quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Pipi das meias rotas

Coitado do pobrezinho presidente do Banco Mundial. Foi visitar uma mesquita na Turquia, teve de se descalçar, como mandam as regras e...coitadinho !!!! Tinha as meias rotas !!!!!!
Conhecido, entre outras qualidades, pelos seus bons fatos e tiradas de falcão, Paul Wolfowitz desvendou um dos seus mais bem guardados segredos: pés tipo barbatana com sistema de arrefecimento.
(foto Guardian Unlimited/World News)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Ir a tempo

Helder nem a propósito: O facto de nos excusarmos ou de nunca termos tempo para estar com quem gostamos levou-me aqui há tempos a escrever estes versos que iniciam a colaboração no teu «espaço etéreo» (em vez de blog), agora em versão moderníssima (sempre foste um homem das ondas etéreas:radio, televisão,etc). Então aqui vai:


IR A TEMPO

O tempo é infinitamente longo
E teu amigo. Não te censura,
Não te pressiona, não exige milongo,
Não se despedaça à conta da formosura
E envolve-te com um capote oblongo.

Não te sobrar tempo, é portanto
Uma das maiores mentiras inventadas
Pelo rei da criação e que cresce como o nictanto
Trepando pela alma em apoquentadas
Desilusões que só se finam no campo-santo.

Assim, ainda estás a tempo de entender
Que não és perfeito e que imperfeitamente
Te conheces, sendo preciso coestender
O oceano de interrogações asseitamente
Sem as barreiras que ousaste pretender.

Tens tempo para aprenderes a perdoar,
Não as coisas simples e corriqueiras,
Mas as que são mais difíceis de aceitar
(Por exemplo as tuas acções esterqueiras)
E as que levam mais tempo a consolidar.

Sobra tempo para saberes respeitar
O semelhante com quem partilhas
A soberba existência num espreitar
Amplificado pelas sábias cartilhas
Que os antepassados souberam aproveitar.

Ainda tens mais tempo para não desvirtuar
A harmonia da origem dos seres vivos
Que em complexos mecanismos sabem perpetuar
As espécies e ignoram rocambolescos aditivos
Para se justificarem, despindo a palavra enfatuar.

Se necessário for, despe também a arrogância
E fica nu a destruir os alicerces
Que tão mal edificaste com extravagância
E com desusados alferces,
Restando-te tempo para enfrentares a elegância.

Esperando por ti sem favor, o tempo ensina
A curar as feridas que te provocaram
E as em que foste o responsável evitando a afrasónina.
Recorda que todos se equivocaram
Uma vez na vida sem a ajuda da anisina.

O tempo não se desperdiça quando amas
Sem contrapartida os que te rodeiam
Proporcionando raros e belos anagramas
Que se soltam e desgradeiam
Libertando perfumes em apetecidas azáfamas.

Estás sempre a tempo de te espreguiçar
Ou de agires com rapidez
De acordo com a ocasião e desenguiçar
De vez a inércia que embota a limpidez
Cristalina podendo assim esvoaçar.

Utiliza o tempo que quiseres a estudar
E a compreender a amizade absoluta,
A bondade incondicional sem se escudar
Em espelhos deformados e numa resoluta
Decisão identifica a tua alma sem te preocupar.

Não perguntes nada ao tempo, pois ele não responde!
Gasta-o intensamente que ele não se esconde!
Não o queiras ultrapassar, que ele não condescende!

Lisboa, 7 de Setembro de 2006


kambuta

domingo, 28 de janeiro de 2007

Hoje é dia de festa


Hoje é dia de festa aqui no blog.

Faz um mês de existência.

Agradeço a todos os que , em forma de visita e de comentário, valorizaram a trabalheira que "isto" dá.

