fevereiro de 2007

kambuta

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Lepecki

Maria Lúcia Lepecki é professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Não sei se ainda mantém aquele gostoso sotaque brasileiro, provavelmente abalado por tantos anos de vivência em Portugal. Oxalá que sim. Leio-a compulsivamente na revista Super Interessante onde também tem lugar de cátedra o escritor João Aguiar, um elegante contador de histórias. Lepecki e Aguiar, com as suas crónicas, representam para mim o filtro despoluidor das toneladas de crónicas publicadas a eito por esses jornais e televisões fora, cujo único mérito é entrarem a cem e saírem a duzentos da minha memória, sem deixarem rasto...felizmente.
hs

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

País do desperdício

Portugal não é um país rico, ok, todos sabemos, não temos petróleo, não temos diamantes, não temos Silicon Valey e nem sequer sabemos vender 500 anos de termos estado noutros continentes. Vendemos o sol (mal e porcamente) no Algarve, porque não temos que o fabricar. Tornámo-nos especialistas na intermediação, coisa que já vinha de trás, a contar com a comissão, somos os gajos do meio, da faixa do meio na estrada, das “entre aspas”, do “depois”, do “contacta 91.......”, do “está em reunião”, do “volto já”, do “fechado para almoço”, do “ou seja”, do “portanto”, do “se não se importa”. Em suma, somos os campeões do “agarrem-me senão parto o gajo todo”, dos autarcas arguidos reconduzidos nos seus lugares, do envelope 9, das condecorações a granel, do tapa-destapa das ruas, do nunca acabar de obras, do “desvio”, do “amanhã, então, depois, falamos”.
Felizmente há excepções, gente que rema teimosamente contra a maré do deixa andar e não perde tempo com as tricas do futebol, com os casos da Elsa Raposo ou com as previsões da Maya.
Somos uns tesos, mas temos um umbigo maior que o mundo e gasta-se à tripa forra.
O que resta da Fundação, enterrada com entulho

Aqui há uns 8/10 anos atrás, nasceu um projecto que tinha tudo para ser lindo. Em Chelas, mais do lado de Marvila (Lisboa), num terreno adjunto à Quinta dos Alfinetes, arrancava a construção de uma infra-estrutura espectacular, desenhada pelo nada mais nada menos famoso arquitecto brasileiro Óscar Niemeyer. Era a sede da Fundação Portugal/Brasil. Uma coisa de luxo, moderníssima como só podia ser, criada por quem sabe. Construía-se a Fundação e, em troca, recuperava-se a Quinta dos Alfinetes.

Quinta dos Alfinetes
Até que as obras pararam, deixando à vista uma estrutura de betão armado, colunas de ferro apontadas para o céu e um espaço abandonado às aventuras de crianças distraídas onde uma encontraria a morte. Dizem que as obras foram suspensas por falta de pagamento aos empreiteiros. E ali ficou o nado-morto durante anos à espera de resolução que não chegou. Falou-se de aproveitar a obra para uma piscina municipal. Não aconteceu.
Recentemente, camiões e “caterpillers” entraram no recinto, vedado, despejando entulho. Toneladas e toneladas de entulho, para dentro do que estava construído e no espaço circundante, enchendo inesteticamente toda a área, ao mesmo tempo que a Quinta dos Alfinetes se vai degradando merecendo a designação de ruínas irrecuperáveis.
Depois de se terem gastos milhares a iniciar a construção, depois de anos de abandono, alguém decidiu enterrar tudo como que para esconder a vergonha.
Resumindo: nem Fundação, nem piscina, nem espaço social, nada, somente um vergonhoso amontoado de terra e entulho.
hs

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Chó do Guri

HISTÓRIA DE UMA ESCRITORA QUE NASCEU SEM APELIDO, POR SER FILHA DE UM BRANCO...

