quinta-feira, 20 de setembro de 2007

I think I'm a special one

O Mourinho foi-se embora do Chelsea e deixou-me sem clube. Vou explicar - não sou nem nunca fui muito dado a coisas do futebol. Os meus fervores desportivos foram sempre dirigidos para outros campos que não os de futebol. Automóveis, sua história, seu peso na civilização, corridas, pilotos, seus sofrimentos e suas façanhas.
O futebol, entretanto graças à sua gigantesca divulgação levou-me a concluir que, se não soubesse um mínimo da matéria, seria um ilustre ignorante isolado do mundo.
O Mourinho deu-me a volta à crença e passei a designar o Chelsea como meu clube quando me perguntavam a que religião futebolística pertencia. Era do Chelsea por causa do Mourinho, o orgulho nacional do homem que vence fora de casa.
Agora, vou ter de esperar saber qual o clube para onde o Mourinho vai para recuperar de novo o entusiasmo. Se ele vier para a nossa Selecção, para mim será ouro sobre azul - junto o homem ao clube de quem sempre gostei.



terça-feira, 18 de setembro de 2007

Rais parta

"Mine Mercado" algures no Alentejo.
Agora os investidores especuladores do dinheiro em Bolsa estão a tirar o cavalinho da chuva com medo de perderem mais do que já perderam com a queda dos valores. Dizem nas televisões que a "crise" já chegou a Portugal. Mas que raio, será que ando distraído? Para mim, amigos, a crise já cá anda faz muiiiitoooo tempo, talvez desde os Filipes.


Aqueles dois senhores que andam a disputar a presidência de um partido da chamada Oposição têm dito tanta babuzeira, tanta parvoeira que me interrogo se os militantes do tal partido ainda encontram algum motivo sério para irem às urnas colocar um deles no poleiro. Se aqueles dois é tudo quanto têm de opção para lider, coitado do partido.


Por vezes, o choradinho lusitano irrita-me. Os senhores bombeiros, pela boca do representante da sua associação nacional, veio dizer que, a continuarem assim com o aumento dos quilómetros para chegarem às urgências, dentro em breve as ambulâncias estarão a cair de podres por velhice. Curioso como não se lembraram disso há três meses atrás e só agora depois da reestruturação dos serviços de saúde. Ou será que a tal associação, distraída a facturar transportes em veículos sem manutenção ainda não tinha alinhado no coro de protestos que andou por aí a cantar os malefícios do ministro da saúde?


O Alentejo foi tido durante anos como sendo o celeiro de Portugal. Com a revolução, passou a ser a cara da Reforma Agrária que destruiu tudo o que produzia. A vinda de alguns estrangeiros que foram para lá (com ajudas financeiros do Governo) replantar com métodos modernos deu a chicotada psicológica de que o Alentejo estava a precisar, nem todos com as melhores intenções. E transformou-se em lugar para ricos que fizeram dos "montes" os seus cartões de visita com belas piscinas e jipões e de hippies retardados com pronúncias estranhas . Por onde andei nestas últimas semanas encontrei um Alentejo virado para o turismo, oportunista, careiro e raramente com a tão apregoada qualidade de vida excepto na ostentação vaidosa dos próprios locais encostados à sombra das paredes com o telemóvel metido na bolsinha presa ao cinto!!!!!!
Não tenho nada contra, até acho que pr'à frente é que é o caminho mas faz-me pena perder-se aquela singeleza sonolenta.


Rais parta este país que me anda a baralhar os neurónios.








sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Já não me lembrava !!!!