A todos o meu muito obrigado com votos de...

continuarmos a ver-nos....por aqui.
hs
PS: um presentinho p'ra vcs, na coluna da direita - UTILIDADES

sábado, 27 de janeiro de 2007

A Herança Invertida

Pela norma e até mesmo pela tradição, cuja ainda é o que era quando não é ao contrário, os filhos herdam naturalmente dos pais excepto, claro está, no caso de se terem portado mal e os amados progenitores decidirem que não merecem e mandam a herança para uma Casa de Repouso onde esperam ir desaguar em devido tempo gozando com a cara dos deserdados. Não vamos por aí que isto de heranças está pelas horas da amargura, ele é impostos sucessórios, ele é contas com o banco, ele é notário, assinaturas reconhecidas, uma complicação maior que o Apito Dourado e, depois, ainda aparece uma Catarina Efémera a escarrapachar em livro umas cenas eventualmente chocantes, todas inventadas está bem de ver que nós somos todos impolutos e meninos de coro com vozinha de querubim e estamos sempre de bem com a nossa inocente consciência.
Não, não e não, não vamos por aí, heranças é para os ricaços tipo Paulo de Azevedo ou para nobres em fase terminal de árvore genealógica, recebes o casebrezito a cair de podre lá para os confins de Bragança e não te queixes, coisas assim que nos tornam proprietários de...coisa nenhuma.
Não vou por aí até porque o meu caso é bem distinto senão inédito a menos que venha aí um Pacheco Pereira de mãos dadas com um Vicente Jorge Pires para contrariarem em blogues e residentes comentários na televisão a minha versão dos factos, obrigando-me, quiçá para defesa da honra como se faz tanto e tão bem no hemiciclo (não, não é uma bicicleta com metade dos pedais) da douta Assembleia da República, a responder no 24 horas.
E, não vou por aí também porque não quero levar ninguém atrás de mim, não me tenho por nenhuma Pasionária em retardo de acção já que, o que pretendo relatar aqui é um assunto muito pessoal, decorado de contornos alegadamente absurdos, não exactamente da minha pessoa mas em que a minha pessoa se viu involuntariamente envolvida e, para o qual, desde já, peço me relevem o eventual fulanismo que, a confirmar-se por palavras ou por actos, seria uma gigantesca excepção dos usos e costumes domésticos deste rectângulo ibérico e eu queria, quero ser a regra, normalíssimo, português suave, o das bichas do autocarro, o do subsídio de desemprego com ganchos de electricista e canalizador ao mesmo tempo, o das manifs pelo direito de passar férias na Austrália quando me estão a querer mandar para o Brasil, o portuga da feira de Carcavelos, não o cliente antes o convencido negociante de Calvin Klein da treta, o pato bravo do Mercedes que foi táxi na Alemanha, o chico-esperto capaz de vender areia no deserto, o tuga do Saxo sonoro, do fato de treino domingueiro no Vasco da Gama, mas não, a fortuna, a sorte, não quiseram assim, o assunto é bem mais complicado e tira-me do sério. Não sei exactamente o que isto quer dizer mas fica bem, há quem use e eu não sou esquisito, por vezes ser Maria vai com as outras ataca-me a vontade. Paciência, ninguém é perfeito !!!!
Então, é assim!
Tenho três filhas, bem apessoadas, educadas à maneira, se degeneraram a culpa não é minha, é do sistema, das companhias, da escola, da globalização, do Bush, do PIB, do Governo, dos partidos, da televisão, do Big Brother, da parvinha da Floribela, do Malato, do Goucha, da Catarina furtada aos corações lusos pelo casamento, namoradinha virtual das frustrações nacionais masculinas, da Merche que mexe em tudo o que chuta bola, mas minha é que não é a culpa, que eu esmerei-me, juro. e, por via disso, elas ficaram a gostar de animais não só dos de duas patas que isso é normal em raparigas light mas também dos de quatro sejam eles canídeos, felinos, ou outras espécies menores que também servem de cobaias. Uma, aérea não da cabeça antes de profissão, recebeu de presente de aniversário uma gata persa, algo autoritária, dona do seu nariz mais do que a Cleópatra, princesa do seu espaço.

É a Sol.



Outra, cursada em hotelaria, albergou, como não podia deixar de ser, uma gata meio selvagem originária das tundras siberianas.



É a Luna.



A terceira, mais terra a terra, hospedou um “royal street cat” ainda juvenil em crise de habitação, ou seja, um rafeiro morador temporário de um carro estacionado na rua.



É o Lua.

