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terça-feira, 25 de maio de 2010

Muxima, um lugar mágico

Muxima é um lugar mágico. A palavra quer dizer coração em kimbundu, a lingua do Bengo. Gosto de ir a Muxima, sentar-me na igreja do século XVI, e ficar ali sem olhar para o relógio. É o maior lugar de culto católico de África. Gosto de ir a Muxima, ficar a falar com as crentes, sentadas no exterior à sombra de frondosas mulembeiras. São elas que cuidam da igreja.
Descalçam-se à entrada e fazem a distância entre a porta e o altar, de joelhos, rezando. Outras, postam-se junto do altar e "conversam" com a imagem da santa. Mostram oferendas, fotos de entes queridos. Falam como se falassem com a mais íntima das amigas. Mas não se ouve o que dizem.
Gosto de ir a Muxima. Ali, respira-se paz, conforto interior, sensação de bem-estar. A igreja é luminosa e arejada, a porta principal e as laterais estão sempre abertas. É um lugar para se estar.
É preciso ir a Muxima uma vez na vida. Mesmo que não se seja praticante. Mas ir depressa porque, qualquer dia, erguem lá um santuário gigantesco, com projecto já aprovado como se quisessem transferir Fátima para ali.
A senhora da Muxima não vai gostar de mudar de casa.














sexta-feira, 19 de março de 2010

Um lugar, uma visão

Kipungo

À espera do pai

Pela estrada encarnada desfilam árvores e pessoas numa quase dança coreografada pelo ritmo do sol. Ali não são as horas a marcarem a vida, a única pressa visível é fazer parar o tempo e simplificar os problemas.
Como figuras de um quadro, as pessoas movimentam-se numa paisagem deslumbrante de verde. É aquele sítio mágico que nos transporta à força de uma Natureza pródiga e amiga à espera de ser devidamente aproveitada.
E se, em tempos, ali floresceu o cheiro dos cafeeiros, agora é a banana, a mandioca e o dendem que juntam as suas forças no sustento da sobrevivência de famílias à beira da estrada, onde, nem mesmo o pesado pó levantado por uma ou outra camioneta apressada no seu destino, as demove dos lugares cativos.
Que força dirige um povo onde a escola desaparece todos os anos com as chuvas e onde, todos os anos, é levantada numa teimosia de quem espera o dia em que alguém chegue ao lugar com uma carrada de cimento e uns tijolos capazes de segurarem a escola contra os seus devaneios libertários, embora a contragosto.
O soba Adriano Chico, 60 anos de sabedoria, dá voz ao sentimento: “Precisamos de tudo, nós cá não temos escola, não temos água, precisamos de uma creche, a escola é provisória e é levada pela chuva e pelo vento, todos os anos recomeça.” Na sua casa reune os notáveis do lugar, os representantes das 700 almas registadas. Havia notícia de pessoas de fora quererem ajudar mas a prudência assente em experiências anteriores obriga a ouvir todos e, a sabedoria conduz a uma paciente espera.
Em tempos recuados promessas foram feitas sem o devido cumprimento e, o soba Adriano Chico não tem pressa de voltar a ser enganado, não que as intenções não fossem boas, só que, ao não acontecer nada que viesse mudar o que quer que fosse, o mais velho já só acredita no que vê: “Queremos um pai que nos dá a promessa, não queremos que seja o padrasto a vir dar”
Quando a força das palavras é tanta que nem corrente, torna-se difícil entender a razão pela qual a acção fica a montante. Como é que pode faltar água num sítio onde um rio desdobra o seu manto luzidio, o Loma, e uma nascente só espera por transportes que a animem?
A corrente é outra e tem de ser vencida na dolorosa via da burocracia dos gabinetes enquanto, na sua infinita paciência, o soba Adriano espera a preferência da chegada do pai com a promessa, em vez d a vinda de mais um qualquer padrasto.
E assim vai deixando correr o tempo, com uma escola teimosamente sobrevivente, num lugar onde o paraíso mora ao lado à espera de alguém que lhe abra aporta.


Hélder de Sousa
(texto escrito em 2008, alusivo a uma ida ao interior do norte angolano, a um lugar chamado Kipungo (Quipungo), para os lados de Quibaxi, Pango Aluquém, enfim, algures por aí )

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