Para falar verdade eu já não me lembrava do que era passar um longo período .... de férias, afastado de tudo o que representa rotinas, deveres diários e...do computador. No fundo, creio que nunca cheguei a saber o que era ... tirar férias prolongadas. Durante a minha vida profissional na televisão, as férias a que tinha direito eram ocupadas a organizar e coordenar o serviço de imprensa do Grande Prémio de Portugal de fórmula 1. Depois dessa fase, fui usufruindo de dias livres espalhados pelo ano mas nunca com o espírito de "verdadeiras férias". Desta vez foi mesmo desligar o botão, virar para OFF e...desaparecer.
E sabem que mais? Gosteeeeiiiiiiiiii !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
No meio de todo este dolce farniente embalado ao ritmo alentejano, passei mais um aniversário. Obrigado a todos os que fizeram o favor de me cantar os parabéns a você aqui, nas SMS e nos emails. Obrigado mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2007

feliz cumpleaños

la vida es la senda que hemos recorrido y la que haremos,aún.Ningún paso ha sido en vano. Felicidades y que se abran todavía muchos senderos-"besos en la frente"-Marita

CELEBRAR A EXISTÊNCIA

Meu estimado amigo Hélder de Sousa, neste dia em que celebras a tua chegada a este Planeta grandioso (que ficou mais rico com a tua presença) , solto uns versos em tua homenagem:

APROVEITAMENTO MÁXIMO


Permanecer atento e interessado
No meio do nada é uma ambição
Que persigo com um inconfessado
Ardor sentindo uma premonição
Leve que algum caminho estará
Já percorrido e que o futuro mo dará.

Livre de telemóveis, televisões,
Jornais e chatices do quotidiano
No meio de nenhures sem imposições
Aceitando o desafio adamastoriano
Da solidão proposta pelo que aparecerá
Juntando os cacos em tudo o que haverá.

Regressarei ao lugar mais longínquo
Da minha alma examinando preciosidades
Que ainda não perderam as validades
Auxiliando aquele pedaço propínquo
Da pureza que me transportará
A um agregado de vapores e me condensará.

Quieto, sem esboçar qualquer gesto,
Absorvendo a perturbadora riqueza
Exposta em lições que num honesto
E singelo senão irradiará a pobreza
De espírito que, creio, desaparecerá
Deste corpo mutilado que um dia não me pertencerá.

Francisco da Renda


Parabéns e que tenhas um dia feliz!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Que cien años no es nada...

El domingo 2 de setiembre,hubo elecciones gubernamentales en la provincia de Santa Fe (Argentina).
Ganó el partido de los hombres de la rosa :el partido socialista popular.
Por primera vez en la historia de la Argentina,un socialista ocupará el sillón de la gobernación.
Pero no sólo eso,sino que obtiene el triunfo en ciudades de la pcia. que desde que nació el peronismo ,siguieron peronista.
Ciento tres años de lucha y de espera.
El primer diputado socialista argentino que ocupó una banca fue el mítico Alfredo Palacios,quien presentó las bases de las leyes obreras,que luego pondría en vigencia Juan .D. Perón,desde otra política.
Pasaron años,el partido sufriría golpes fragmentarios e interminables divisiones.Más el golpe que le da el peronismo a ellos y a toda la izquierda.
Pero no cejan...siguen poco a poco.
El partido socialista popular vuelve a renacer en la universidad de Rosario(S.Fe) hace décadas.
Bregaban por la salud,la educación,los salarios y continuaban.
En cada elección sacaban algun puñadito de votos. No cejaban.Hasta que ganaron concejales en la muncipalidad y hace dieciocho años:La intendencia!!!
Desde allí,el pueblo de Rosario sigue eligiendo a intendentes socialistas.
Y este domingo, aquellos muchachos estudiantes de ayer, hoy doctores con más de sesenta años ,asisten emocionados al triunfo de ganar una gobernación. Ríen,cantan lagrimean. Los veo,conozco a muchos de ellos y me emociono juntamente.
Sé que estos "viejos muchachos"están dedicando el triunfo a alguien que los llevó al socialismo,cuando tenían veinte años, allá en los claustros universitarios. Que ahora no está porque se fue unos meses antes del 2 de setiembre.y que me cabe el orgullo de decir que fue mi gran amigo,el hermano que nos da la vida.
El gobernador es uno de ellos,pero más joven.Parco,respetuoso,generoso .Es un médico que ya hizo mucho por la salud en Rosario.
Le deseo lo mejor .Primero fue intendente,después diputado,ahora gobernador-El próximo paso:la presidencia

