quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Oh! TEMPO !!!!!

Que o tempo “passa depressa” todos nós sabemos, uns de forma cruel ao atingirem o fim da linha, outros em estado paulatino deixando “correr o tempo”, que é, como quem diz, “te preocupes ou não, o tempo passa na mesma”, 24 horas serão sempre 24 horas, ainda que possam ter mais uns segundos ou menos conforme os caprichos dos astros (ops, reparei agora que fiz uma frase mais longa que o habitual, deve ser por andar a ler o Caim do Saramago).
O tempo foi sempre um factor de importância fundamental na vida das pessoas, especialmente porque permite entabular interessantes e culturais conversas nos elevadores, quando a pessoa que entra, se encosta a um dos lados e se põe a olhar fixamente para a ponta dos pés, não se sabendo, se não usarmos o tempo como tema de degelo, se o companheiro ou a inesperada companheira de viagem ascendente – pode também ser descendente, mas prefiro a primeira – se ela baixou a cabeça por um passageiro acesso de timidez, ou se, menos prosaicamente, se deu conta de que tem os sapatos sujos.
A propósito de ascensores, elevadores ou lá o que são aquelas maquinetas imprevisíveis que nos podem deixar entalados entre dois pisos por mais de uma meia-hora, isto quando se tem sorte, há algo que me irrita solenemente e me faz “trepar” às paredes - nem que sejam do elevador - e que é quando o companheiro de viagem, ao entrar desajeitadamente no PISO ZERO com a mochila às costas, mala de computador numa mão e o telemóvel na outra, me pergunta delicadamente: “vai subir?”. Dá-me vontade de responder: “sim, sim, para cima”. Disfarço o desconforto. A única resposta que sou capaz de dar é ficar a olhar para o relógio e cronometrar os dolorosos segundos que a geringonça vai demorar a subir até ao destino de um dos dois. Seja qual for a medição, será sempre uma eternidade.
O tempo, sempre o tempo.

Por vezes, vem o tão tradicional quanto maior lugar-comum do mundo, na forma de conversa meteorológica: “parece que vai chover, o tempo está estranho”. Mas porque pecados terei eu que me preocupar com o raio desse tempo, se até estou fechado numa caixa de metal a resfolegar numa subida que nunca sei se terá final? Às vezes gostaria que não parasse, que fosse por aí acima e o meu relógio salvador de situações embaraçosas parasse e me ajudasse a esquecer a velocidade do tempo. É óbvio que o relógio pode parar as vezes que lhe der na real gana de máquina dependente duma pilha hermafrodita que não distingue o pólo positivo do negativo. Mas enfim. Todos os relógios do mundo podem parar, deixar de funcionar, ficarem mudos e quedos, não será por isso que o tempo pára. O que reforça a inutilidade do tema daquela famosa canção “Oh tempo, volta pra trás”.

O que é o tempo? Santo Agostinho, no ano 400, escreveu nas suas Confissões o seguinte: “Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? (...) Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”


Angustia-me esta filosófica questão do tempo. Não o de “A Chuva e o bom tempo” do Jacques Prévert que, num dos seus habituais desafios ao bom senso preguiçoso, escreveu : “ j’ai pensé parfois mettre fin à mês jours, mais je n’ai pas su par lequel commencer” (pensei por vezes por fim aos meus dias mas não soube por qual deles começar). Não acompanho Prévert nessa ideia de ter pensado dar um fim aos meus dias (coitadinhos) sabendo de antemão que não saberia por qual deles começar. Isso seria, quiçá, querer protelar qualquer coisa, ganhar tempo, ou, simplesmente, lançar uma “boutade” e esperar as reacções. Além do mais, os meus dias fazem-me falta e quero vivê-los em todas as suas 24 horas.
Para isso confio nos relógios, nos pêndulos, nos metrónomos, nos tempos musicais, e em quaisquer outras formas de medir tempo. E até nem me preocupo nada em saber se cada minuto é igual ao outro, se cada um tem os mesmos sessenta segundos - se um não terá mais uns centésimos do que outro – e até me estou marimbando para o “isocronismo das oscilações do tempo” descoberto pelo amigo Galileu. Lembram-se ? Aquele teimoso que, mesmo condenado pela Igreja (nos idos do séc. XVI) por defender a teoria do heliocentrismo, segundo a qual a terra move-se em torno do Sol, reiterou, ainda que timidamente: “Eppur si muove”.
Me parece cada vez mais plausível a ideia de que nos andamos a enganar uns aos outros das mais variadas formas, usando os mais diversos meios. Não me refiro aos políticos que, esses, são naturalmente enganadores profissionais. São especialistas em “ganhar tempo”. Os mais chegados, os amigos até, aqueles que gostam de nos convencer de coisas que não têm verdadeiro suporte. Ou sou eu que não vislumbro onde eles querem chegar quando me dizem: “Eh pá, tás com bom aspecto, o tempo não passa por ti !!!”.

Não passa porque me entra por aqui a dentro, entranha-se pelos poros, instala-se soberano e provocador, desgasta por aqui, por ali. Deixar de usar relógio não resolve nada como já se viu mais atrás, o tempo não pára.
Há paliativos, lá isso há. Aqueles comprimidos. Os “health clubs”, botox não gosto, quando muito uma ida ao cirurgião plástico para esticar umas peles, não muito para não levantar a perna quando rir, ajudam a crer que “retardam o tempo”. Suspeito que é mais psicológico do que fisiológico.
O tempo não passa por ti”. Pois, pois !!!!!! Tábem!!!
Vale o inesgotável Carlos Drummond de Andrade para me tirar das angústias, das incertezas, das dúvidas, no seu poema O TEMPO PASSA? NÃO PASSA, quando diz:

Não há tempo consumido
Nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
De amor e tempo de amar.


