
O meu amigo Nuno Guerreiro Josué estava hoje particularmente satisfeito. O Sim ganhou no referendo, até a percentagem com que ganhou foi superior à abstenção.
Tentei explicar-lhe que nada tinha sido alterado, mas para ele as vitórias morais são realmente importantes. “A seguir, vai haver um referendo sobre os casamentos gay”, dizia. Ele não é gay, mas segue atentamente causas destas, favoráveis à igualdade formal.
“Por que não um referendo sobre algo que de facto interesse”, perguntei-lhe. “Por exemplo, o sistema fiscal?” Em Portugal, como em Angola, o sistema fiscal é ainda mais anedótico que o judicial – se não há processo que esteja simultaneamente em segredo de justiça nos cofres dos tribunais e nas mãos dos jornalistas, não há desporto mais popular que a fuga ao fisco, que já de si se preocupa quase exclusivamente de esmifrar os trabalhadores por conta de outrem.
Mas é assim... O interesse continua virado para os debates abstractos, com posições de direita e esquerda, sempre entre quem nada tem a ver com o assunto.
Sim, porque quem discutiu o aborto não foram as mulheres forçadas a abortar clandestinamente em quartos de parteiras. Não que as mulheres que apareceram na televisão não tenham uma vez ou outra abortado – mas em Espanha, em clínicas, assistidas por médicos, não no vão de escada.
Vai ser interessante acompanhar o que se vai seguir.
Quem ia a Espanha, já pode fazer o mesmo em Portugal – em clínicas, pagando em conformidade.
Quem ia à abortadeira, poderá ir ao hospital. Mas a menos que os abortos sejam feitos nos serviços de urgência, o mais certo é as mulheres serem forçadas a enfrentar listas de espera tão longas como as que existem para os restantes procedimentos cirúrgicos. Quer dizer, a interrupção voluntária da gravidez poderá ser feita quando a criança tiver uns três ou quatro anos...