Às vezes dá-me para isto

Os sixties possuem algo de mágico. Não é só a intolerância da época quente das grandes manifestações em busca de um mundo mais perfeito, mais justo, mas também o molde que ajustou tantos de nós.
Não se confunda, porém, sixties com sixteens, embora ambos resumam enormes potencialidades de melancolia mas também de conforto a prazo.
No meu caso, os sixties a que pretendo chegar... já cá estão, em fase descendente até... a caminho dos seventies, assim il cuore e o resto aguentem...dão-me para desenterrar memórias ... dos sixteens e de antes.
Alguns de vós vão entender o que pretendo trazer para aqui como recordação.
Luanda, anos cinquenta. Cine-Teatro Nacional. Um casarão típicamente da época, cadeiras em madeira que se levantavam, frisas e camarotes como devia ser. Eu adorava o Nacional. Vestia-me todo de branco lavadinho pela minha mãe, recebia 5 angolares, um luxo que dava para tomar o maximbombo desde a Vila Alice (ou Clotilde conforme os amigos com quem ia) até à Mutamba. Dali à matinée era um salto de pardalinho. Os miúdos sentavam-se todos nas três primeiras filas, lá bem à frente. Reagiamos ensurdecedoramente aos feitos do Errol Flyn a preto e branco, adorávamos o Clark Gable e todos os que nos enchiam a cara na grande tela em cima das pestanas.
Tão entusiastas éramos pelo filme como pelo intervalo. De um dos lados do cinema, as portas abriam para um grande pátio onde os mais velhos se punham a fumar e os kandengues acertavam contas com as quintandeiras lá em baixo no passeio, carregadas de coisas boas de morrer - doces de coco, doces de ginguba e outras delicadezas. Gulosamente comiamos os doces e só não mordiamos os dedos empastados de açucar porque doía.
Os 5 angolares davam para dois fins de semana de luxo mais umas estravagâncias entre domingos. No regresso a casa, a opção era, muitas das vezes, pendurarmo-nos nas traseiras dos camiões e das carrinhas que tinham pára-choques atrás. Um luxo de adrenalina.
hs

domingo, 19 de agosto de 2007

Los pasajeros del tren de nuestra vida

La vida,ese extraño acontecer que fluye desde hace tanto en este viejo planeta-¡ay la vida!-no es posible descifrarla,decodificarla.No.
Se habla del presente, del pasado, del futuro. Que aquél no existe, que éste aún no está. Yo creo que pasado y futuro conforman nuestro presente.Porque hubo un ayer somos hoy y porque actuamos pensando en un mañana,nuestro hoy toma un determinado cariz.Además, el ayer no pasó en vano.
Ha muerto un amigo.Nunca nos vimos personalmente. Nos unió la internet. Me dirán que fue una amistad virtual. No estoy de acuerdo.Cuando nos sentimos acompañados,comprendidos, cuando podemos acompañar y comprender,cuando es posible la comunicación dialógica,no se puede hablar de virtualismo.
Seis años de intercambio diario de mails o de charlas.Preguntas y respuestas. Me alentó en mis tristezas, lo ayudé en sus dudas,me orientó en soluciones prácticas. Lo consulté en cultura.Sus años de experiencia como profesor,me sirvieron para aclarar y debatir temas.
Me comunicaba sus proyectos,sus logros,sus rabietas. Tengo sus libros en mi biblioteca, música interpretada en piano por él ,pues era su hobby.
Un día me habló de su preocupación: no se sentía bien.Comenzaron los estudios,se reveló la enfermedad. Hace dos días me hablaron de su casa, desde su patria italiana ,diciéndome que había fallecido.
Habrá un mail que nunca llegará en mi correo. Y el sol y las estrellas seguirán saliendo indiferentes.Y estarán sus libros en mi biblioteca.
Y pienso que es acertada la imagen de los pasajeros que suben al tren de la vida acompañándonos unos, hasta el final;otros,sólo algunas estaciones.Pero todos fueron dejando algo de sí en nuestra vida.
Una tristeza plateada resplandecerá en mi computadora.Iré borrando su nombre,sus fotos.
No creo que vuelva a escuchar su piano.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Onde é que estavas em 1961?