Helder de Sousa
imagem de Mariliza Silva



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O GRITO


Volto à doméstica política e volto mais uma vez a um escrito do Miguel Sousa Tavares. Se a situação política em Portugal fosse um jogo de futebol (parece que se chama agora, partida, deve ser futebolês com que ainda não me familiarizei), era fácil resolver a questão culpando o árbitro. Mas a desgraça é tal que o país de Camões, de Vasco da Gama, de Pedro Álvares Cabral e de tantas outras ínclitas figuras, já não tem sequer árbitro. Dizemos, nós, os sem iates e sem Ferraris, nós, os das casas e ordenados penhorados que "em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". O drama é maior do que parece quando um povo já perdeu a força do direito à revolta num país onde "os que mandam" dão os piores exemplos de falta de respeito pelas pessoas. Miguel volta a por a mão na ferida, volta a gritar aquilo que já ninguém mais grita. Gostaria eu que não fosse uma voz a pregar no deserto.


Leiam esse grito do Miguel Sousa Tavares.




As más companhias


Miguel Sousa Tavares (http://www.expresso.pt/) Segunda-feira, 16 de Nov de 2009



Pode ser que me engane, mas o potencial de danos que Armando Vara pode vir a causar a José Sócrates é bem maior do que todos os outros casos ou pretensos casos que tanto desgastaram a imagem do primeiro-ministro e tão decisivamente contribuíram para a perda da maioria absoluta do PS. Armando Vara (e não a 'Face Oculta') tem a capacidade de, por si só, arrastar Sócrates para a queda num poço de que se desconhece a profundidade. Há amizades que matam, quando se misturam com outras coisas que não são misturáveis. Foi José Sócrates quem, em nome da amizade (porque competência ou qualificação para o cargo ninguém a conhecia, nem ele), fez de Armando Vara administrador do banco do Estado, três dias depois de este ter adquirido uma espécie de licenciatura naquela espécie de Universidade entretanto extinta - e porque uma licenciatura era recomendável para o cargo. E foi José Sócrates quem, indisfarçadamente, promoveu a transferência de Santos Ferreira e Vara da Caixa para o BCP, numa curiosíssima operação de partidarização do maior banco privado português, sobre as ruínas fumegantes do escândalo em que tinha acabado o case study da sua gestão 'civil'. Manda a verdade que se diga, porém, que estes dois golpes de audácia de José Sócrates em abono de um amigo e compagnon de route político foram devidamente medidos: aparentemente, Sócrates contava com o silêncio e aceitação cúmplice com que toda a classe empresarial e financeira recebeu a meteórica ascensão de Armando Vara aos céus da banca e o take-over do PS sobre o BCP, como se de coisa naturalíssima se tratasse. O escândalo não ultrapassou as fronteiras da opinião pública, de modo a perturbar o núcleo duro do regime. E isso foi um primeiro sinal do nível de promiscuidade aceite entre o político e o económico a que estamos agora a assistir. E, em silêncio sempre, toda a classe empresarial clientelar foi assistindo a uma série de notícias perturbadoras sobre operações bancárias a favor de algumas empresas ou investidores que, por acaso certamente, pertencem ao tal núcleo duro do regime, que goza do favor político da actual maioria. Sempre escrevi aqui que, em minha opinião, o problema do PS não é o que ele deixa de fazer em benefício dos pobres, mas o que faz e consente em benefício dos potentados. O fascínio com o grande capital e os grandes negócios (inspirados, promovidos ou pagos pelo Estado) é a perdição do PS. Aos poucos, este PS tem vindo a copiar o modelo de gestão introduzido por Alberto João Jardim na Madeira: negócios privados com oportunidades e dinheiros públicos, em troca da solidariedade política para com o Governo. Um capitalismo batoteiro, com chancela 'social' e disfarce de 'interesse público'.Neste clima de facilitismo instalado, já ninguém se espanta com as sucessivas e tremendas notícias sobre o estado de gestão do 'interesse público'. Já não espanta descobrir que nenhuma das contrapartidas da ruinosa e inútil aquisição dos submarinos tenha sido executada e que a sua execução nem sequer esteja devidamente salvaguardada no contrato assinado pelo Estado português. Não espanta que a Grão-Pará (uma empresa que não existiria sem os sucessivos favores do Estado, incluindo do ex-ministro e ex-socialista Pina Moura), possa, finalmente e com o beneplácito do Supremo Tribunal Administrativo, construir, e em grande, na zona de construção proibida do Parque Natural Sintra-Cascais. Não espanta que, antes mesmo de lançadas ou terminadas as obras, as últimas seis concessões de auto-estradas já tenham ultrapassado em 40% o valor das estimativas do Governo - num impressionante 'deslize' de 1110 milhões de euros. Não espanta que o Tribunal de Contas chumbe duas das adjudicações porque as condições em que elas foram outorgadas não são as mesmas do concurso público, mas substancialmente mais gravosas para o Estado. E não espanta que o presidente das Estradas de Portugal venha afirmar que se trata apenas de "interpretações jurídicas" diversas e que a suspensão das empreitadas irá pôr em causa postos de trabalho (um 'argumento' mágico que vale para justificar todas as tropelias cometidas nos últimos anos, em matéria de urbanismo e obras públicas). E não espantará ninguém que, como aqui escrevi a semana passada, em breve se descubra que, antes mesmo de iniciadas as obras, já o TGV e o aeroporto de Alcochete 'derraparam' 20 ou 30% sobre o seu custo anunciado. E, se se conseguir penetrar a meticulosa teia de 'pareceres' técnicos, estudos, cláusulas ocultas dos contratos, arbitragens sempre desfavoráveis ao Estado, se formos tentar descobrir como, porquê e a favor de quem é que não há uma obra pública que cumpra o orçamento, encontraremos sempre mais do mesmo - os mesmos processos, os mesmos truques, as mesmas empresas, os mesmos 'facilitadores' de negócios no papel de go between entre o 'interesse público' e os negócios privados. Isto, num país onde o défice das contas do Estado chegou aos 8% e a dívida pública aos 80% do PIB e o extermínio fiscal sobre os que pagam impostos se tornou insustentável. O ar está a ficar irrespirável.Como se tudo isto não fosse já alarmante, eis que a justiça implodiu de vez e à vista de todos, em sucessivas cenas lamentáveis na praça pública. A coisa ficou tão anárquica que já se tornou normal ver os jornalistas irem pedir opiniões sobre os casos mediáticos pendentes aos sindicatos dos juízes e do Ministério Público! Não fosse a PJ (única entidade da justiça que ainda merece algum crédito) e um seu investigador de Aveiro, e a 'Face Oculta' nunca teria conhecido a luz do dia ou teria logo patinado. Mas, como os maus hábitos nunca se perdem, eis que tudo já entrou na normalidade, com as escandalosamente normais fugas do segredo de justiça a invadirem a imprensa, tratando de sabotar alegremente uma investigação até aqui conduzida num exemplar silêncio e profissionalismo. E já só pode dar vontade de rir (ou de chorar!) assistir ao espectáculo único de ver os dois mais altos magistrados do país - o presidente do Supremo e o PGR - trocando galhardetes de antiga amizade fundada em rivalidades sindicais, empurrando um para o outro as malditas escutas entre Armando Vara e José Sócrates. Seja qual for o conteúdo de tão sensível material, e mesmo que jamais o venhamos a saber, eles conseguiram já o pior de todos os resultados: instalar uma suspeita mortal sobre o primeiro-ministro e o funcionamento da própria justiça, que não tem reparação possível. É, de facto, notável que o único cidadão deste país que não entende que há coisas que não podem esperar dois meses ou até oito dias para serem reveladas, seja o cidadão que ocupa o lugar de procurador-geral da República! Realmente, o lugar parece estar amaldiçoado e desde há muito.Junte-se então um governo cujo primeiro-ministro é dado a companhias comprometedoras, um sistema em que se fundem e confundem o político e o económico, o público e o privado, uma justiça que verdadeiramente se tornou cega e surda, mas não muda, um Presidente da República que se desautorizou a si próprio no pior momento, e um país onde as noções de interesse público e serviço público já quase se perderam por completo sem vergonha alguma, e tudo isto começa já a cheirar indisfarçadamente mal. Cheira a fim de regime e só os loucos ou os extremistas é que podem achar isso uma boa perspectiva para o futuro.




Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009


sábado, 21 de novembro de 2009

o discurso


Hoje é, por ter mesmo que ser, o dia de todas as palavras. Dia de que cada um que passar por esta tribuna se lembrará até ao silêncio sagrado da sepultura, a menos que, antes, venha desse mistério do Cosmos a brutalidade de um varredor de memórias como o Alzheimer e nos dê cabo de uma das mais belas relíquias conservadas nos labirínticos baús do cérebro. Quero muito sinceramente chegar ao rude calar da voz, ao apagar cruel da vida, com a estampa desta tarde feliz em condições de ser recordada sempre.

Meus amigos,
No dia de hoje, 21 de Novembro de 2009, eu e mais doze outros angolanos vencidos pelo vício bom da escrita, descobrimos a fórmula infalível de se ganhar peso no tempo curto de uma cerimónia pública. Na verdade, ao franquearmos as portas desta Casa e assumirmos a ousadia de reviver o mesmo ambiente que Agostinho Neto inaugurou sendo muitos de nós meninos farruscos do areal, alguns fazendo gatafunhos nas creches que Angola não possuía e outros até ainda sem estarem contemplados pelo dom da vida, só poderemos sair daqui da única maneira que é possível: com mais peso sobre os ombros: o peso da responsabilidade de cidadão, de patriotas, de homens e mulheres que optaram por servir Angola no campo que lhe confere a dimensão da glória e do respeito num Mundo de disputas pela notoriedade, a cultura.
Portanto, sabemos todos o que este compromisso que assumimos agora vai significar daqui para a frente. Não nos tornamos notáveis nem estrelas; somos – isso sim – cidadãos com os passos escrutinados, a preguiça questionada, a qualidade cobrada segundo padrões mais exigentes, porque os leitores – esperamos – vão aumentar exponencialmente.
Estamos a ter os nossos quinze minutos de fama e é como se diz na gíria quase maçónica dos negócios: “não existem almoços de borla”. Se a União de Escritores Angolanos teve a gentileza de nos acolher no seu regaço, quererá com certeza alguma coisa em troca. E ainda bem: faz-nos o único pedido que dela pode partir, que escrevamos muitos e bons livros, para que as letras angolanas se suplantem na qualidade, nos temas, na diversidade, nos nomes.
Aproveito para anunciar, desde já, que farei a minha parte. Num intervalo curto de dez dias, se as velhas armadilhas das gráficas forem tolerantes, terei todo o prazer de voltar a ver-vos a todos nesta sala, para receberem “Um Ano de Vida”, o livro que escrevi aos pedaços mas disciplinadas entregas de sete em sete dias.
E é por este mesmo parto anunciado que vou começar por lembrar-vos os caminhos da minha escrita, dizendo que Um Ano de Vida pertence-nos a todos, certamente mais que qualquer outro livro que tenha escrito antes.
Primeiro, porque são crónicas recentes, que ganharam expressão material desde o dia 14 de Novembro de 2008, quando nos lançámos na ousadia do jornal O PAÍS, obedecendo a outra minha paixão incorrigível: o jornalismo.
Digo que é um livro de todos porque os motivos, os temas, a inspiração, vieram de todo o lado. Nada nem ninguém, quase, ficou de fora. Estão os tempos de yakala yá, quando as pedras na madrugada tinham estatuto de fila humana e o recolher obrigatório deixava nos cidadãos a incerteza entre o deixar-se estar em casa e o pão que faltaria, com a berraria desatinada dos filhinhos que, por mais que se lhes explicasse, nunca entendiam o que era isso de comida racionalizada, a carne à míngua, o arroz aos quilinhos, o açúcar às colheradas. Estão as alegrias desse tempo esquisito, quando era um acto de heroísmo shakesperiano ou valentia troiana, conseguir ao meio-dia um prato de arroz com peixe frito, acompanhado de um batalhão de finos em copos reco-recos da Vidrul, bebidos depois com um desespero de tuaregue do Sahara no inesperado oásis que segura o minúsculo fio de vida. São crónicas do absurdo e do nobre, da inocência e do grotesco. Trazem tudo como num bom sarrabulho servido num quintal com alma angolana, onde cinco convidados depois se transformam em dez, quinze, dezanove, vinte e muitos, porque a música já levanta poeira e a vizinhança resolveu entrar também, os amigos dos amigos são convocados de emergência para darem cabo da cerveja que ameaça sobreviver à caçada.
É assim como espero que Um Ano de Vida seja recebido, por ser um livro que traz muito dos meus encontros e desencontros com Angola, as suas gentes simples, os meus camaradas de profissão, as minhas viagens de repórter mas, sobretudo, o meu nunca oculto amor pelas pessoas e os lugares que o apelo da grande cidade deixou. São crónicas com sabor ao mais palpitante dos lugares que piso sob este céu azul de África, o Tomessa.
Sim, porque foi ali que tudo começou, um dia.
