sexta-feira, 3 de abril de 2009

SARTRE É O CULPADO


...e chega-se ao fim do dia com aquela sensação desagradável que só atinge os incautos...
aquela sensação de ... porra, não estou satisfeito com o que fiz ....
e procura-se em casa o refúgio e, na mente, as explicações....
nada resulta...
e vai-se mais longe....na senda dos perdões.....
é do cansaço....trabalhei que nem um mouro, cumpri o meu dever mas,.....
a interrogação emerge sobre tudo o mais....
cumpri o meu dever profissional, fiz bem o que sei fazer, mas...
porque é que me sinto assim insatisfeito ????...
só sendo pateta alegre se pode ficar imune à desagradável sensação da insatisfação e partir daí para o esquecimento na forma de qualquer diversão vulgar ....
passear, beber copos, ver montras de lojas, olhar a televisão....
isto de ser humano, de ser animal pensante é muito complicado...
há sempre um algo mais inexplicável.....
para lá da cortina da compreensão....
tem-se tudo bem feito e a bater certo no cosmos da acção profissional, senta-se numa cadeira, deixa-se amolecer o ritmo, e a mente toma conta do assunto numa perspectiva crítica....
posso garantir um coisa: nunca seria contabilista, gosto pouco de fazer contas e de colocar valores na coluna do deve e do haver....
o Sartre é que o culpado com essa ideia do existencialismo e do ser e do nada....
sento-me após tarefa (bem) cumprida e....estou insatisfeito...
deve estar a faltar-me um elo, talvez aquele em que Sartre aconselha a criar o homem que temos dentro de nós.......
sei, à partida, e após análises profundamente introvertidas, que o cansaço que tenho não é físico mas pego nele para me auto-justificar....
serve-me neste momento...
estou cansado, portanto, insatisfeito....
uf!!!! que alívio....!!!!!!!!

sábado, 21 de março de 2009

Mensagem II

Porta de entrada da igreja da Muxima

Deve ser da presença do Papa em Luanda. A força e o entusiasmo do povo angolano manifestados durante a visita do Santo Padre impressionam-me. São aos milhares e milhares, pelas ruas dos percursos de Bento XVI, a manifestarem a sua alegria e o seu agradecimento pela visita. Mas impressiona-me também a capacidade de organização dos angolanos. As pessoas estão vestidas de branco, usam bonés com a efigie do Papa, escuteiros aos milhares vindos de todo o país, mulheres de todas as províncias, como que a quererem dizer que Angola agradece, na pessoa do apóstolo, a paz que está a viver. Este povo é sofrido de 27 anos de cruel guerra fratricida, mais outros 14 contra o exército português.

Noto nos angolanos um receio quase físico de perderem esta paz com pequenos sete anos de idade. Aproveitam todas as ocasiões para agradecer.

Por mim, que não fui tocado pela fé, impressiono-me com estas manifestações verdadeiramente naturais, espontâneas. Assim como me impressionou ver aquelas duas crianças da foto, fazerem, de joelhos, todo o percurso desde a porta da igreja até ao altar, tal como vêm os adultos fazer.

Por mim, que não fui tocado pela fé, interrogo-me o que me levou outra vez àquela igreja onde me sento e me sinto bem no meio das pessoas que ali vão rezar e agradecer sei lá que concretização de pedidos. E, mais uma vez, admiro a generosidade e a simplicidade delas. Que força as move???

sábado, 7 de março de 2009

Mensagem

É mais forte que eu. Tenho de falar de mim. Mas vou ver se consigo passar uma mensagem. Não tenho muito jeito para pregador (senão seria bispo numa dessas igrejas onde se ganha muito dinheiro), mas acho-me no dever social de subir ao púlpito do blogosfera. A mensagem que quero mandar é de esperança e de crença em nós próprios. Alguns dos meus leitores muito rapidamente vão reagir - mensagem de esperança a valer só mesmo a da igreja, que é aquela que traz o selo de validade. Não aceito. Uma pessoa também pode passar mensagens de esperança. Tenho um exemplo na minha própria vida. Há muitos anos, vivi uma situação de dificulades económicas, com uma família para sustentar e insegurança quanto a trabalho. Em conversa de desabafo com um amigo (por acaso, ou talvez não), na mesma situação, ele deu-me uma grande lição de esperança e de crença nas suas capacidades como indivíduo: "não te desesperes, mantém-te sempre atento ao que te rodeia, há-de surgir-te a oportunidade que te vai tirar dessa situação".