Casino do Estoril, Setembro de 1961

Concurso de Elegância e Conforto Automóvel, assim se chamavam os encontros da alta sociedade de Cascais.

Sem desprimor para a senhora da foto, a mim preocupa-me é o paradeiro do belo Maserati.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O Sousita

Baixote, entroncado, olhos azuis vivos, bem-disposto, respeitado pelos colegas, o Sousita entregava-se ao trabalho com tanto mais entusiasmo quanto a tarefa era difícil. Durante a II Grande Guerra foi despachado para a Guiné para construir e reconstruir pontes, estradas e edifícios públicos. Foi da boca dele que ouvi falar pela primeira vez de fulas, balantas, bijagós em episódios dignos de filme. A mulher e o filho ainda de colo juntaram-se-lhe mais tarde em Bissau. O regresso a Portugal, em "licença graciosa" não foi mais que um intervalo de preparação para novo empreendimento, desta vez em Angola. Malange e uma casinha à beira de uma floresta com o hospital em construção e perus que obedeciam à chamada da Quinhas, esposa e minha mãe estremosa. E foi da boca dele que ouvi pela primeira vez nomes como Saurimo, Cuanza, administrador, cipaio, maka. O fim da guerra, alegremente festejado, proporcionou-lhe a transferência para a capital, Luanda, para as Obras Públicas. Daí para os Serviços de Viação e Trânsito onde foi examinador durante anos e, perito de viação e trânsito até decidir antecipar a aposentação. Tranquilamente recolheu à aldeia da sua Quinhas, em tranquila reforma, donde fazia excursões a Leiria, sua terra natal. Frequentava todos os encontros e almoços de antigos colegas das OP, acho que para se certificar de que continuava a ser o Sousita, como os amigos carinhosamente o tratavam sempre. No domingo, dia 5, foi o dia do Sousita, meu pai.

sábado, 4 de agosto de 2007

hay revoluciones....


Las revoluciones suelen, generalmente, dar a luz libertad, independencia, renovación, mejoras, cambios beneficiosos._ Algunas, han sido nefastas._.Pero la revolución, a la que me voy a referir, no fue engendrada con sangre,ni con fuego,ni con duelos.Es silenciosa,entretenida,"sociable". Es la revolución comunicacional(T.V.videos,cines,etc.etc.)que nos exige ser su grey de creyentes. Nos ha convertido en fieles que recibimos pasivamente las órdenes de esta diosa. Y ahí estamos encandilados,absorvidos,pensando como nos dice la T.V: como el político de turno o el jornalista con más raiting ,riéndonos con el showman del momento.
Esta comunicación nos tiene atrapados,recibimos sus mensajes ,no con actitud crítica sino pasiva.Obedeciendo al "se dice", "se opina","se usa","se acostumbra","se bebe","se lee". -¿Cómo no voy a leer este best seller'?(No hay nada más tonto que un best seller.)(He leído dos en mi vida. Tres,no voy a leer).
Pero,con esto no pasa nada. Dirán muchos. ¡Sí,pasa!¿Cómo que no pasa nada?.Pasa mucho.¡Demasiado!
Una globalización que usando la comunicación nos ha envuelto y maneja nuestras mentes,nuestro actuar.Convertidos en observadores públicos sentados en las gradas de un gran teatro griego,desde donde "se nos dice"," se nos enseña" ,"se nos estampa".
¡Basta! Acordémonos de Descartes. El supo que era "él",porque pensaba.Fue su única salvación cuando se hundía en la duda."cogito ergo sum".
Mientras no pensemos por nosotros mismos,seguiremos formando parte de un rebaño cada vez mayor.
Marita Faini Adonnino-Argentina

