“Este país” não cessa de me espantar eu que já tenho idade para não me admirar com nada. Gostava de poder gozar os meus dias numa relativa paz de espírito, conjecturando sobre “a chuva e o bom tempo”, me preocupando com coisas fúteis, descartáveis, encher os dias de quase nada e de coisa nenhuma, usar lugares comuns como estes e não ter que olhar à pureza do novo acordo ortográfico.
Mas este país faz tudo para me manter desperto e me causar algumas angústias de cuja maioria me julgava liberto. Já lá vai o tempo em que eu lia, absorvia, respirava Sartre e a Simonne, Malraux e Camus e me angustiava na medida exacta da minha idade de ter sede de conhecer.
Sem precisar de exercer grande esforço sobre os meus cansados neurónios, recapitulo algumas das raridades com que “este país” me presenteia com mais frequência do que seria socialmente aceitável. O caso Casa Pia, com os seus oito aninhos de terror sobre todos os intervenientes que me oferece a cereja no topo do bolo com a incompetência informática a desculpar mais uma semana de atraso na entrega da papelada aos advogados. O caso Carlos Queirós, uma refinada versão sul-americana da intriga e da politiquice barata e porca.
Desta vez não entro na política caseira simplesmente por não ter sentido nenhuma reacção epidérmica que me levasse a expurgar raivas incontidas. Os políticos ainda estão de ressaca das férias, por isso, em banho Maria. Não contam.
Nada do que anda a causar espanto e alguns sorrisos mal velados pelos corredores internacionais sobre “este país” se iguala, em novidade e dimensão, à mais recente conclusão retirada, seguramente, de altos estudos: “este país”, na abertura do ano lectivo, registou uma quebra de 50 mil crianças em relação ao ano de 2.000. Uma das causas para o decréscimo de inscrições no ensino, dizem por aqui, está na quebra de natalidade. As estatísticas mostram que de 120 mil crianças nascidas em 2.000 “este país” só festejou 99 mil nascimentos em 2009.
Me parece que o grande problema dos portugueses não está em serem só especialistas do caricato. Esta baixa significativa em produzir criancinhas é causa bastante para angústia. Já não basta ver-se “este país” a fechar portas de tudo quanto é fábricas e fabriquetas, para agora nos embasbacarmos com o fecho das fábricas de fazer meninos. É demasiada carga para a minha reserva de angústias.
Se a população activa não está capaz de mostrar as suas potencialidades, quem sabe se não seria bom chamar os “reformados”, os “jubilados” a darem mais uma prova de “sacrifício pelo país”. É só fazer as contas: se, dos 2 milhões de reformados, cuja idade média na hora da retirada da “vida activa” é de 59,6 anos, 50 mil procriassem (lembremo-nos, com a devida vénia do Charlie Chaplin), resolvia-se o problema do défice natalício “deste país”.
Não acredito que o atávico machismo luso tenha perdido capacidade de acções na horizontal.
As causas são, de certeza, bem mais profundas que não me cabe aqui penetrar. O contributo dos “mais velhos” na nobre luta pela demografia nacional seria, em meu modesto entender, não só um contributo patriótico mas também uma “chicotada psicológica” para os mais jovens. É que, se calhar, a maneira antiga dos mais velhos - seja ela qual for - poderia fazer toda a diferença!
Digo eu !!!!
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
Contributo para a natalidade
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
Deu-me vontade de rir, de ver o cê bazar - por Manuel Rui
Não é preciso ir atrás dos motores de busca da net para se saber quem é Manuel Rui.
Daí que passo de imediato ao assunto que me trás aqui.
Manuel Rui arrisca-se a ter sido o primeiro escritor angolano de reconhecido valor, a interessar-se pelo novo acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado e aceite por todos os componentes dos países luso-falantes, a começar pelo Brasil que já o está a aplicar.