Continuamos na conversa, a última porque nunca mais voltamos a ver-nos. Ele arranjou trabalho no Porto, numa rádio, eu fui admitido na RTP. Ambos não desitimos. Recordo com saudade esse amigo que me ajudou a não perder a esperança e me ensinou a continuar a lutar mesmo em condições adversas.

Não esperava, 30 anos depois, voltar a receber uma lição, uma mensagem e sentir necessidade de a partilhar.

Faz hoje dois anos que tive uma síncope, caí inconsciente, fiquei um tempo indeterminado como "morto". Se tivesse morrido naquela altura, não teria sofrido nada. Tinha ido acordar a minha neta Iara para se levantar para a escola, como fazia todos os dias. Ia descer a escada para ir preparar o pequeno almoço dela na cozinha. Caí fulminado antes da escada. Foi um milagre não ter caído aqueles degraus todos. Despertei na ambulância, confuso, sem perceber porque estava ali. Uma enfermeira foi-me fazendo testes pelo caminho: como me chamava, que idade tinha, onde morava, ao mesmo tempo que controlava um tubinho de soro "espetado" na veia. "Apaguei-me" à entrada no hospital de primeira fase - Torres Vedras . Recordo-me de, mais tarde, um médico me perguntar como me sentia e que se lembrava de mim, da televisão. Imaginam a minha alegria!!!!! Eu nem sabia muito bem quem eu era....

O processo de recuperação da "minha vida" estava iniciado, faltavam alguns exames mais, cateterismos, para ver o entupimento ou não das veias. Estava todo entupido e, o médico, simpático e positivo, até me disse (certamente para eu rir): oh Helder, não consigo passar por lado nenhum das suas veias, você nestas condições, pelas estatísticas, devia era estar morto....!!!! Achei simpática a ideia mas não aderi. Lembro-me de lhe responder: estou nas suas mãos, vocês sabe o que é preciso fazer.

O pós-operatório de uma operação de peito aberto é prolongado no tempo e confuso no espírito. Depois de nos serrarem o esterno e manipularem (isso mesmo, retirarem o nosso coração do seu lugar e virarem-no para verem melhor), depois de nos colocarem bypasses feitos daquela veia safena que temos nas pernas, passámos a ser outra pessoa. Algo de muito vital, muito profundo, muito nosso foi mexido.

É verdade que tinha de ser assim e é assim mesmo que deve ser. O meu médico sabia muito bem o que tinha de fazer naquelas 5 horas em que teve o meu EU nas mãos. E eu nunc duvidei de que sairia dali vivo. A convalescença deste tipo de intervenção altera a nossa maneira de viver, ou, melhor, a nossa maneira de ver a vida. Passamos a priorizar outros valores, passamos a ter uma visão mais abrangente da vida e, sobretudo, passamos a perceber que a vida tem, de facto, uma dimensão ... efémera. Estás muito bem a acordar a tua neta e, no segundo seguinte, cais "morto". É esta barreira tão frágil entre estar e deixar de estar, ser e deixar de ser, que passamos a valorizar e a respeitar.