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Carta a Cassio

Não sei se por todo o mundo ter ido para férias ou se foi pelo Parlamento ter fechado para descanso - coitados dos deputados, eles sacrificam-se tanto por nós que bem merecem férias –ainda não começaram os (grandes) incêndios de floresta. Por enquanto, só uns quantos. Quem sabe os incendiários também foram a banhos no Algarve congeminando novos ataques na “rentrée”. A verdade Cassio é que - especializados em adequar à nossa dimensão aquilo que outros inventaram - por aqui estamos na “silly season”. Você sabe, é aquela época tola, em que é permitido dizer os maiores disparates, fazer as maiores tolices e ninguém levar a mal. Se não houver coisa de futebol, haverá de política, se não, haverá de actor de telenovela. Mas há sempre notícia tola para encher de frivolidades as páginas dos jornais. Topa-me só esta: o Parlamento aprovou uma lei nacional sobre a questão da Interrupção Voluntária da Gravidez (aborto, em curto). Sendo nacional, é para todo o território mas, o sinhozinho Malta da ilha da Madeira, que está no poleiro do poder há 30 anos, como é do partido contrário ao do Governo, simplesmente disse que as suas finanças não pagariam os custos médicos porque, quem está doente é o primeiro ministro e não está para obedecer às regras democráticas que lhe deram o poder lá na Ilha. Ora, cá para mim, tal atitude só pode ser atribuída à época tola que atravessamos neste período de férias ou a uma insolação fora de tempo. Em breve, o arroto autonomista do governante ilhéu deixará de ocupar lugar cativo nos media, para dar lugar a outros assuntos mais veraneantes. Não havendo notícias relevantes, exceptuando as recorrentes informações sobre as temperaturas e raios ultravioletas, os jornais, rádios, televisões, blogues, internetes, conversas de café e todos os lugares onde se acumulem mais de duas pessoas ocupar-se-ão de nos entreter com afirmações, notícias, comentários mais ou menos bombásticas e... pronto...fica tudo resolvido, isto é, nada tratado porque, importante mesmo é ir para férias ainda que seja a crédito e o resto que se dane. Pelo meu lado estou livre disso uma vez que já resido comprovadamente em zona de férias. Distraído como sou, não tinha dado conta do ambiente não fosse ter começado a ouvir mais francês do que português na fila da padaria, de manhã. Eu pensava que eram turistas, até porque acabam sempre por entrar em carros com matrícula francesa mas, afinal, num momento de mais requintada atenção à pronúncia e ao vocabulário, acabei por isolar algumas palavras saídas do português como “as valisas pesadas”(as malas pesadas), “manger sardines assadas” (comer sardinhas assadas) e concluí que estes são um novo tipo de turista, não aquele que compra as férias num pacote de avião e hotel antes o que se empacota num carro atafulhado de “valises” e sacos, atravessa meia Europa para vir queimar as suas economias em sardinhadas, feijoadas e vinho tinto, verde ou de qualquer outra cor desde que seja vinho “lá da terra, s’il vous plaît”.
Mas também somos alimentados por belas pérolas embora menos sazonais mas igualmente dignas de serem guardadas em exclusivo estojo de veludo para repousarem ad eternum na galeria das grandes citações da nossa elite intelectual. Um conhecido advogado da nossa praça, que já foi bastonário da Ordem dos ditos cujos, em míngua de popularidade e de mediatização, aceitou (ele estava louco para aceitar) o convite feito por um candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa para exercer as funções de mandatário, portanto, do máximo representante dessa candidato. Uma espécie de Condolezza Rice mas ao nível português, percebes? Esse indivíduo, num assomo de vincada personalidade vertical e de bom gosto social, explicou a sua futura função na candidatura com esta frase lapidar, certamente já a caminho do pequeno e exclusivo grupo de futuros Nobel da estupidez misturada de auto convencimento : “sinto-me um ginecologista, trabalho onde espero que muitos se divirtam”. Então não é uma jóia de bom gosto? Acho que, com isto – ou com estes – já batemos de largo as gaffes do vosso presidente Lula. Pelo menos, Cassio, dá-nos o privilégio da dúvida a qual será rapidamente esclarecida por algum outro membro da “inteligentzia” lusa que, tal como o vosso Frei Betto, “subirá até aos mais altos galhos (não) do jatobá da fama revolucionária de onde distribuirá conselhos e orientações políticas” mas sim da pequena, mesquinha e doméstica prazenteirice com que perdoamos bojardas de boçalidade. Mal por mal, amigo, preferia apanhar com as bocas do Bocage, ou até mesmo de um mineirim “magina, num tô nem aí”. Deve ser da época tola, só pode!