Nasci de pais humildes e batalhadores. Meu pai, um multiofício que tanto fazia calças para os vizinhos, desenrascava uma janela para o forasteiro, ou aplicava uma injecção de quinino ao amigo que ardia em febres palúdicas. E fazia mais: ensinava os menos afortunados a descobrirem o segredo das palavras na popular cartilha João de Deus, cultivava o café, a ginguba, o feijão, o milho e a banana para a prole; mergulhava na emoção da bola no seu Sporting Clube do Banza Polo para os campeonatos das Regedorias mas galvanizava ao mesmo tempo meia Carmona no seu Clube Recreativo do Uíge, onde era estrela respeitada pelos seus golos, as suas assistências, os seus dribles de seguríssima antologia. No fim de tudo, sobrava-lhe o essencial: tempo para amar. A mulher que teve, os filhos que gerou, sete ao todo.
Do outro lado da balança, minha mãe. Mulher de armas, pequena apenas no físico, e um génio tremendo que a tornava vizinha do temível. Morreu sem poder ler os livros que o filho escreveu, porque nem a Cartilha João de Deus, nem a gloriosa Batalha da Alfabetização lançada por um filho inalcançável desta Casa –Agostinho Neto – conseguiu dar-lhe a luz das letras. Mas mesmo assim morreu infinitamente feliz, sabia que os filhos liam por ela, para ela e quase com ela.

Os meus primeiros gatafunhos num caderno foram na escola primária do Tomessa, um rectângulo de tijolo e argamassa de paredes pintadas em creme que ali ainda distribui generosamente o melhor que um povo pode ter, longe do brilho e da estridência do neón, dos Ferraris, das pesadas mascotes em ouro, dos cartões de crédito sem limite, dos poderes que esmagam os fracos: a educação.
Tratei sempre de ser um bom aluno. Aprendi cedo que nas condições limitantes de uma aldeola rodeada de verde, mato denso, barro vermelho e pouco mais, o sonho do mundo tinha de andar intensamente preso à luta pelo saber.
Os sinais de que as letras me conquistariam pertencem a um tempo curioso. Foi na transição do menino da aldeia para o colega pobre de meninos brancos, na Escola Preparatória Marechal Carmona. Lutava para nunca ter festa quando a nota na disciplina de Língua Portuguesa andasse distante do 18 ou 20. Uma aposta com expressão material nas composições que cada vez gostava mais, sobre animais, países, estados de espírito, até ao dia em que a escola inteira, com três mil alunos, foi convocada para um concurso de Redacção, cujo tema era: Se eu fosse o director…
Competia-nos, no fundo, avançar com ideias sobre a nossa escola, que já então – pleno período de esplendor económico de Carmona – tinha debilidades imensas, como infiltrações no tecto, vidros partidos e que levavam uma eternidade a repor, e casas de banho absolutamente “invisitáveis”, de tanta concentração de amoníaco e provavelmente outros gases radiactivos.
Surpreendentemente, ganhou o primeiro lugar o aluno número 13 da turma C do 1º ano do ciclo preparatório, de seu nome curto Luís Fernando.
A Redacção vencedora teve honras de publicação no jornal da escola, que não pude ler a não ser em espreitadelas aos boletins informativos dos colegas derrotados, pela simples razão de que 1 escudo e cinquenta centavos – o banal mil-e-quinhentos daquele tempo – era para mim uma fortuna ao alcance só em tempos de Natal.
Sem jornal e sem alegria, ficou contudo a ideia de que “quando eu for grande, talvez poderei sonhar em escrever livros”.
E passaram-se os anos até surgir o capítulo Cuba, em 1986. Foi aqui, nas cadeiras de Literatura, sobretudo o decisivo encontro com vultos das letras latino americanas como Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Pablo Neruda, que a suposição se fez certeza. Mas a saga dos Buendía naquele Macondo mítico de Cem Anos de Solidão, onde a escrita do colombiano Gabriel García Márquez celebra a níveis estonteantes o culto do improvável, acabou em mim qualquer vacilação que poderia alguma vez existir: tinha de ser escritor.
Devo, portanto, a “última palavra” ao homem que descreveu as peripécias dos ciganos naquele povoado perdido de uma Colômbia de economia a gravitar ao ritmo do cultivo da banana; o mago que acreditou no amor senil em tempos de cólera e mostrou a nudez cruel de Simón José António de La Santísima Trinidad Bolívar y Palacios, ou seja, Simón Bolívar, em o General no seu Labirinto. É ao Prémio Nobel de Literatura 1982 , Gabriel José García Márquez, nascido como eu numa aldeia sem direito a coordenadas geodésicas nos mapas, em Aracataca, que em última instância devo o empurrão decisivo para a aventura da escrita.
Lancei-me a ela ainda em Cuba, com um primeiro livro que poucos conhecem, fora do estrito âmbito da minha família. Chama-se Com Sabor a Terra, e fala – o que esperam? – do meu inigualável Tomessa. Se fosse vendido nas livrarias longe do lugar em que nasci, teria seguramente ganho carradas de pó e as aranhas fariam dele um salão de festas, com as suas teias caça-moscas. Nunca foi vendido e os seus 25 exemplares, saídos de uma gráfica artesanal na envelhecida Havana dos barbudos, acabaram oferecidos a alguns dos protagonistas da história simples do meu Tomessa.

