sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Ano Novo, vida nova

Tal como os fogos de Verão, o Ano Novo repete-se todos os anos. E não há volta a dar-lhe. É uma inevitabilidade.
Tal como o Natal, cada vez mais comercial, cada vez mais televisivo.
A este propósito, apreciei com irrecusável deleite, a sempre notável congruência do "bom povo português", como lhe chamava o senhor de Santa Comba Dão. Andou ele, o povo, por aí em manifestações e greves por melhores condições de vida, andou ele por aí choramingando que a vida está difícil, seguramente com alguma razão. Mas foi esse mesmo "bom povo" que engarrafou os grandes centros comerciais, empurrando carrinhos atulhados de tudo e mais alguma coisa, como se tivessem recebido secreta informação de que o mundo ia acabar em breve.
Outros dignos representantes deste mesmo "bom povo", mas que gostam de guardar o anonimato, escolheram oferecer-se, como presente de Natal, uma idazinha à cidade do mesmo nome, ou a outra qualquer, de preferência abaixo do Equador.
Fiquei francamente sensibilizado ao saber que os portugueses gastaram não sei quantos milhões mais de euros (dois, três?) nesta quadra em comparação com a do ano passado, a julgar pelos levantamentos nas caixas multibanco.
Deve haver um truque qualquer, do género da multiplicação dos pães, para justificar o milagre de tão súbito alargamento das bolsas. Num dia, não tem quase nem para comprar um pão, no outro já dá para encher carrinhos de compras.
Felizmente que o calendário permite uns dias de intervalo entre o Natal e o Ano Novo para recarregar as baterias e... o cartão de crédito. E é vê-los em intermináveis bichas (ou filas ou lá o que é) nos check-ins do aeroporto para os mais variados destinos. Os hotéis, de cá e de lá fora, estão cheios, os fatos e vestidos novos para o Reveillon mal foram tirados dos sacos das lojas, os rebentos foram para casa dos avós.
Ou eu estou xéxé ou não percebo nada do que me rodeia ou, se calhar, não estou no Portugal da deslocalização de empresas, do crédito malparado, do endividamento das famílias, do desemprego selvagem.
Amigos, ajudem-me, sejam caridosos, mandem-me depressa um multivitamínico, um par de óculos e um GPS portátil para me certificar do sítio onde estou.
Feliz Novo Ano, onde quer que o passem.

2 comentários:

Artur disse...

Caro Helder,
De facto há que reconhecer que o 'Bom Povo Português ' tem um coração enorme!
Sabendo que os comerciantes vivem em crise permanente, que dificilmente pagam os salários dos seus trabalhadores, que têm frequentemente que fazer promoções esquivas aos prazos determinados por lei para os saldos,decidem,num acto de bonomia tremenda, ajudá-los, para que possam comprar a sua posta de bacalhau.
Contudo,já que destinam parte do aumento do seu endividamento a fazer o bem, acreditam também muito piamente, naqueles senhores colocados para o além Bem Alto, diga-se S.Bento, que dizem que vivemos num mar 'rosa' e que para o ano vai estar tudo bem....
E assim sendo, se explica um pouco aqueles carrinhos cheios de tudo e de nada....para um dia de esquecimento de um sofrimento passado e de um sofrimento a sofrer....
Se as caixas de multibanco se cansaram de deitar dinheiro, foi porque alguém as sobrecarregou indevidamente, na expectativa de cobrança de umas taxas de utilização, para engrossar os seus já avantajados lucros, que gerarão impostos inferiores ao comum dos mortais, neste jardim plantado!
E,não vá o diabo tecê-las, este Bom Povo, vai utilizando o plástico,na ânsia de evitar que por força dos aumentos do petróleo, o mesmo cartãozinho de plástico, não venha também a aumentar de custo!
E, deixar o parco espólio e a minima poupança naquele indigno reduto apelidado de banco( que poderia ser cadeira ou canapé),engordará a conta de resultados de quem não vai contribuir tanto assim.
Por isso, meu caro,é pura bondade deste Povo....nada mais...
Um abraço e parabéns pelo teu Blog(já sabes o que isso é?)
Artur

Helder de Sousa disse...

Artur,
venho aqui para te saudar e agradecer o teu comentário.
Manda mais.
Este espaço aberto a todos é, afinal um ponto de encontro entre amigos, os meus e os dos outros.
helder

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