Com tamanha incidência astrológica que nem a Maya explicaria num dos seus muitos guias de aconselhamento, os três felpudos acabaram por se juntar, sabe-se lá por que superiores razões universais, em minha casa, democraticamente partilhando pedigrees no mesmo comedouro, bebendo da mesma água que a Epal voluntariamente nos dá em troca da nossa comparticipação activa na valorização das suas acções, não as de benevolência que essas são sempre incógnitas, como é de bom tom.
É aqui que tudo se perverte e a bota não bate com a perdigota. Eu, extremoso pai trabalhando uma suada vida inteira para deixar alguma coisa aos filhos que, no meu caso, como já deu para perceber - podemos dispensar o Pacheco Pereira e o professor Marcelo, tão linear é a situação - são filhas, em vez de me orgulhar de deixar uma herança vejo-me na estranha e peculiar situação dependente de herdado das minhas filhas pela doação em vida de três gatos. Na realidade, e aqui dou a mão à palmatória, elas não mos deram, diga-se de passagem, emprestaram-mos por prazo indeterminado até resolverem as suas vidinhas mas, acontece, como o caso daquele sargento que não é o pai da criança, que me afeiçoei aos bichos e, sem falsos pudores, acho até que eles me adoptaram num concerto de infalíveis atitudes que só os astros sabem manter.


E, para que conste em memória futura, se algum dia elas reivindicarem a propriedade dos meus astros de quatro patas, aplicarei em minha defesa a figura do uso-capião que, em boa verdade se deve escrever usucapião e, em mais boa verdade ainda se refere mais à terra do que a gatos. Dou-lhes de comer, dou-lhes cama e roupa lavada e ainda lhes dou um tecto, só não lhes dou tickets restaurant para jantarem fora por a aposentação, tipo reforma me ter retirado o direito aos ditos.
No limite, caso venha a existir discórdia pela herança, poderei sempre recorrer à Procuradoria-geral da República para que perguntem aos animais com quem é que eles querem ficar, não é?
hs

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

E esta, hein?????

Fernando Pessa foi o jornalista em actividade mais idoso do mundo.
Felizmente há gente assim capaz de nos encher a vida e nos dar lições quotidianas só por estar ali duas secretárias ao lado na redacção do Telejornal.
Felizmente, não fui o único beneficiário do seu saber, da sua visão aberta da vida, do seu espírito crítico onde só morava a vontade de corrigir o que lhe parecia errado.
Quando entrou para a RTP, já eu lá estava havia um ano mas, só mais tarde tive o privilégio de ele reparar em mim quando me convidou para fazer locução para um documentário de que ele era o produtor. Foi aí que dei conta do seu grande profissionalismo, da sua incessante busca pela perfeição, do seu saber fazer rádio. “Nunca nos devemos contentar com o que fazemos porque há sempre maneira de melhorar”, dizia-me ele quando me obrigava a repetir uma frase para poder escolher a melhor.
Era “bon vivant”, respirava o gosto pela vida, aproveitava cada momento ao máximo.
Já com a RTP na 5 de Outubro e mais confiança mútua, saíamos todos os dias para almoçar ele, eu e o Manuel Ricardo (Piti) e outros mais irregulares como o Jaime de Saint Maurice. Ele gostava muito de ir à Carvoaria, uma tasca dois quarteirões acima da RTP onde recebíamos tratamento VIP para o bacalhau cozido à portuguesa. O Pessa nessa altura andava pelos seus oitenta para noventa mas nós não dávamos conta disso. Adorava a boa mesa, de preferência cozinha portuguesa tradicional, acompanhada sempre de um bom vinho, coroada sempre de um “jiripiti” na forma de um bagacinho que nós, mais novos, criticávamos, “oh Pessa, essa coisa não é saudável”, ao que ele com aquele ar de menino apanhado em falta que tão bem sabia representar quando estava bem disposto respondia “isto ajuda a desmoer, pá, vocês são uns betinhos” até o termos conseguido convencer que o uísque fazia menos mal.
Na sua grandeza de Homem, Pessa ignorava, não dava importância á importância que o país lhe dava. Tinha um Rover branco que parqueava na garagem da 5 de Outubro, “estou a ficar farto dele, para velho já basto eu, queria vendê-lo, tu que és dos automóveis vê lá se me arranjas alguém que o queira comprar”. O tu era eu. Respondi-lhe com o ar mais solene que encontrei no momento, “não podes vender o teu carro, Fernando, o teu Rover é o Rover do Fernando Pessa, consegues perceber isso?”. Passaram-se dias, chega à minha secretária “éh pá, fiquei a pensar no que disseste sobre o meu carro, já não vendo, és capaz de ter razão”. Acabou por doar o carro ao Museu dos Automóveis em Paço d’Arcos.
Os famosos bilhetes enviados à Câmara Municipal de Lisboa, em forma de peças de televisão que terminavam com o seu não menos famoso “e esta, hein!!???” fizeram escola no jornalismo televisivo. Pessa, como jornalista, sabia juntar as suas duas facetas profissionais de radialista e de realizador de televisão. Os operadores de câmara que trabalhavam com ele sabiam que “o boneco” era ele que o fazia e não eles, contrariamente ao que acontecia com jornalistas mais jovens que Pessa, classificava de putos na desmama. “Éh pá, estes gajos de agora não percebem nada disto, não sabem falar, não sabem pêva de televisão, coitados, deviam voltar todos para a escola!!! Eu bem quero ensiná-los mas eles acham que já sabem tudo”.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