Luanda - Baptizada sem apelido, apenas Maria de Fátima, por ter nascido da relação de uma negra com um estrangeiro branco, hoje tem pseudónimo literário e contou a sua história numa autobiografia ficcionada.Chó do Guri (negação da criança) carrega no seu pseudónimo literário o peso de uma história pessoal comum a muitas crianças africanas, o de ter nascido filha de mãe negra e pai branco e, portanto, como diziam os padres católicos na altura, "filha do pecado".Quando começou a escrever o livro lançado quinta-feira em Luanda, numa sessão que decorreu no Centro Cultural Português e que contou com a presença da viúva de Agostinho Neto, Maria Eugénia Neto, Chó do Guri pensou em intitulá-lo "A Filha do Pecado".Quase 20 anos depois de ter sido iniciado, o livro, que era para ser apenas uma autobiografia, foi lançado com o título de "A Filha do Alemão" e já transformado numa ficção de inspiração pessoal, onde a experiência da autora, disse a própria à Agência Lusa, é apenas "uns 30 por cento" do total da obra.O livro inaugura a colecção Vozes de África da editora angolana Mensagem, que já tem no prelo uma antologia de 30 anos de contos tradicionais, o "Roteiro da Literatura Angolana" e o "Sagrada Esperança" de Agostinho Neto, numa edição trilingue (português, inglês e francês).Em relação a Chó do Guri, que nasceu em 1959 na Quibala, província do Cuanza-Sul, o seu nome é já um dos mais importantes da literatura angolana.António Fonseca, economista e escritor, afirmou, na apresentação do livro, que "A Filha do Alemão" é um "grande subsídio para o estudo da história recente de Angola", ao mesmo tempo que permite compreender melhor "as novas classes sociais de Angola" e "conhecer a alma e a história recente" do país.Livro íntimo que tardou quase duas décadas a ser escrito, "A Filha do Alemão" foi usado pela sua autora como mecanismo de auto- aceitação da sua biografia."Depois do parto desta obra, sinto-me aliviada. Tinha necessidade de me aceitar tal como sou", explicou.Da Alemanha hitleriana a Angola, passando pelos Açores, "A Filha do Alemão" é uma história contada ao longo de mais de meio século "com uma grande carga emocional e de intensidade dramática", sintetizou António Fonseca, que há 29 anos apresenta, na Rádio Nacional de Angola, o programa "Antologia" sobre a tradição da literatura oral angolana.Chó do Guri, que em 2003 ganhou o prémio do Instituto Marquês de Valle Flor para a literatura Africana pelo seu primeiro romance, "Chiquito de Camuxiba", tem já pronto a editar um novo livro, este de poesia, a sua verdadeira paixão. Chama-se "Na Boca Árida da Quianda" e sairá com a chancela da Kilombelombe.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Referendo


O meu amigo Nuno Guerreiro Josué estava hoje particularmente satisfeito. O Sim ganhou no referendo, até a percentagem com que ganhou foi superior à abstenção.

Tentei explicar-lhe que nada tinha sido alterado, mas para ele as vitórias morais são realmente importantes. “A seguir, vai haver um referendo sobre os casamentos gay”, dizia. Ele não é gay, mas segue atentamente causas destas, favoráveis à igualdade formal.

“Por que não um referendo sobre algo que de facto interesse”, perguntei-lhe. “Por exemplo, o sistema fiscal?” Em Portugal, como em Angola, o sistema fiscal é ainda mais anedótico que o judicial – se não há processo que esteja simultaneamente em segredo de justiça nos cofres dos tribunais e nas mãos dos jornalistas, não há desporto mais popular que a fuga ao fisco, que já de si se preocupa quase exclusivamente de esmifrar os trabalhadores por conta de outrem.

Mas é assim... O interesse continua virado para os debates abstractos, com posições de direita e esquerda, sempre entre quem nada tem a ver com o assunto.