Pasmo, Cassio, como é que este Portugal fez o que fez na história, com muito menos gente, sem televisão, sem telemóvel, sem engarrafamentos, sem Parlamento e com os castelhanos sempre em cima. Será o mesmo país?
Assim vai o reino, amigo, numa tarde estival onde o sol se alonga nas sombras e as pessoas se estendem como gatos no cimo dos muros adoptando, como leitmotive a expressão “no pasa nada” que é, como quem diz, não acontece nada e a gente se interroga se o sentido da vida é na direcção sul, pela A1 até mergulhar no resto do Atlântico antes de passar a Mediterrâneo.
Olha-se em redor e vê-se vida, é certo e também morte, doença e o coração se aperta quando o cerco é mais fechado e nos toca na pele ou na pele de quem mais gostamos. Fica-se um tanto paralisado, deixa-se sair revolta em palavras soltas, “porquê ela, porquê ele, porquê eu?” e reclama-se da injustiça de alguém de estar entre nós, mas não é só por isso, é por sentirmos que com essa perda algo de nós ficou a menos, irremediavelmente fracturado. A Morte, Cassio, para mim, é muito estranha, sou incapaz de a tornar física na figura tradicional do vulto preto com uma forquilha na mão. Também não sei dar-lhe configuração espiritual, sou impotente para a situar em contextos outros que não sejam “é o fim, acabou, fica a lembrança a dor da ausência e pouco mais do que uma pedra no cemitério.” Talvez por isso me espante (ainda) com a linguagem da Igreja Católica em determinadas ocasiões como num funeral onde, o que mais ouvi da boca de um sacerdote, foi a repetida alusão à ressurreição e ao perdão do pecado. Não entendo esta linguagem que acusa de pecador aquele que viveu ao mesmo tempo que lhe promete a ressurreição como não entendo que Bento XVI queira regressar ao latim nas práticas católicas. Latim, uma língua morta de volta à Igreja no século 21? Voltamos ao “Dominus Vobiscum” (o senhor seja convosco) e a um “fundamentalismo católico” para se contrapor ao daqueles muçulmanos que carregam um morto pelas ruas fora em passo de corrida ao mesmo tempo que gritam “Allah’u akbar” e à custa de quem ficamos a saber que “Deus é o maior”? Duvido que tais práticas conduzam à angariação e conquista de novos praticantes da fé católica, especialmente numa fase em que muito da vida de um dos grandes baluartes, Jesus Cristo, tem sido questionada com alguma paixão. Mas quem sou eu para enveredar por caminhos etéreos quando, afinal, o básico é estar vivo, partilhar e dar um pouco de si a quem está ao lado. Há dias encontrei um amigo que também precisou de umas substituições no sistema cardiovascular, colocaram-lhe três bypasses (pontes de safena como vocês aí chamam) tal como a mim, mas a diferença é que ele é sénior na matéria, foi operado fez sete anos e eu não passo de um mero iniciado. Interessante foi a conversa que se desenrolou entre nós dois, trocando experiências, conferindo sensações, e a ti, não te dói na perna de vez em quando?, ainda tens tonturas?, quantos comprimidos estás a tomar por dia? e coisas assim, assuntos altamente científicos como se notou já. Com tanta partilha e intercâmbio seria de esperar que a experiência e ensinamentos de um poderiam servir para o parceiro mas não, cada caso é um caso, cada pessoa é única e, o que serve para uma não servirá necessariamente para a outra. Fiquei um tanto desiludido quando me dei conta deste particular mas, por outro lado, suporto bem a diferença. Que adianta aconselhar um sénior com os meus truques de novato no clube? Ou ele a mim? São corpos diferentes.
Fica sim o suave gosto de aliança, o aconchego da empatia, a sensação de não estar só. É bom.
Como é bom saber-te daí desse lado do mar preocupado comigo. Não te angusties, “isto” está bem direccionado, tudo nos trinques, cada dia é mais um e não menos um.
Aceita aquele abraço com cheiro de saudade.

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