No news, good news ?

ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS




A gente vai deixando os dias passar, absorvidos nos nossos pequenos dramas pessoais, num frenesi desalmado, mal amado, de correria para um lado e para o outro, de contas para pagar, de criancinha doente, da velha tia que já está mais para lá do que para cá, dos pneus que estão carecas e da inspecção periódica que se atrasa. Perde-se a noção do tempo na voragem dos dias encavalitados uns nos outros, esquece-se um aniversário de alguém chegado, chega-se atrasado à reunião, come-se em pé um salgadinho e toma-se a bica a olhar para o relógio, regressar a casa no fim do dia é o fim do mundo dentro do carro, particular ou colectivo, sonha-se à pressa com o fim-de-semana que nunca mais chega e, quando chega, acaba antes de termos feito o que planeáramos e vamos respondendo “mais ou menos” quando nos perguntam como estamos, e marcamos um almoço com um amigo para “depois a gente fala-se”, um “depois” que se eterniza em adiamentos sucessivos.

Às vezes, já é tarde demais

Num instante extraordinário, lembramo-nos do amigo a quem ficámos de “falar depois”, passaram-se semanas, meses, quiçá anos sem notícias, liga-se para o número que tínhamos, ninguém responde, descansa-se naquela justificação fácil feita do cómodo “ele mudou de número e não me disse nada” e, de repente, sem aviso prévio, alguém nos telefona a dizer “fulano morreu, o funeral é amanhã”, o cérebro pára, a consciência acorda, a memória activa-se com recordações, assoma um breve sentimento de culpa, “eu já devia ter telefonado há mais tempo”, chora-se por dentro do peito a perda não só do amigo mas de nós que deixámos andar o calendário para lá do não retorno. Conversas ficaram por trocar, alegrias de bem-estar não foram partilhadas, desperdício de egoísmo ou, simplesmente desleixo mental reduzem a zero o infinito da amizade.
A vida é como uma fita métrica que se vai desenrolando, o que fica dentro da caixa é o que nos sobra, quanto mais se desenrola menos fica para medir. Há que aproveitar o máximo desse resto não só para nós mas de nós para aqueles a quem queremos bem e nos querem bem, para que se evite o peso de um “depois” irreparavelmente tardio.
Hs

“Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos”.
M. Yourcenar

sábado, 20 de janeiro de 2007

"Les honneurs, ça m'emmerde!" (Che Guevara)