Sim, porque quem discutiu o aborto não foram as mulheres forçadas a abortar clandestinamente em quartos de parteiras. Não que as mulheres que apareceram na televisão não tenham uma vez ou outra abortado – mas em Espanha, em clínicas, assistidas por médicos, não no vão de escada.

Vai ser interessante acompanhar o que se vai seguir.

Quem ia a Espanha, já pode fazer o mesmo em Portugal – em clínicas, pagando em conformidade.

Quem ia à abortadeira, poderá ir ao hospital. Mas a menos que os abortos sejam feitos nos serviços de urgência, o mais certo é as mulheres serem forçadas a enfrentar listas de espera tão longas como as que existem para os restantes procedimentos cirúrgicos. Quer dizer, a interrupção voluntária da gravidez poderá ser feita quando a criança tiver uns três ou quatro anos...

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Protesto

Não sei se vou pelo protesto simples ou se avanço para um providência cautelar ou até se, procedendo a ambos, convoco uma manifestação de rua, uma verdadeira arruada, daquelas com cartazes e carrinhas com altifalantes. Alugo umas quantas camionetas no Alentejo, recorro às fichas do PCP e avanço sobre Lisboa com umas boas centenas de reformados, desempregados com o respectivo subsídio e junto uns quantos arruaceiros profissionais com a promessa de lhes dar lugar cativo nos estacionamentos da capital. Estava a ponderar a hipótese de ir às escolas secundárias buscar alguns professores de substituição e aos hospitais aliciar alguns profissionais mas já desisti, devem estar cansados das manifestações dos seus sectores.
É que cheguei à conclusão de que anda de certeza por aí uma má vontade inexplicável da Santa Casa da Misericórdia contra mim em não querer dar-me o prémio. Isto já se verifica há meses. A repetição semanal da tramóia só me leva a concluir existir um conluio ou, mais grave que isso, uma cabala contra mim.
Bem-formado e crente na justiça descarto à partida a hipótese de corrupção que, como todos sabemos, é coisa que não se pratica por estas bandas. Também não vou pela “cunha”. Isso é que não!
Levar à televisão, em minha defesa, o prof. Marcelo, o dr. Santana Lopes, o dr. José Júdice ou mesmo o dr. Júlio Machado Vaz seria uma violência. Expô-los, assim, a frio, sem nunca terem enfrentado as câmaras de televisão seria queimar as suas imagens o que está fora da minha maneira de ser.

Mas, que há qualquer coisa do Euromilhões contra mim, há. Com a agravante de o prémio dos 100 milhões ter saído a um belga !!!! Pode lá ser??? Um belga? Se calhar, para agravar a situação, é um dos que comem “frites” com molho de mostarda, bebe 30 Stella Artois por noite na brasserie do seu bairro e despeja-as ruidosamente no passeio fazendo desenhos na parede ao mesmo tempo que vai assobiando a Brabançonne!!!
Para já, antes de adoptar formas de luta mais severas como as que enumerei mais acima, decidi enviar à Santa Casa um email registado com aviso de recepção. Ou me dão o prémio que me é devido no prazo de duas semanas duas ou ponho-lhes o ministro das finanças à perna para saberem que não se brinca assim com um cidadão!
Tá bem, tá !!!!!
hs





sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Calma, há lugar para todos

E façam o favor de ter um bom fim-de-semana, bem encostadinhos uns aos outros em franca solidariedade rodoviária.

Retalhos

Pode ser?

Dois administradores de uma grande empresa portuguesa precisam de ir a Angola tratar de negócios. Angola exige um visa para entrada no país. Para que o visa seja concedido, uma das formalidades que lhes foi pedida é apresentar o extracto dos dois últimos meses das suas contas bancárias mais confirmação de saldo de cartão de crédito.