Tenho alguns amigos que viveram experiência idêntica à minha, cada um tendo reagido de forma diferente do outro. Cada caso é um caso. Mas, a passagem pela linha de fronteira marca-nos para o resto das nossas vidas.
O essencial, na minha maneira de entender, é considerar que recebemos um crédito e que temo o dever de o usar da melhor maneira.
Em vez de nos lamentar-nos pelos que nos aconteceu, temos de agir como se nada tivesse acontecido. Mais que isso, temos de agir acima do nível em que actuamos antes.
O crédito tem uma validade desconhecida. Cumpre-nos usá-la como se fosse infinita.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A minha neta IARA, que já conhecem de posts anteriores, está numa escola na Inglaterra. Fez 9 anos no passado 17 de Janeiro, já lá na Inglaterra. Apesar da questão da língua, ela entrou para o 3º ano e, em quatro meses, fez uma evolução tremenda. Entrou para o quadro de honra da escola. Num ambiente completamente estranho, sem dominar a língua, a Iara já ultrapassa muitos dos seus colegas locais em várias áreas. Melhor do que a minha vaidade de avô, as palavras do quadro de honra:
"IARA SOUSA
MAS QUE APRENDIZ É A IARA. É UMA MENTE INVENTIVA E PERCEBE OS CONCEITOS RAPIDAMENTE. OBVIAMENTE ELA ENCONTROU DIFICULDADES COM O INGLÊS A PARTIR DA ALTURA EM QUE SE JUNTOU A NÓS VINDA DE PORTUGAL. CONTUDO, NUM CURTO ESPAÇO DE TEMPO, O SEU INGÇÊS MELHOROU IMENSO GRAÇAS À SUA VONTADE DE APRENDER E DE VER AS COISAS PELA POSITIVA. O SEU SORRISO ENCANTADOR E DETERMINAÇÃO PARA SE ENVOLVER JÁ A COLOCARAM A REPRESENTAR A ESCOLA NO NET BALL E NO CORTA-MATO.
BOA , IARA ÉS UMA GRANDE VEDETA."
A tradução é minha. juro que não exaagerei nada.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

estar enamorado,amigos....

---hace un tiempo que no escribo en el blog de este amigo ,"nano", que me trajo ,una tarde lejana en el tiempo, la internet.
(é l y yo sabemos,por qué somos hermanos)
Hoy caminando por la peatonal de mi ciudad, bajo un sol de febrero, me sorprendieron las flores que regalaban al paso de los transeúntes y los anuncios de amor de San Valentín.
Así que decidí escribir en el blog algo sobre ese eterno "enemigo o amigo" que es el amor,pero no voy a escribir con mis palabras,sino que dejaré aquí el pensamiento de un autor español que sabe expresarse muy bien cuando se refiere a este dulce sentimiento.
El es Antonio Gala,autor español que continúa produciendo obras teatrales,cuentos,novelas,poesías,cuadernos...
Si tienen tiempo lean algunas de sus acotaciones:

"Cuando el amor comienza,hay un momento
en que Dios se sorprende
de haber urdido algo tan hermoso.
Entonces, se inaugura
-entre el amor y el júbilo-
el mundo nuevamente
y pedir lo imposible
no es pedir demasiado.
A. G.
-------------------------
Puede el amante
dejar de amar, pero, ay, amará siempre
el tiempo en el que amó.
A. Gala.
El amor se va mucho antes de irse y permanece hasta después de haberse ido.
A. G.
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Dicen que la juventud es tu edad predilecta , y dicen que la primavera es el tiempo en que sueles aparecer, Amor. Yo no puedo creerlo. Tú, que marcas el rumbo de las constelaciones y diriges hasta los más pequeños rumbos de la tierra. Tú, que eres la mano que sostiene al mundo, y eres el mundo y sus ciegos sentidos. Tú dispones de los granos de incienso de la felicidad y los charcos salobres de la pena. Por eso yo no creo que tengas edades y estaciones preferidas.Tú que utilizas miradas sorprendentes:una mirada, un libro, un río,una canción,una manera de entralazar los dedos..Tú el águila bicéfala.
Antonio gala
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Y ahora añado palabras de un poeta argentino.
Estar enamorado,amigos, es encontrar a la palabra que para hacer frente a la muerte se precisa.
es hallar en unas manos, el calor de la perfecta compañía.
Francisco Luis Bernárdez