As notícias sobre o estado de saúde de Fidel Castro transportam-me automaticamente para a figura de Che Guevara, como se um não fosse o que foi sem o outro. Mas, o Che, transcendeu tudo e me interrogo o que seria o mundo se Che ainda fosse vivo hoje, mesmo com 79 anos de idade.
Ernesto nasceu em 14 de Junho de 1928 em Rosário de la Fé, na Argentina, filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna Y Llosa.
Com dois anos de idade, Ernesto tem a sua primeira crise de asma que leva seus pais a procurarem um clima mais saudável. Instalam-se em Alta Gracia nas montanhas de província de Córdoba, a noroeste da Argentina. Desde cedo já lia tudo o que existia na biblioteca paternal ao mesmo tempo que aprendeu francês, ensinado pela sua mãe. Aos 14 anos já lia Baudelaire, Mallarmé, Neruda, Anatole France mas também Freud e Jung.
Escolheu estudar medicina em Buenos Aires, ficou isento do serviço militar por causa da asma, praticou ténis e golfe. Trabalhou como enfermeiro num navio-cisterna e num matadouro municipal. Com um amigo criou um insecticida - o Átila - que não chegou a comercializar.
Numas férias universitárias decidiu ir ter com um amigo que vivia a 850 km de distância. Montou um motor Cucciolo na bicicleta, alguma roupa, um livro de Neru foram a sua bagagem. Trabalhou com o amigo numa leprosaria e, no fim das férias, regressou a Buenos Aires pelas estradas secundárias onde totalizou 4.500 km. Aos 23 anos, quase terminados os estudos de medicina, Ernesto arranca com o seu amigo Alberto para uma viagem pela América Latina numa moto Norton. Após sete meses, os dois companheiros separam-se em Caracas. Finalmente, obtém o seu doutoramento.
Volta a partir para o Peru, passa pela Bolívia, atravessa o Equador, Costa Rica. Aqui encontra exilados cubanos e ouve falar de um tal Fidel Castro Ruiz. Na Guatemala conhece Hilda Gadea Acosta, uma militante peruana exilada que o introduz nas leituras de Lenine, Trotski e Mao. Ambos fogem para o México onde Ernesto sobrevive como fotógrafo chegando a ser contratado pela agência noticiosa Latina para cobrir os jogos Pan- Americanos. Hilda e Ernesto casam-se em 1955 e poucos meses depois nasce Hilda Beatriz, a primeira filha do Che.


O Che com a mãe
E, é no México que a vida de Ernesto vai conhecer a viragem que o torna Che. Conhece o chefe dos exilados cubanos no México, Fidel Castro que o convida a integrar a revolução. Numa carta ao pai, escreveu: "a partir de agora, não considere a minha morte como uma frustração. Quase se, tal como Hikmet, só levasse para o túmulo o tédio de um canto inacabado..."
É aqui que Guevara ganha o famoso Che, uma expressão usada pelos argentinos para referir pessoas.
Numa carta a sua mãe, Che Guevara dizia: "não sou nem um Cristo nem um filantropo. Sou completamente o contrário de um Cristo e a filantropia parece-me nula em relação às coisas em que creio. Bater-me-ei com todas as armas ao meu alcance em vez de deixar-me pregar na cruz ou no que quiser".
Com 82 resistentes, desembarca em Dezembro de 1956 na costa cubana onde o grupo é dizimado pelo exército regular de Batista. Os sobreviventes refugiam-se na Sierra Maestra donde, com a adesão de camponeses, parte para a revolução que o levará a Havana com Fidel.


Guerrilheiro, banqueiro, ministro, escritor, médico, fotógrafo, Che era "um visionário que punha o futuro no seu lugar....era um homem extra-sensorial...era alguém dotado de uma má respiração e de uma fantástica inspiração", no dizer de Tirso Saenz, um seu colaborador no ministério da Indústria.

1967, Bolívia. O Che está escondido nas montanhas com um grupo de guerrilheiro. Estão cercados por duas companhias de tropas especiais bolivianas enquadradas por "conselheiros" americanos. É atingido numa perna e capturado. Em 9 de Outubro, na aldeia de La Higuera, é fusilado.
Jean-Paul Sartre disse dele: "Che Guevara faz parte dos grandes mitos deste século; a sua vida é a história do homem mais perfeito da nossa época".
(fonte: Che - A Fotobiografia, de Christophe Loviny)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Leonardo Da Vinci

Leonardo Da Vinci é das figuras mais interessantes da Humanidade.
Há tempos, cirandava eu por uma livraria (exercício que gosto de praticar sempre que me resta um tempinho) quando topo este livro “Apontamentos de cozinha de Leonardo Da Vinci”, de Shelag e Jonathan Routh, editado pela Atena. Comprei-o e deliciei-me com a sua leitura que recomendo.
Leonardo interessou-se sempre pelas coisas da culinária. Em jovem abriu uma taberna em sociedade com Sandro Botticelli, dizem os autores, que acrescentam: “desconheciam-se, no entanto, escritos seus sobre o tema, até ao aparecimento daquilo que hoje é conhecido como Codex Romanoff, e que se julga ser o Caderno de Apontamentos de Leonardo sobre estes assuntos, escritos enquanto foi “Mestre de Festas e Banquetes” na corte de Ludovico Sforza.
Leonardo inventou máquinas extraordinárias para a cozinha, inventou o guardanapo e tentou convencer os seus contemporâneos das virtudes daquilo a que hoje chamamos de nouvelle cuisine.
Foi ele que, dedicando-se a uma criação a que deu o nome de spago mangiable (fio comestível), nos ofereceria o delicioso spaghetti que podemos comer nos restaurantes italianos e do qual derivou o esparguete dos “restaurantes” de guardanapos de papel, quiçá com a mesma forma mas não com o mesmo sabor.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Michel Vaillant