Quem usa a escrita como forma de levar o prato à mesa, comos os escritores e os jornalistas, não pode assobiar para o lado quando se fala do acordo ortográfico. É ortográfico, note-se bem. Não vai mudar nada o linguajar de cada um dos falantes do português, do Brasil a Moçambique. É para se escrever mais simples. É para se aproximar a escrita do som. Nada de muito esquisito.
Como todas as mudanças, esta também provoca algumas hesitações, desconfianças até, algumas resistências. Sim, temos até 2012 para nos habituarmos à nova grafia. Não sei o que é as escolas do mundo falante em língua portuguesa já começaram – ou não – a fazer, no sentido de irem habituando os alunos à nova ortografia.
Sei é que um escritor de referência como é Manuel Rui, já deu o primeiro passo com o seu interessante quanto útil livrinho “O Semba da nova ortografia”, recentemente publicado em Luanda.
Semba é um tipo de ritmo muito angolano e o escritor imprime bem esse ritmo alegre nas suas versações sobre as mudanças que o português escrito vai sofrer.
Não resisti a partilhar um pouquinho daquilo que M. Rui deixou nas páginas do livrinho. Um sabor doce de intelectualidade com descontracção (aiiii, aquele c maroto vai ter de cair !!!!), a pensar nos que o vão ler.
Aí vão duas ou três páginas para se divertirem com o linguajar simples e pedagógico do escritor.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
O beijinho
Não sei exactamente quando começou a moda do beijinho em Portugal.
Bem, o beijinho acho que sempre existiu, naquela versão soft e minimalista do beijo e do beijão. Mas eu refiro-me ao beijinho como cumprimento, como saudação de encerramento de conversa telefónica, ou como forma de cumprimentos: beijinhos lá em casa !!!! E a casa a encher-se de beijinhos indiscriminados, sem destinatário nomeado, assim como quando a gente não se lembra do nome da esposo - ou do esposo - e se generaliza a saudação, beijinhos lá em casa. Fica bem e não magoa ninguém.
O que me confunde um bocado é quando os portugueses dão - ou mandam - "beijinhos grandes". Mas qual é a dimensão de um beijinho e, por arrastamento, qual a do beijinho grande. Acredito que quando alguém deixa, ou manda "beijinhos grandes" a alguém, está a dimensionar o apreço do destinatário. Não se mandam "beijinhos grandes " para a sogra. Quando muito - e é preciso que tudo esteja a correr bem entre todos - mandam-se beijinhos. Ponto. Grandes, só mesmo como expressão de um interesse escondido. Ou para engraxar alguém ou para engatar alguém.
Engraxar o chefe, mandando beijinhos grandes para a esposa é uma boa forma de engrandecer os beijinhos. Talvez daí venha uma promoção, sabe-se lá !!!???. Para engatar é capaz de ser um tanto arriscado usar os "beijinhos grandes". Olha, manda "beijinhos grandes" àquela tua amiga de ontem. O risco não estará propriamente no tamanho dos beijinhos, reside mais é no cumprimento ou não do amigo em "passar" os tais beijinhos de encomenda. Nem sempre (ou quase nunca) a carta chega a Garcia e...lá se vai o engate.
Me parece - corrijam-me se estiver errado - que o beijinho surge nos hábitos dos portugueses como forma de amenizar a força do beijo. Beijo é mais íntimo, ou mais familiar de nível UM. Ninguém se arrisca a dizer ao colega "manda um beijo à tua mulher". Que é lá isso????!!!! Beijo ?????Este gajo manda beijo à minha mulher ????? Vou ter de começar a tomar conta deles, ai vou, vou. Portanto, regra das regras, não se deve mandar beijo à mulher do próximo. Beijinho, beijinho é que se manda. É mais maneirinho e não tem conotação perigosa. O beijo pode ser mandado por SMS, fica lá entre eles os dois e o marido não precisa de ficar com a pulga atrás da orelha.