Referendo

Há muito que não via o país tão entusiasmado com uma votação. Movimentos de cidadãos, debates na televisão, na rádio, marchas, manifs, jantares, opiniões nos jornais e os costumeiros “opinion makers”. Tanto “ruído” de barulhentos militantes, tanto dinheiro gasto, ajudará alguma coisa aos indecisos? Não deveria haver um pouco de contenção num assunto tão delicado? Acho que devia. O “ruído” em torno do tema desvia a atenção do cerne da questão, ou melhor, das questões postas a referendo.
Uma mulher do campo dizia-me há dias: “isto é uma palhaçada, eu não vou votar porque quer ganhem uns ou ganhem os outros, os abortos não vão acabar”.

O segredo de justiça
Uns quantos jornalistas foram tornados arguidos por quebra do segredo de justiça. Mas, afinal, como é que um jornalista pode ser julgado por essa coisa da quebra do segredo de justiça quando, a tal quebra é feita a montante da notícia? Como sempre, é mais fácil “matar o mensageiro”.

Chapéus há muitos

Um sub-chefe da polícia deu ordem de prisão ao seu comandante, lia-se no Correio da Manhã. A coisa não foi para a frente graças à intervenção de um outro superior da esquadra. Desentenderam-se a propósito de um problema candente – boné com pala ou chapéu. Por mim, até podiam usar boina como os orgulhosos seguranças de algumas empresas que era para o lado que dormia melhor.

Apitoooooo!!!

Maria José Morgado pôs o apito, não na boca mas na net. Visitem
www.pgr.pt em actualidades.







O vai-vem da porcaria
Andaram a esburacar a minha rua para colocarem um tubo de esgoto que servirá para elevar (porque a rua é inclinada), através de uma bomba, os resíduos domésticos até um cruzamento de onde seguirão o seu destino, por gravidade, para a Etar a uns quilómetros de distância.
Disseram-me os trabalhadores da empresa contratada que, daqui a uns meses, há-de vir uma outra empresa fazer nova vala, desventrar de novo o piso para colocar tubos de esgoto descendentes. Para além da complexa viagem da porcaria que tem de descer para voltar a subir, o que me atormenta é o desperdício de tempo, de dinheiro e os moradores terem de esperar mais não se sabe quanto tempo para serem servidos com um saneamento digno. Então, não podiam colocar os dois tubos –o ascendente e o descendente - ao mesmo tempo na mesma vala? Resposta do encarregado da obra: “ era o que devia ser feito, de facto, mas é preciso dar trabalho às pessoas”. Ok, ficamos entendidos.





hs





terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

As guerras

A propósito do «fatídico mês de Janeiro» para os Kaluandas descrito pelo João Coimbra, vieram-me à memória uns versos dedicados à Juventude Angolana:


GUERRAS
(dedicado à Juventude Angolana)

A sangrenta guerra terminou por fim!
Acabaram-se as mortes e extirpações
Estúpidas e inúteis, começando assim
Uma nova era para as jovens gerações,

Que vai ser muito à custa doutras guerras,
Provavelmente mais violentas e agressivas
Onde não irá morrer ninguém em explosivas
Confrontações, como se fosse a luta de feras.

O vício doloroso adquirido vai ser combatido,
As podres feridas mentais vão ser cicatrizadas
E as riquezas não mais irão ser uni-exploradas.

A miudagem vai compreender o que evoluído
Quer dizer, pegando em sebentas arruinadas
Para fazer crescer as cidades tão destroçadas.

Estoril, 7 de Janeiro de 2006

Francisco da Renda

A RTP e o Brasil



A RTP, minha casa durante 30 anos, parece não ter percebido ainda qual o seu papel na vida do país. Há meses que não tem um correspondente residente no Brasil e ainda não se decidiu sobre quem irá para lá.
A representante anterior, Clara Petraglia, está “oficialmente” de baixa, não envia serviços há montes de tempo, enquanto, pelos corredores da RTP se discute quem vai ou não vai para a terra do Pão de Açúcar.
Até parece que o Brasil não nos interessa, tão lento é o processo de nomeação de um correspondente, não somente para nos relatar as situações de violência que, essas, recebem-se directamente mas antes para fazer a ponte entre os dois povos, entre as duas nações. Aliás, de correspondentes no estrangeiro, parece que só interessam o da Bélgica por causa da União Europeia e a da Espanha por causa das bombas da ETA.
Parece estarmos nos anos oitenta quando a estação “oficial” lançou o projecto de abertura de delegações regionais e internacionais. A nomeação de correspondentes era um processo complicado, onde a carga política pesava mais que a da prestação de serviço público. Pelos vistos, continua complicado, quiçá pelas mesmas razões.
hs