Michel Vaillant é meu velho conhecido desde a minha adolescência. É aquele tipo de herói da banda desenhada que mantém sempre uma postura correcta perante a vida, voluntarioso, corajoso, amigo do seu amigo, enfim, é aquele tipo de menino bem comportado, filho de família, berço dourado mas atento às realidades do mundo.
Encontro nele algumas semelhanças comigo, a mais forte das quais é ele gostar de automóveis. Tem mais sorte que eu. É dono de uma fábrica de automóveis extraordinários ( os Vaillante), é piloto de competição e, e...não envelhece !!! - desde sempre conheci Michel com aquela rebelde mecha de cabelo caída sobre a testa, e não tem nem umas brancas nas fontes.
Tal como com Pedro Lamy, Pedro Couceiro e Pedro Matos Chaves, meus jovens heróis de carne e osso do automobilismo nacional, tenho acompanhado a carreira de Michel Vaillant a par e passo. E, mais. Ajudei-o a conhecer melhor Portugal e as suas estradas, quando participou no Rally de Portugal. Não foi a ele directamente, mas a um dos colaboradores de Jean Graton, o criador de Vaillant, quando a editora preparava uma edição sobre a prova portuguesa. Eu estava na Bélgica na altura, era membro de uma equipa de automóveis, alguém deu o meu nome para “dar dicas” sobre o nosso país. Portanto, amigo Michel, deves-me uma.
Muitos anos mais tarde, numas “24 horas de Le Mans”, eu acompanhei os irmãos Mello Breyner quando se estrearam na mítica corrida. Passeando-me, num intervalo, entre as tendas, cruzo-me com o senhor Jean Graton. Cheio de alegria e entusiasmo por conhecer ao vivo o criador do meu herói, pedi-lhe um autógrafo e contei-lhe o episódio da “ajuda” a Michel. Graton ficou visivelmente sensibilizado, ao ponto de me pedir a minha direcção para dar instruções à editora para que mandassem sempre os últimos álbuns da colecção. Nunca falharam até hoje.
E assim, tal como com Lamy, Couceiro e Matos Chaves, vou acompanhando a carreira de Vaillant. Só há uma pequena/grande diferença. Os Pedros são reais.
hs

sábado, 13 de janeiro de 2007

Justiça, qual justiça???



Justiça, qual justiça?


A pena atribuída ao jogador de futebol Luisão, por ter sido “apanhado” pela Polícia a conduzir sob a influência do álcool, com um grau de alcoolémia de 1,44 – apenas 40 dias de serviço comunitário – demonstra mais uma vez a enorme e conhecida subserviência dos poderes deste país para com o futebol.
Pela lei, o futebolista Luisão deveria ser impedido de conduzir durante, pelo menos, um ano, deveria pagar uma multa e poderia ainda ter de ir passar uns dias à cadeia. Mas não. Vai fazer simplesmente serviço cívico, não se sabendo ainda qual: tomar conta de velhinhas num lar, ajudar criancinhas das escolas a atravessar a rua, fazer turnos de bombeiro voluntário, varrer ruas como aconteceu ao Beckham?
Quando se sabe que, em casos idênticos, mas ocorridos com pessoas “normais”, a pena aplicada atingiu os máximos – para servir de exemplo – não se entende que, para uma pessoa que deve ser tida como exemplo para todos, a justiça tenha sido tão benevolente. Será para servir de exemplo? Exemplo de quê?
É que, daqui para a frente, eu julgo-me no direito de sair de um belo jantar depois de ter saboreado um Reguengos, um Borlido, um Dão ou um Quinta de S. Francisco, já bem pesado com o grão na asa e lembrar ao juiz que me julgar que, pelo menos até 1.40 de alcoolémia a pena não pode ser mais do que 40 dias de serviço cívico. Porque assim foi para o Luisão, jogador de futebol.
Portugal é dos países europeus com maior incidência do álcool nos acidentes de viação. Todas as condenações pesadas, exemplares, serão, eventualmente, dissuasoras. Devem ser aplicadas sem dó nem piedade. Mas, a todos os infractores sejam eles figuras públicas ou não.
Se Luisão fosse condenado pela bitola, se calhar teria que deixar de jogar futebol por uns tempos. E, os outros que o foram, alguns deles fazendo do carro seu instrumento de trabalho, que tiveram de ficar apeados com os consequentes prejuizos financeiros? Claro, tinham de ter pensado nisso tudo antes de se meterem ao volante. Luisão, ou outra figura pública qualquer estão dispensados disso? Com este julgamento, sim, vão sentir-se dispensados.
E, depois, admirem-se de o povo dizer que a D. Justiça tem os pratos da balança viciados!!!
hs