Regressei a Angola em 1992, num ano em que todos sonhávamos com a democracia que o Mundo rico dos outros sempre disse ser um bom sistema de vida. Cheguei tarde para as eleições mas não para os bombardeamentos que por pouco interrompem mais cedo a minha missão na Terra. Dois obuses no quarto andar do prédio dos Combatentes onde tinha acabado de montar poiso, foi o suficiente para perceber que, para alguns, as eleições só são mesmo livres e justas quando se ganham. A derrota nas urnas sempre pode ser reclamada como fraude massiva e generalizada.
Mas, adiante. Hoje o dia é para a festa das letras, e nada mais!
No ano de 1999, perto da viragem do século, entendi que tinha já em baús dispersos aqui e ali umas Noventa Palavras que poderiam provavelmente ser do interesse do público. Decidi enfrentá-lo, com a Executive Center a aceitar o desafio e o amigo José Patrício, à época embaixador de Angola em Portugal, a honrar-me com as palavras do prefácio.
Os anos de jornalismo, com reportagens inquietas de um viajante, crónicas sobre lugares únicos como a Nova Iorque das Torres Gémeas, Hong Kong e Roppongi, em Tóquio, onde os boémios temos uma rua inteira só para nós, com bares loucos e discotecas mais loucas ainda, preenchem o livro de estreia.
Depois houve que selar a transição com que sonha qualquer jornalista que anda na profissão não para arrecadar alguns cobres suados: aventurar-se no seu primeiro romance. Fi-lo em 2002, numa sexta-feira 13, dia de azar. Para espantar os mitos e as superstições com um livro, todo ele, cheio de mitos e crenças mal explicadas de uma infância no campo. A Saúde do Morto, inspirada na saga de um uigense que construiu fama no Negage, Kibabo, com o seu mau hábito de morrer nas celas da PIDE, deixar-se apodrecer e seguir em frente com as suas tropelias, dias depois. Na narrativa, o feiticeiro-mor transmutou-se para João Kyomba.
Antes do Quarto veio a seguir. Com o título, as interpretações maldosas. Mas nada que não se explicasse. Se era o terceiro livro, não tinha porque não chamar-se Antes do Quarto.
Revisitei, com ele, a velha paixão do jornalismo. Crónicas que fui deixando no Jornal de Angola, ao qual estive ligado por mais de uma década, deram o volume 3 das minhas futuras Obras Completas.
O sucesso de João Kyomba com a sua saúde à prova de tudo, inspirou o prolongamento da saga. Mudou-se do campo para a cidade – e não uma cidade qualquer mas a sofisticadíssima Nova Iorque – e nasceu assim João Kyomba em Nova Iorque. Só tropelias, pois claro!
A generosidade da crítica e as palmadinhas nas costas afastaram da paisagem a veleidade da desistência. Que aliás nunca se colocou, mesmo quando os livros não melhoram a conta bancária de ninguém, entre nós.
Clandestinos no Paraíso foi o senhor que se seguiu. Luanda no seu melhor, onde um vencedor Alegria da Costa, vive numa semana o que nem Dom Quixote de La Mancha nem qualquer outro aventureiro conhecido do universo das letras, conseguiu alguma vez igualar. Champanhe e tresloucadas aventuras na horizontal fizeram dele o herói burlesco de um súbito enriquecimento que veio com a fábrica de banana seca em Cacuaco.
Depois dele, a desaceleração que também faz falta, para retomar o fôlego. Em 2008, na cidade onde me iniciei na escrita de notícias, o Uíge, entendi comemorar os meus trinta anos de estrada lançando A Cidade e as Duas Órfãs Malditas. Trezentos quilómetros distante do seu cenário, a Luanda da segunda metade do século dezanove, onde duas inocentes muito pouco inocentes, já dominavam a arte de embaraçar os senhores da alta sociedade transmitindo-lhes gonorreia em doses cavalares.
Um romance de época, que já despertou o interesse de um realizador estrangeiro que o quer levar ao cinema, mas que para mim é como todos os livros que escrevi até aqui : simples exercício de prazer, para que me divirta eu e se divirtam, comigo, todos os que sabem que precisam de conseguir tempo para ler.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Este sou eu. E ponto final.