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Meditação ao longe


ANGOLA: SEUS MISTÉRIOS INFINDAVEIS E INDETERMINADOS


Meditação ao longe

Todos os anos existe um ciclo maldito de 30 dias em Angola e mais concretamente na sua capital que se repete desde 1976.
Se, para os Portugueses existe o “triste fado” e o destino, para o Kalu parece existir alguma “maldade” herdada dum determinado poema...
Assim entre meados do mes de Dezembro e o meio de Janeiro, acontecem coisas curiosas nesta minha terra tais como:

A água há-de escassear;
A luz ira faltar;
Gasolina nas bombas já era;
Comida continua a aumentar;
E a bebida mais ainda;
Telefones e celulares não funcionarão;
Chuvas e mosquitos nos virão saudar;

Mas para ultrapassar estes problemas os mais “e$$pedito$ sempre dão um jeito. Assim:

O camião tanque com gasóleo há-de chegar;
O Denyo, Honda ou Caterpiller hão-de trabalhar;
Na fila dos “bidons” da gasolina a minha vez há-de chegar;
Os “do-do$” hão-de comprar a comida e a bebida para consoada;
Com o celular da “madrasta” hei-de conseguir falar;
As “possas” de água na Samba hei-de saltar;
Volta DDT estas perdoado;

Mas a cada ano que passa, mais me parece que caminhamos para o destino final. E assim:

Descalços quilómetros havemos de palmilhar,
Fome havemos de passar,
De doenças estranhas havemos de morrer,
De tanga havemos de andar,

E como os do asfalto se preparam para receber estas “maleitas”?
Para o “Kalu/calcinha” e novos I.C. nada mais simples do que ridiculamente estender a passadeira vermelha e de CARAS procurar o melhor esquema, porque certamente continuarão a sacar o que resta desta bela terra.
Porque:

O petróleo há-de continuar a jorrar;
E o garimpo há-de se tornar legal;

E para os do musseque?
É batalhar para conseguir ultrapassar as dificuldades e esperar que Janeiro acabe depressa, a Comunidade Internacional se preocupe e tudo volte a normalidade!

Joao Coimbra
Macau 2007
Obs. I. C. – Importador de Contentor
Kalu – Natural de Luanda em linguagem calão
E$$pedito$ - Os que tem usdolars
Do-do$ - diminutivo de Usdolars
Madrasta – nome de Portugal

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Império à deriva

Descansem, o título não tem nada que ver com a situação actual de Portugal.
Ou terá?

Nutro uma grande curiosidade pelo Brasil desde a minha infância, já lá fui algumas vezes, umas em turismo, outras em serviço e, sempre me ficou a sensação de que preciso de lá voltar mais vezes. De uma das viagens, em serviço, tive oportunidade de atravessar o país desde S. Paulo até Fortaleza, acompanhando o Rali das Dunas, uma espécie de Dakar à brasileira, uma experiência que recomendo.
Na vida profissional, conheci muitos jornalistas brasileiros, alguns ficaram meus amigos até hoje, e conheci outro tipo de pessoas, empresários, técnicos de quem fiquei amigo. Um deles ofereceu-me um livro interessantíssimo, “IMPÉRIO À DERIVA – A corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821”, de Patrick Wilcken, com tradução de Vera Ribeiro, editado pela Editora Objetiva.