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

O Vaticano e o Lisboa-Dakar




O jornal oficial do Vaticano, o “L’Osservatore Romano,” em notícia desta quarta-feira dia 10, classificou o Rali Lisboa-Dakar como uma “corrida sangrenta e irresponsável”, na sequência da notícia da morte do motociclista sul-africano Elmer Symons numa etapa da prova.
No desenvolvimento da notícia, o jornal acrescenta que “ muitos classificam o rali como um evento desportivo mas que tem pouco a ver com uma competição saudável” e sublinha que “o rasto de sangue que cresce de ano a ano demonstra o inegável componente de violência que existe em todas as tentativas de exportar modelos ocidentais para ambientes humanos e ecossistemas diferentes do Ocidente”.
Pode ler-se ainda que “a organização e os patrocinadores da prova têm uma postura cínica que ignora as realidades locais e que os carros, motos e camiões abandonados no deserto são monumentos enferrujados de irresponsabilidade”.
Até parece que o autor do jornal do Vaticano leu o texto de Octávio Ribeiro, sobre o mesmo tema, publicado em editorial no Correio da Manhã. Entre outros argumentos, Octávio Ribeiro referiu-se também, por outras palavras, à questão da “exportação de modelos ocidentais” para países pobres confrontando a alegada riqueza representada pelos carros, motos, aviões, tecnologia do Rali com a pobreza dos países que a prova atravessa.
Aceito e respeito as opiniões de quem não concorda com este tipo de eventos tal como, discordando, aceito e respeito a opinião de Octávio Ribeiro, que, segundo diz, desde há muito que está contra o Rali Dakar. É o seu direito.
Como em tudo na vida, para se ter opinião pública convém estar na posse do máximo de dados a menos que se pretenda simplesmente dizer subjectivamente o que se pensa, o que, no meu entender, não se enquadra num editorial o qual, por norma, representa o pensamento geral da publicação.
Deixo de parte o doméstico Correio da Manhã que tem sido ao longo dos anos da sua existência um dos maiores entusiastas divulgadores do automobilismo para me debruçar sobre a posição do Osservatore Romano.
E, começaria por dizer ao jornalista do Vaticano que a prova Lisboa-Dakar é patrocinada por uma entidade que se chama Santa Casa da Misericórdia, que detém, entre muitos outros jogos de sorte e azar, a galinha dos ovos de ouro que se chama Euromilhões.

Recuemos no tempo.

A Santa Casa da Misericórdia foi lançada em 15 de Agosto de 1498 (estavam os portugueses a chegar à Índia “para divulgarem a fé em Cristo”) pela Rainha D. Leonor, com o apoio do Rei D. Manuel I. D. Leonor, viúva de D. João II, instituiu a Irmandade da Invocação de Nossa Senhora da Misericórdia, na Sé de Lisboa. Estabeleceu o Compromisso (de praticar o Bem e ajudar os necessitados, os pobres, presos e doentes) aprovado por D. Manuel I e confirmado pelo Papa Alexandre VI.


Promovia a sua intervenção, a nível religioso, com orações, missas e procissões e, os Irmãos anunciavam o Evangelho. O símbolo adoptado foi a imagem da Virgem, com o manto aberto e uma das 14 obras sociais consistia em rezar pelos vivos e pelos mortos.

Os custos da meritória obra social desenvolvida ao longo dos anos, apesar dos privilégios concedidos pela Coroa, tornaram-se incomportáveis, ao ponto de os responsáveis pedirem autorização para a instituição de uma Lotaria, para, “com os lucros”, acederem às necessidades.