União de Escritores Angolanos, em Luanda, aos 21 de Novembro de 2009

Luís Fernando

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É para se ver como se escreve português em Angola.

Este texto é o discurso do escritor e jornalista angolano Luis Fernando, no dia em que foi admitido na prestigiada UNIÃO DOS ESCRITORES ANGOLANOS.

no comment

Na Na ilha de Luanda, a servir de separador da estrada da ilha.

domingo, 1 de novembro de 2009

AS IMAGENS DO LUIS

A INSUPORTÁVEL DAMA DO SAPATO VERMELHO

Ele faz o favor de me distinguir com uma admiração mais própria dos jovens em relação aos deuses da pop do que aquela de que me julgo minimamente credor: nenhuma.
Mas o Luís Fernando insiste em afirmar que me idolatra - o exagero é meu - desde os seus tempos de miúdo de escola e pé descalço no Uíge, antiga cidade de Carmona. Dizia-se ser a capital do café, a terra onde moravam mais produtores de café por metro quadrado. Curiosamente a riqueza nos bolsos desses “homens do café”, ou roceiros, em pouco ou nada se reflectia no desenvolvimento da cidade talvez porque grande parte do pecúlio ficava empenhado em cocktails falsificados nos cabarets da capital.
O Luís conta sempre a quem chega de fresco à redacção que o Helder era o ídolo dele naqueles tempos em que, como outros miúdos, corria morros e vales para ir ver as corridas de automóveis na cidade. Mal ele sabia, passados mais de 30 anos, que iria poder materializar a imagem dourada do homem do capacete ao volante de velozes e barulhentos bólidos a rasgarem as ruas de … Carmona. E, eu, mal sabia que iria cruzar-me com um antigo e incógnito admirador que, mais tarde, teria o sortilégio de reverter o sentido da admiração.
Mais do que antigo “kandengue” de pé descalço (como ele orgulhosamente se qualifica) num Uíge que ele venera e deseja fazer crescer, Luís Fernando é jornalista e escritor. Para mim, ele é um pintor sublime de palavras com que preenche telas de páginas da vida.
Se, em miúdo, eu era o ídolo dele por uma actividade efémera, agora, em idade adulta, ele é a minha referência perene em elegância na escrita. Escritor “compulsivo”, Luís Fernando faz do mais pequeno episódio do quotidiano uma estória e delicia-nos com a sua prosa alegre, corrida, expressiva.
Cada crónica dele, no jornal O PAÍS ou na revista VIDA é um manancial de figuras, de imagens que têm o condão de nos colocar directamente na acção.
Quem é que não está mesmo a ver o que é “uma respeitável dama entrada em anos, castigada pela impertinência da celulite “?
“A insuportável dama do sapato vermelho” é o título da crónica de Luís Fernando publicada na última página da Vida de 30 de Outubro deste ano. Pelo ritmo da escrita, dá a impressão que Luís Fernando a escreveu de um só fôlego, sem parar para pensar, na qual, nem o corrector automático do Word teve tempo de actuar.
É a história de uma senhora que entra, sem ter sido convidada, numa recepção dada por uma embaixada europeia, em Luanda. Se uma embaixada não é o sítio ideal para a intriga e o suspense, então não sei se haverá outro melhor para tal efeito cinematográfico. “Pareceu estranha a todos aquela voluptuosa irrupção num recinto que só concentrava casais”. Ambiente descrito, apresto-me a encostar-me ao balcão para testemunhar a sequência da prosa, quero dizer, do filme e já salivo os bombons de letras que se me apresentam a seguir.
“Cruzou na diagonal o rectângulo sem gente”, isto é, a dama atravessou um espaço vazio entre a entrada e uma zona onde se encontravam convivas. Imagino os olhares de uns … e de outras … até porque, o derradeiro troço da marcha que parecia decalcada a papel químico de uma noite de Óscares em Los Angeles” (estão a ver ???), “deu a todos a possibilidade de reparar na cor dos sapatos da misteriosa mulher: um vermelho sangue de absoluta vivacidade.”
A história desenrola-se em rápidas pinceladas de mestre. O homem a quem ela, a dama, tinha segredado qualquer coisa, “escapuliu-se em rápidos segundos, só, como se de repente um ataque de amnésia lhe tivesse arruinado o cérebro a informação de que tinha a acompanhá-lo, no cocktail de uma embaixada europeia, a mulher de toda a vida, a mãe dedicada dos seus seis filhos”.
Por respeito para com o autor e intenção pedagógica para com os leitores que deverão fazer tudo para lerem a crónica do Luis, não resisto a levantar, mesmo assim, um pouquinho mais da ponta do véu porque foi a mulher “de aspecto desmazelado por culpa implacável do tempo, da celulite e da vida rica, a lançar à desconhecida a óbvia pergunta: - quem é você?”.
Me desculpem os meus esforçados leitores, terei de omitir aqui a continuação do intrigante episódio que, de alma encantada e espírito em estado zen, não sei se aconteceu na realidade ou se, simplesmente, nasceu da inesgotável fonte criativa do Luís.
Retenho tão-somente a subliminar moral da peça onde surge mais uma voz a denunciar uma determinada forma de viver de novo-riquismo enfarpelado em belos fatos azuis às riscas “de um vencedor de nova vaga”.

hs

(consultar: www.vida.opais.net)







segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Mais uma de José Saramago

"a Bíblia é um manual de maus costumes" - Saramago

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ZERO


In "Opinião" do Correio da Manhã


A partir de domingo, quando as autárquicas estiverem resolvidas e o pudor que qualquer campanha eleitoral impõe se dissipar, é natural o PSD volte a exibir, com abundância de pormenores, aquilo em que há muito se transformou: uma agremiação de luminárias sem estofo, capazes de se trucidar mutuamente, em nome de míseros interesses pessoais. A balbúrdia que se avizinha transformou-se, infelizmente, na imagem de marca do PSD.