De uma forma quase romanceada, o livro retrata os 13 anos do governo imperial exercido por D. João V, desde que, aterrorizado, fugiu, com a corte inteira, sob escolta britânica, ao avanço das tropas de Napoleão para se instalar no Rio de Janeiro, tornando a colónia no centro de todas as decisões sobre Portugal, até ao regresso a Lisboa, passando pelo “grito do Ipiranga” de D. Pedro.
A riqueza histórica, o pormenor, os factos, os depoimentos são relatados numa escrita simples que prende a leitura até à última página da história de uma realeza europeia que se misturou com os nativos de uma colónia.


Escravas

O apressado regresso da corte a Portugal
devido à revolta constitucionalista no país.

Com a devida vénia, apresento algumas das ilustrações do livro de Patrick Wilcken, nascido na Austrália, que passou longos períodos no Rio de Janeiro, tornando-se um profundo conhecedor daquele país.
hs

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Portugalzinho

Parto-me a rir com este Portugal que foi tentar vender as virtudes aos chineses a ver se pega e se eles, que são mais que as mães, começam a investir em negócios aqui porque, para já, o que temos deles são as lojas com tudo a preços da chuva, de má qualidade é certo mas que dão jeito a muito boa gente e, os restaurantes que, de norte a sul, têm todos o mesmo sabor.
Não está mal visto ir lá para vender, a China é uma potência económica gigantesca, o mercado chinês é apetecível tanto mais que cresce mais depressa que as broncas domésticas daqui do rectângulo.
Esta quinta-feira nos noticiários, tivemos direito a uma folga – não muito grande – da questão do referendo e do corrupio de sábios do SIM e do NÃO para nos entreterem com a bojarda do ministro da Economia ao argumentar as nossas mais-valias com base nos salários baixos para entusiasmar os chineses a instalarem as suas empresas em Portugal. Caiu o Carmo e Trindade, saltaram a terreiro as habituais carpideiras e até houve quem pedisse a imediata demissão do ministro. A coisa, aqui, não se faz por menos. Um governante, com o ar mais cândido do mundo diz uma verdade, coisa rara, agita sectores convencidos de invulnerabilidade como sindicatos e partidos, e tudo pára para comentar a boca.
Este jeito lusitano do bota abaixo por dá cá aquela palha já vem de longe, está-nos no sangue mostrarmo-nos muito ofendidos com aspectos comezinhos da vivência diária, perder tempo com minudências e deixar para trás o fundamental. É o costume.
No fundo, o senhor, para além de não ter dito nada de novo – todos sabemos que ganhamos menos que o resto dos europeus – não foi ensinar o padre nosso ao vigário – todos sabemos o que os chineses ganham lá na terra deles razão pela qual os artigos chineses são tão baratos. Se calhar, o que o governo devia vender aos chinocas era antes a ideia de as nossas empresas irem para a China a ver se facturam mais lá do que aqui (graças aos baixos salários), como fazem as grandes multinacionais: “think global, act local”. Quem sabe, os pastéis de Belém, as trouxas da Malveira, o Galo de Barcelos, os das Caldas não nos ficariam mais baratos “made in China”!
O que acho engraçado é ver os mesmos do costume enxofrarem-se com o politicamente incorrecto de um governante desbocado quando, no tempo em que eles foram governo, fizeram o mesmo, recordemos o “país está de tanga” e a fuga rapidinha para o bem bom de Bruxelas deixando-nos a bater válvulas à conta de governante improvisado mais dado às capas de revistas.
Receio que o balanço da governamental ida à China se fique pela falta de jeito diplomático do ministro, assim como a visita presidencial à India se fique pela incompatibilidade gastronómica do Presidente com os temperos locais.
Por mim, não me admiro nem me surpreendo. É assim que querem que seja este Portugal – pequenino, miudinho, invejoso, do faz de conta, agarrado ao supérfluo, ao passageiro, de cabeça enterrada na areia, campeão da perda de tempo.
hs

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