O beijão é outra coisa totalmente diferente. Tão diferente que poucos sabem o que quer dizer. Não admira. Os brasileiros é que criaram o beijão, não fomos nós. Eles lá sabem o que fazer com tamanho beijo. Vejam bem : bei jão. Não soa a exagero ? Eu acho, mas também devo dizer que venho do tempo do "beijo repenicado". Alguns de vós lembram-se. Aquele beijo sonoro, inocente, que se dava aos filhos para os chatear, que se dava entre pessoas da mesma família, em sinal de familiaridade. Beijo sem compromisso, amistoso, com visualização sonora.
O beijinho preocupa-me. De tanto se ter vulgarizado - muito por conta de um sentido de autodefesa, já aqui raspámos por esse assunto - o beijinho caíu na vulgaridade e perdeu sentido. É beijinho para tudo, para despedida, para agradecimento, para parte de cartão de visita. É a plebe dos beijos. Daí eu pensar que o "beijinho grande" veio para dar alguma dignidade ao simples beijinho. Sempre recebe um certo volume, uma certa forma de dimensão - é grande, não é pequeno.
A contradição, no entanto, mantém-se. Usamos o "inho" como maneira de diminuir, como forma de mostrar carinho, como símbolo da nossa pequenez. É "inho" para tudo. Adoro, por exemplo, quando pedimos a conta no restaurante e o empregado vem solícito, reconfirmar: "é a continha"???? Continha soa a pequenino, devia ser mais pequena do que a conta, mesmo que não seja. E sabe-se que não é nunca. Mas amolece as tentações reivindicativas.
Uma forma de manter alguma dignidade aos beijinhos é acrescentar-lhe "muitos". Muitos beijinhooooos.... Não se levanta aquele problema da contradição dos "beijinhos grandes" - se são inhos não podem ser grandes, se são grandes não podem ser inhos - e sempre ajuda a mostrar alguma consideração pelo destinatário - beijiiinhooooossss, assim prolongando as vogais, dá-se corpo ao beijo e não nos comprometemos demasiado. Só damos ou mandamos beeiiijiiinhoooosss, em despedidas à distância, seja pelo telemóvel seja de um passeio para o outro. E a ética fica defendida.
Os "beijinhos grandes" é que, na minha humilde opinião, estão a precisar de uma revisão do acordo ortográfico. A menos que os brasileiros tenham a soberana vontade de lhe dar identidade e passarem a usar nas telenovelas "bêjinios grandisss". Aí teremos que rever não só o acordo mas também os nossos hábitos aliás, abalados com o"colocar" no lugar de "pôr". Certamente já repararam, os portugueses deixaram de pôr e passaram a colocar. Grave será se, num arranque de personalidade começamos a colocar beijinhos...grandes.
É caso para nos preocuparmos.
Bem, o beijinho acho que sempre existiu, naquela versão soft e minimalista do beijo e do beijão. Mas eu refiro-me ao beijinho como cumprimento, como saudação de encerramento de conversa telefónica, ou como forma de cumprimentos: beijinhos lá em casa !!!! E a casa a encher-se de beijinhos indiscriminados, sem destinatário nomeado, assim como quando a gente não se lembra do nome da esposo - ou do esposo - e se generaliza a saudação, beijinhos lá em casa. Fica bem e não magoa ninguém.
O que me confunde um bocado é quando os portugueses dão - ou mandam - "beijinhos grandes". Mas qual é a dimensão de um beijinho e, por arrastamento, qual a do beijinho grande. Acredito que quando alguém deixa, ou manda "beijinhos grandes" a alguém, está a dimensionar o apreço do destinatário. Não se mandam "beijinhos grandes " para a sogra. Quando muito - e é preciso que tudo esteja a correr bem entre todos - mandam-se beijinhos. Ponto. Grandes, só mesmo como expressão de um interesse escondido. Ou para engraxar alguém ou para engatar alguém.