S. Valentim, o mártir



Todos os anos a cerimónia repete-se. Os amantes juram-se mutuamente amores eternos e selam o compromisso com as mais variadas lembranças. Não lhes falta escolha, aliás, o embaraço está precisamente nessa fase da declaração: o que oferecer à pessoa amada neste dia tão festejado dos “namorados”. E não há escalões de comportamento para tão celebrado santo desde que sirva para ofertar o presente da tradição, como paga de um amor que não ficará devidamente credenciado se não for acompanhado do presente do Dia dos Namorados.
Permitisse a correria dos anos fazer uma breve paragem nas sempre enérgicas quanto caras excursões aos centros de consumismo, talvez houvesse disponibilidade para uns breves segundos de meditação sobre quem é esta figura mítica que dá pelo nome de Valentino (ou Valentim).
Entre corações das mais variadas matérias aos Cupidos de origens algo duvidosas, o Dia dos Namorados tornou-se, e ninguém contraria, em mais um daqueles em que é de bom tom abrir os cordões à bolsa numa cega obediência à peregrinação consumista. E tudo à sombra de um santo cuja vida poucos se interessam em conhecer. Ai do amante que tenha a coragem de se esquecer de assinalar o dia 14 de Fevereiro com um monumental esquecimento nem que a desculpa seja das mais lineares. Uma nunca poderá ser evocada: o esquecimento. A publicidade metralhada ao longo do mês quase torna criminosos os que não cumprirem com o obséquio de um, nem que seja, coraçãozinho dos mais pirosos, made in China.
O fenómeno faz bola de neve e todos se sentem na obrigação de cumprir uma tradição, imposta, cujas origens, afinal, se escondem nos recônditos cantos da história da humanidade quando um bispo romano, de seu nome Valentino, se deu ao luxo de ir contra as ordens do Imperador Cladius II e continuou a praticar casamentos. O Imperador pretendia tão simplesmente formar um grande e poderoso exército e não achou melhor maneira do que proibir os jovens de se casarem, para se sentirem mais capazes de executarem as suas funções bélicas, libertos de obrigações familiares.
Valentino continuou a praticar casamentos em segredo mas acabou por ser preso e condenado à morte. Os jovens, sempre generosos, atiravam flores e mensagens entre afirmações de crença absoluta na força do amor. De entre as pessoas que jogavam mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Asterius, por sinal, filha do carcereiro e que conseguiu autorização paternal para visitar o bispo Valentino. Em retorno, o bispo chegou a escrever uma carta de amor à jovem, com a assinatura que ainda hoje perdura: “de seu Valentino”. Valentino foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270 d.C.
A verdade é que no livro dos santos do catolicismo, só consta um Valentino associado ao dia 14 de Fevereiro. Mas a tradição cor-de-rosa dos dias de hoje está longe de relembrar os outros S.Valentinos inventariados mais tarde no século 14 na Inglaterra quando um senhor filósofo e grande estudioso, Geoffrey Chaucer, associou o dia ao amor romântico.
O certo é que a Igreja Ortodoxa russa fez várias listas de S. Valentinos e, a lista oficial de santos da Igreja Católica aponta sete mártires com o mesmo nome.
No fim das contas, ou mais propriamente, no fim do saldo bancário, fica-se um pouco mais distante da celebração do amor romântico, afogados pela poderosa máquina de vendas do consumismo moderno. Estima-se que, nesta época, sejam trocados vários de milhares de milhões de cartões, somados a todos os objectos que têm vindo a ser associados ao dia de S. Valentim, o bispo mártir casamenteiro.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Quem ganha? Corrupção ou justiça?

O presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, vai ser julgado por suspeitas de corrupção, abuso de poder, fraude fiscal e branqueamento de capitais, determinou esta quinta-feira o Tribunal da Relação de Lisboa. Segundo avança a edição online do ...Isaltino: Relação de Lisboa rejeita recurso e confirma autarca em ... RTPRelação confirma julgamento de Isaltino Morais por corrupção Público.ptTVI - Diário IOL - Rádio Renascença - TSF Online

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

...que domingo !...