Constança Cunha e Sá, Jornalista

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Não sou muito de alinhar na carneirada de fácil inserção, aquela que lança uma frase e a repete vezes sem conta, tapando qualquer outra intenção menos clara. Por exemplo, não alinho na ideia desvalorizadora de que o PS, que ganhou e bem as eleições legislativas, "perdeu 500 mil votos". Este número é a base da desculpa dos que perderam, como quem diz que "os tipos ganharam mas perderam", enquanto os que perderam de verdade bem manifesta nas urnas, cantam vitórias indiscutiveis. Quem chegasse agora à Terra e descesse no luso rectângulo, teria certamente alguma dificuldade em perceber esta lógica dos políticos perdedores que ganham.

Mas, o patético é "esta gente" como diz o inefável "Sinhozinho Malta da Madeira", teimar em manter a mesma estrutura mental anos e anos a fio. E, tudo o que propõe de construtivo é ZERO.

Não entenderam alguns dos muitos responsáveis políticos a clara mensagem deixada pelos eleitores ao relegarem para segundo plano um partido como o PSD, não lhe dando nem vitória nem confiança. E só não deram mais votos ao CDS do Portas porque ainda lhe falta "un petit je ne sais quoi".

Há um cheiro a podridão na política portuguesa. Mal foram conhecidos os resultados eleitorais e o CDS subiu o que subiu, surgiram logo notícias sobre a questão dos submarinos "comprados" pelo Portas na qualidade de ministro da defesa. Esgotado - por enquanto - o filão Sócrates, os fazedores de destruição viraram-se para os submarinos. A política portuguesa é tão baixa que já conseguiu ultrapassar o nível do mar.


helder de sousa



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CÍCERO

SEM COMENTÁRIOS


Socorro-me da Wikipédia para conhecermos melhor este senhor.

Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C.Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano.

Cícero é normalmente visto como sendo uma das mentes mais versáteis da Roma antiga. Foi ele quem apresentou aos Romanos as escolas da filosofia grega e criou um vocabulário filosófico em Latim, distinguindo-se como um linguista, tradutor, e filósofo. Um orador impressionante e um advogado de sucesso, Cícero provavelmente pensava que a sua carreira política era a sua maior façanha. Hoje em dia, ele é apreciado principalmente pelo seu humanismo e trabalhos filosóficos e políticos. A sua correspondência, muita da qual é dirigida ao seu amigo Ático, é especialmente influente, introduzindo a arte de cartas refinadas à cultura Europeia. Cornelius Nepos, o biógrafo de Ático do século I a.C., comentou que as cartas de Cícero continham tal riqueza de detalhes "sobre as inclinações de homens importantes, as falhas dos generais, e as revoluções no governo" que os seus leitores tinham pouca necessidade de uma história do período.[1]
Durante a segunda metade caótica do século I a.C., marcada pelas guerras civis e pela ditadura de Júlio César, Cícero patrocinou um retorno ao governo republicano tradicional. Contudo, a sua carreira como estadista foi marcada por inconsistências e uma tendência para mudar a sua posição em resposta a mudanças no clima político. A sua indecisão pode ser atribuída à sua personalidade sensível e impressionável: era propenso a reagir de modo exagerado sempre que haviam mudanças políticas e privadas. "Oxalá que ele pudesse aguentar a prosperidade com mais auto-controlo e a adversidade com mais firmeza!" escreveu C. Asínio Pólio, um estadista e historiador Romano seu contemporâneo.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

09.09.09 - NOVES FORA, NADA

Parece que o dia de hoje é um dia especial pelo facto de ser uma data interessante: 09.09.09. Francamente não sei se tem algum significado especial seja em que enquadramento – cabalístico, cronológico, calendário, número capicua (999) – donde, vejo minhas preocupações diárias viajarem para o destino do costume: trabalho, amigos, rotinas.
Acedo, mesmo assim, a fazer uma breve reflexão e, ocorre-me fazer a prova dos nove. O resultado não me parece muito animador, noves fora, NADA. Francamente, gosto pouco de nada. Não devo ser o único. Prefiro cultivar o positivo. Nada invoca-me niilismo, vazio, o culto do não ser, a implosão da subjectividade, como alguém o definiu.
Os niilismos moral e político, por exemplo, podem ser deduzidos do niilismo existencial; pois, se a própria existência não tem valor, isso implica que nada tem valor, inclusive valores morais, inclusive o progresso.
O único modo de compreender o niilismo existencial é através da reflexão. O vazio da existência nunca poderia ser demonstrado através da prática, ou apreendido por meio da experiência imediata. Se, por exemplo, reduzíssemos nosso planeta a nada com bomba nuclear, isso não demonstraria coisa alguma; a visão desse planeta despedaçado também não provaria nada. Tal postura destrutiva prática não faz o menor sentido; equivale a tentar refutar um livro queimando-o.
O niilismo existencial se demonstra quando reduzimos o homem a nada, e para isso basta possuir algum talento intelectual aliado à honestidade, pois o esvaziamento da existência é a mera consequência de a entendermos. Não precisamos degolar a humanidade inteira para provar que a vida carece de sentido.