Engraxar o chefe, mandando beijinhos grandes para a esposa é uma boa forma de engrandecer os beijinhos. Talvez daí venha uma promoção, sabe-se lá !!!???. Para engatar é capaz de ser um tanto arriscado usar os "beijinhos grandes". Olha, manda "beijinhos grandes" àquela tua amiga de ontem. O risco não estará propriamente no tamanho dos beijinhos, reside mais é no cumprimento ou não do amigo em "passar" os tais beijinhos de encomenda. Nem sempre (ou quase nunca) a carta chega a Garcia e...lá se vai o engate.
Me parece - corrijam-me se estiver errado - que o beijinho surge nos hábitos dos portugueses como forma de amenizar a força do beijo. Beijo é mais íntimo, ou mais familiar de nível UM. Ninguém se arrisca a dizer ao colega "manda um beijo à tua mulher". Que é lá isso????!!!! Beijo ?????Este gajo manda beijo à minha mulher ????? Vou ter de começar a tomar conta deles, ai vou, vou. Portanto, regra das regras, não se deve mandar beijo à mulher do próximo. Beijinho, beijinho é que se manda. É mais maneirinho e não tem conotação perigosa. O beijo pode ser mandado por SMS, fica lá entre eles os dois e o marido não precisa de ficar com a pulga atrás da orelha.
O beijão é outra coisa totalmente diferente. Tão diferente que poucos sabem o que quer dizer. Não admira. Os brasileiros é que criaram o beijão, não fomos nós. Eles lá sabem o que fazer com tamanho beijo. Vejam bem : bei jão. Não soa a exagero ? Eu acho, mas também devo dizer que venho do tempo do "beijo repenicado". Alguns de vós lembram-se. Aquele beijo sonoro, inocente, que se dava aos filhos para os chatear, que se dava entre pessoas da mesma família, em sinal de familiaridade. Beijo sem compromisso, amistoso, com visualização sonora.
O beijinho preocupa-me. De tanto se ter vulgarizado - muito por conta de um sentido de autodefesa, já aqui raspámos por esse assunto - o beijinho caíu na vulgaridade e perdeu sentido. É beijinho para tudo, para despedida, para agradecimento, para parte de cartão de visita. É a plebe dos beijos. Daí eu pensar que o "beijinho grande" veio para dar alguma dignidade ao simples beijinho. Sempre recebe um certo volume, uma certa forma de dimensão - é grande, não é pequeno.
A contradição, no entanto, mantém-se. Usamos o "inho" como maneira de diminuir, como forma de mostrar carinho, como símbolo da nossa pequenez. É "inho" para tudo. Adoro, por exemplo, quando pedimos a conta no restaurante e o empregado vem solícito, reconfirmar: "é a continha"???? Continha soa a pequenino, devia ser mais pequena do que a conta, mesmo que não seja. E sabe-se que não é nunca. Mas amolece as tentações reivindicativas.
Uma forma de manter alguma dignidade aos beijinhos é acrescentar-lhe "muitos". Muitos beijinhooooos.... Não se levanta aquele problema da contradição dos "beijinhos grandes" - se são inhos não podem ser grandes, se são grandes não podem ser inhos - e sempre ajuda a mostrar alguma consideração pelo destinatário - beijiiinhooooossss, assim prolongando as vogais, dá-se corpo ao beijo e não nos comprometemos demasiado. Só damos ou mandamos beeiiijiiinhoooosss, em despedidas à distância, seja pelo telemóvel seja de um passeio para o outro. E a ética fica defendida.
Os "beijinhos grandes" é que, na minha humilde opinião, estão a precisar de uma revisão do acordo ortográfico. A menos que os brasileiros tenham a soberana vontade de lhe dar identidade e passarem a usar nas telenovelas "bêjinios grandisss". Aí teremos que rever não só o acordo mas também os nossos hábitos aliás, abalados com o"colocar" no lugar de "pôr". Certamente já repararam, os portugueses deixaram de pôr e passaram a colocar. Grave será se, num arranque de personalidade começamos a colocar beijinhos...grandes.
É caso para nos preocuparmos.
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