foto Google imagens

Este domingo está de se passar de sábado, directo para 2ª.....
O nevoeiro não deixa ver para além do prédio da frente...
A chuva miudinha, daquela que não se vê mas molha até a alma, cai teimosa e caprichosa , adensando o nevoeiro.....
Não está frio, mas também não deixa de estar, porque a humidade esfria até aos ossos...
Está um célebre...e triste...dia à Porto!
Desde o primeiro olhar da manhã que se deita lá para fora, só apetece voltar para a cama e ficar bem quentinha debaixo do edredon.
Não é que não me passe pela cabeça essa hipótese, mas...sem estar doente, sem sono e sem companhia....o que se faz na cama todo o dia????.....Nada !!
No meio de muito engonhanço, uma pessoa lá se arranja e encara o domingo que tem pela frente com aquele fatalismo das coisas que "o que tem que ser, tem muita força".
Depois desta fase de meia inércia, ...ou se embala e se engrena nas arrumações e limpezas que só num dia assim se fazem, porque não dá para fazer mais nada....
...ou, não se embala....e enroscamo-nos num sofá a ver filmes atrás de séries até estar completamente embrutecida e meia atordoada, já sem saber qual é a nossa realidade ou a ficção dos filmes.
Não sei qual foi a minha opção.
Já limpei, arrumei, lavei roupa, cozinhei....
e, enquanto a roupa rodopiava na secadora, enrosquei-me a ver televisão.
Porque será que não consigo sentir-me relaxada neste "dolce fare niente" ??
Este tempo enerva-me, entristece-me e deprime-me.
Não consigo tirar partido do conforto que tenho.
Por que insisto, então, numa situação que não me agrada?
É isso....
Vou sair...
Não apetece.
o nevoeiro sufoca-me...
a humidade engelha-me...
mas saio na mesma.
Depois de estar na rua, logo vejo para onde vou...
Até logo !!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

IARA


A data das fotos não está correcta..as fotos foram feitas em Nov. 2008

A "minha" IARA, faz nove anos neste sábado, dia 17 de Janeiro.


A sorte dela de ter nascido num ano certo, 2000, assim a gente nunca a esquece...e logo quando as contas começam, não é? Janeiro, o começo de todas as esperanças, de todos os sonhos,


de todos os projectos...tenho difícil em mim projectar o futuro de uma criança olhando pra ela - ou, simplesmente - pensando nela....


muito mais, é com uma neta que fez o favor de também ser uma "filha" atrasada no calendário da vida... se não fosse ela, que destino teria sido o meu?


jornalista reformado da televisão, de pantufas a olhar estupidamente para um bom dia qualquer coisa na TV ? foi ela que manteve a minha alma aberta e o meu consciente activo...e, quando eu, do alto da minha serenidade idosa, lhe dava cálculos de matemática que ela resolvia, de cabeça, sem lápis nem papel, julgando que a estava a estimular, afinal, era ela, aquele dois palmos de gente, que acordava os meus neurónios e os mantinha activos.


Ao dizer a "minha" IARA, alguém poderia pensar naquele sentimento egoísta que os avós têm de posse em relação aos netos, mas não é nada disso comigo, ninguém é dono de ninguém, e, a minha neta, naturalmente não me pertence...espero que não pertença nunca a ninguém, nem por via da paixão, que seja sempre um ser independente, autónomo, mas isto é tudo quanto posso vislumbrar em desejos...aos nove anos de idade o que é que se pode prever? neste mundo tão galopante e incerto? por mim, tracei um plano simples: preciso de viver mais uns 15 anos de vida para me certificar de que a "minha" IARA, só por brincadeira, me peça para lhe dar cálculos matemáticos que ela resolverá tão facilmente como agora...e me compensará com aquele sorriso maroto que ela tem, como quem diz como ela sempre disse com ar gozão: ora, avô, essa era muito fácil.!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O navio

Está de frente para a praia, imóvel, assente nas areias baixas, abandonado, residência de gaivotas. Parece ter vindo do além, surgido das sombras dos mares longínquos. Numa última viagem sem porto, o seu destino estava traçado. Apontaram-no à costa até parar, impotente, nos fundos que ficaram a servir de leito de morte. Mas, ao contrário de muitos outros naquele cemitério de navios (alguns ainda com o nome visível, numa última manifestação de identidade), este tem-se mantido, ao longo dos anos, direito, aprumado, orgulhoso na sua imobilidade.
Que viagens e que sonhos transportou? Que registos deixou das suas rotas? Dos seus antigos tripulantes, algum regressou ao lugar de morte para lhe prestar uma homenagem?
De quantas interrogações é feito um navio abandonado?

(cemitério de navios na praia de Santiago-norte de Luanda-Angola)

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