Socorri-me aqui de um ensaio tirado de Ateus.net para ajudar os meus amigos leitores a perceberem melhor o meu afastamento do Nada. Para mim foi bastante fácil – com tudo reduzido a Zero, nem me preocupo em fazer o “noves fora” simplesmente porque não há nove nenhum em Zero.
E tudo se simplifica.
E eu saio de cena, ufano e imperial, montado na minha quadriga de vaidades passageiras .
E, com algum descaramento, dou meia volta (U TURN como dizem os ingleses), e instalo-me de novo na importância do dia de hoje : 09.09.09.
Mando o niilismo às urtigas, o noves fora para o caixote do lixo, pego no megafone e digo às massas: acreditem que o dia de hoje é mesmo importante – faço anos.

mirando el otro lado de la luna

un ramo de rosas té y somnolientos jazmines tropicales en el día del cumpleaños de un amigo.
Un abrazo desde el alma-marita

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Na senda do silly.,...........




Na senda do silly...



oh!!! que novidade....não é preciso procurar muito...



enfim, finalmente, começaram a aparecer os actores da peça...



frentes a frentes......faixavor....tão possidónios....



declarações de princípios...faixavor.....tão básicos...........



comentários e comentadores....pleeeeaaseeeeeee....



já não é o país que está em crise de inteligência.,...



é essa Europa velha e estúpida, de mamas descaídas,



em busca de protagonismo ... político??? só???? não acho....



económico....? não me parece ......



...anda-se a fazer de conta.... a representar uma comédia....



ou será um drama????



uma farsa, talvez ...........!!!!!!!!!!!!!!!


Merkel who????


Sarkozy, quem ????


Brawn, ..... ????








sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Silly ... what ????




Seguir o país através dos noticiários da RTP África ou da Sic Notícias torna-se um exercício letal para a inteligência. O mínimo que pode acontecer é…adormecer. A questão é simples: não se vê, não se ouve, nada de interessante, como se a inteligência da nomenclatura nacional tivesse sofrido de súbito trombo com graves consequências sobre a expressão das ideias.
À distância, seguir o país pela televisão assegura uma dolorosa caminhada no reino do não ser.
Diz-se, nesta época, que se está na “silly season”, uma expressão usada pelos ingleses para dizerem que no Verão, não acontecendo nada de relevante, os jornais “inventam” histórias “tontas” para “venderem papel”. “Silly Season” desculpa tudo, define tudo, perdoa tudo, afirma tudo. Talvez por isso os políticos se aproveitem do clima propício à tonteira para dispararem os seus lugares comuns mais vazios e mais pobres de sentido. Eles julgam que estão a ser religiosamente ouvidos e acreditam até que estão a ser compreendidos. Não sabem, porque a prosápia é cega, que as pessoas estão-se perfeitamente marimbando para o que eles dizem. Mas ficam inchados de auto-confiança quando, cinco minutos depois de terem concluído as suas indiscutíveis verdades, as televisões, vazias de veraneantes conteúdos, convocam os seus comentadores residentes para análises mais profundas do que descer à abissal fossa das Marianas.
À mingua de acontecimentos relevantes com dimensão mundial, já que o país, de tão pequenas mentes, nem é capaz de gerar algo que dê que falar pelo mundo, as televisões agarram-se como lapas a acontecimentos fabricados pelos partidos, já que o Pontal se esvaziou dos calores do antigamente onde poeira e febras justificavam umas horas a fazer de conta.
Durante dois dias inteiros, a SIC Notícias repetiu à exaustão uma conversa doutoral do dr. Marques Mendes com análises de análises e comentários de comentários. Um festival de coisa nenhuma para fabricar um acontecimento que só o foi porque não há arribas a desabar todos os dias.
Tenho para mim que ninguém se lembra do que é que o senhor disse, se é que disse. Assim como aposto que ninguém se lembra do que disse – se é que disse – aquele outro senhor mais gordinho numa chamada Universidade de Verão do PSD. Alegremo-nos. A rentrée, que é a forma fina de dizer que “eles” acabaram as férias, propicia momentos elevados de “silly moments” o que não fica mal quando não há mais nada para dizer que repetir o que já foi dito.
Não fossem os profundos oráculos saídos da pitonisa de Belém para provocar as necessárias interpretações, estendidas durante dias como massa de fazer rissóis, o país entraria, inevitavelmente em irreparável estado de coma.
Preocupa-me muito – faz parte das minhas insónias aliás – que até o próprio BE já “perdeu o gás” do esgotado Louçã que, para não perder tudo nas pantalhas televisivas, fez avançar a Drago.
A Drago tem o dom de dizer coisas que também ninguém percebe – como convém aos fazedores de política – mas de uma forma bonita. Por mim falo: não me lembro de nada de relevante que ela tenha dito mas vale a pena olhar para ela.
Outro tanto não poderei dizer daquela senhora a quem devem ter feito operações de descontracção dos músculos faciais para agora poder mostrar uma espécie de sorriso. Parece que disse coisas importantes, a avaliar pela repetição das análises e comentários ao programa que parece ter apresentado para convencer que a governação dela vai ser melhor do que a dos outros.
Pelo menos, esta, não foi ao Pontal. Escapou à influência de um dos maiores centros de fabrico de “silly seasons”. Mas não escapou à mastigação exaustiva dos analistas.

Ver o país à distância, através das televisões nacionais, tornou-se um exercício de autoflagelação tal a frequência com temos de beliscar a pele para nos certificarmos se estamos realmente acordados.

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