segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Funcionalismo e funcionários

Lembro-me de quando era miudo, dizer, quando me perguntavam, que o meu pai era funcionário público. Nunca cheguei a perceber muito bem o que aquilo significava, se era público por trabalhar nas Obras Públicas, se era funcionário por funcionar numa repartição do Estado. Mas, que era funcionário público era, porque assim classificavam ao tempo o trabalho do meu pai. Depois de uns anos a fazer estradas e pontes e a reconstruir edifícios "do Estado" na Guiné-Bissau, o bom do meu pai foi mandado para Luanda para executar o mesmo tipo de trabalho que o levaria desde Malange até Saurimo, na Lunda.
Mais tarde, em Luanda o funcionário público que era o meu pai, seria colocado numa secção das Obras Públicas. Chamava-se Serviços de Viação e Trânsito, acho eu, tanto quanto a memória mo permite.
Penso que foi nessa fase da vida de meu pai que me entrou o gosto pelos automóveis. Não tanto pela porta nobre das belas máquinas americanas que então circulavam por aquela provinciana Angola com nomes estranhos mas familiares como Pontiac, Odsmobile, Chevrolet, Ford, Nash, Mercury, Studebaker, mas talvez mais pelo beco sem saída dos acidentes de viação. Meu pai estava encarregado de fazer as peritagens dos acidentes de viação em Luanda. Tudo o que era batida de lata rolante - naquele tempo, os carros eram feitos de metal duro - lá estava o meu pai a tirar medidas e a desenhar o posicionamento dos carros envolvidos. Continuando como funcionário público, creio que, nessas funções, de público tinha pouco, exceptuando os habituais mirones da desgraça alheia.
Sem saber, meu pai funcionário público prestava serviços públicos, conceito que, anos, muitos anos mais tarde, seria tomado como âncora do atendimento da causa pública.
Até há bem pouco tempo, os funcionários públicos eram tidos (acho que ainda existem resquícios)por pessoas de baixa formação profissional, incorrectos, grosseiros no atendimento ao público, enfim, uns monstros com os quais, o público, tinha que lidar todos os dias nos guichets das repartições.
Felizmente, as repartições foram promovidas a serviços e, os funcionários começaram a receber formação adequada ao atendimento ... público.
Recentemente, uma das minhas três filhas foi à Loja do Cidadão das Laranjeiras em Lisboa, tratar do BI da sua filha. Deixou os papéis preenchidos e, como contacto, o número do meu telemóvel.
Num esplendoroso sábado à tarde de sol de Inverno, toca-me o telemóvel quando conduzia a minha pandeireta a caminho do Bombarral. Sem mãos livres, encostei na berma para atender. Era um senhor da Loja do Cidadão que, falando do seu telemóvel particular - provavelmente estava gozando merecido descanso em sua casa - me pedia para contactar o serviço na segunda-feira porque havia um dado que não estava correcto. E deu-me o número do contacto do serviço e o nome de quem eu devia dirigir-me.
Desligado o telemóvel, não pude deixar de reconhecer o profissionalismo e a preocupação de bem-servir daquele funcionário público.
Quando liguei para o serviço, na segunda-feira seguinte, a senhora que me atendeu sabia do que se tratava, "é por causa do BI da Iara, não é?", corrigiu a falha e deu-me novas instruções para ir levantar o documento.
Aqui juro que nunca mais alinho no coro dos mal-dizentes dos funcionários públicos.

1 comentário:

maría disse...

veo que has tenido la noble osadía de ensalzar al empleado público (funcionario)
¿Por qué noble osadía?Examinemos por partes.
-Osadía,porque los funcionarios cualquiera sea el terruño donde habiten o la bandera patria que los cobije, sean hombres de "latines" o escaso abecedario, nos hacen caer siempre en tremendos berrinches o nos dejan perplejos ante actitudes paradojales. Y tú,sabiéndolo y que muchos te dirán "¡eh","ah"!,osadamente has salido a defenderlos.
(Claro, que toda regla tiene su excepción, y aquí está la excepción y bienvenida!!.Y tú tienes la suerte de ser un hombre protagonista de excepciones.Ha poco has logrado que un olmo dé peras)
-Y noble,porque al ser el beneficiado de la cortesía y correción del funcionario,es muy noble que lo agradezcas y des a conocer.
Hago llegar yo,también,mis felicitaciones a tal gentil persona y te digo que en cada rincón del mundo existe silencioso,amable un funcionario de éstos. Te cuento una anécdota personal. Por treinta años perdí una excepcional amiga boliviana que conocí en la época de estudiante en mi país. Treinta años sin saber de ella,siempre añorándola. Le escribí al jefe de Correo de la ciudad de Cochabamba pidiéndole que ubicara su dirección, a la vez que le explicaba lo bello de esa amistad. Silenciosamente, este gentil jefe de Correo, ubicó a mi amiga y desde alli, nuevamente el contacto.
Mientras me interno en estos caminos, nuevos para mí, del blog, pienso cuán magnifico es pertenecer a una individualidad así que con tan poco, con tan sólo ser amable nos brinda tanto beneficio. - marita

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