Não sei se o Euromilhões da Santa Casa da Misericórdia, para além de patrocinador (leia-se financiador) principal do rali Lisboa-Dakar, estabeleceu ou não um programa de apoio aos necessitados dos países atravessados pela prova.
Sei sim que a organização da prova, desde há anos que, através de vários protocolos com os países africanos do Rali, desenvolveu 106 projectos que tocaram 271.000 pessoas, financiou uma verba de 600.000 €, sensibilizou 53.000 pesoas para as questões ambientais, formou 2.600 pessoas em gestão de recursos naturais, fixou dunas, montou esgotos para 3.300 famílias, construiu 209 reservatórios de água, construiu dispensários-maternidades no Senegal, um colégio na Mauritânia, uma escola e um depósito de água no Mali, deixou centenas de milhares de euros em medicamentos, vacinas, bombas de água e ferramentas. As próprias equipas participantes e pilotos individuais têm deixado ajuda nesses países. A Repsol, representada pelas equipas KTM (motos) e Mitsubishi, ofereceu 150 mil euros em material médico e medicamentos para prevenção da Sida. Concorrentes particulares levam material escolar, brinquedos e outras ajudas nos países onde passam.
Para “exportação de modelos ocidentais de quem ignora as realidades locais e componente de violência” não me parece mal.
Isto para não perder mais tempo com os pagamentos às polícias locais, às forças armadas, com a ocupação hoteleira, com as taxas, com as gorjetas e sei lá que mais que os habitantes locais tão bem sabem aproveitar com a passagem da caravana.

A morte de uma pessoa que seja é sempre de lamentar. Mas, quando a morte é aproveitada para fazer demagogia, parece-me menos bem. Todos os participantes desta prova são voluntários, sabem que, em 29 anos de Dakar, já morreram cerca de 50 pessoas. É muito, convenhamos. Mas, não ignoram, à partida, os riscos que correm bem como as autoridades dos países participantes.
Quantos editoriais não terá que escrever o jornal do Vaticano sobre as mortes de alpinistas nos Himalaias, de jogadores de futebol nos campos, de praticantes de box?
E sobre os que morreram sob as espadas dos Cruzados que levavam a cruz de Cristo nos peitos, para “exportarem a fé cristã”?
hs
fontes: edição do l’Osservatore Romano, sítio da Santa Casa da Misericórdia e sítio do Rali Dakar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Reforma é o que cada um quiser fazer dela!!!

Estava eu sentado no meu cantinho na redacção da Informação da RTP, na fase em que apresentava um noticiário à tarde. Não havia stress, estava tudo a correr normalmente, o país estava sossegado, isto é, os políticos estavam quietos seguramente desenvolvendo casos de notícia para o Telejornal das 20 com que os meus colegas do TJ teriam que lidar. Tant pis pour eux, que, no que me dizia respeito, eu queria era ir sem sobressaltos para o estúdio, debitar os pivots o melhor que soubesse para descer à 5 de Outubro e ir comer um bife no Metro e Meio, se ainda estivesse aberto.
Revia, com alguma displicência, os textos que já tinha em mãos quando se aproxima da minha cadeira um colega - olá Helder, desculpa interromper-te, venho despedirme. Despedires-te de quê?
Receei que ele era um daqueles suicidas que se despedem dos amigos antes de...
Vou-me reformar, amanhã já não venho trabalhar. Negociei com a Casa ( a RTP, para muitos de nós é a Casa), vou receber uns cacaus (ele era dos mais antigos a Casa), venho dar-te um abraço.
Levantei-me, como convém em momentos solenes, abraçámo-nos, desejei-lhe muita sorte e felicidades na sua nova situação.
Qualquer dia passo por cá para ver o pessoal, disse ele emjeito de garantia de que não o iriamos perder para sempre.
O noticiário correu bem, não me engasguei, a dicção saíu normal, não tive que pedir desculpa por nada e, o bifinho do Metro e Meio estava óptimo.
Esquecido o episódio da despedida, acto que, aliás, me confrange - não gosto de despedidas sejam elas de que género forem - continuei a minha rotina diária até que, talvez um mês mais tarde, ele se apresenta de novo junto da minha cadeira. Então, estás bem na tua reforma? pergunto-lhe eu com sincera curiosidade. É que, no meu espírito, reforma era coisa que eu não queria nem pensar. Estou muito bem, finalmente faço o que quero, tenho todo o tempo para mim, responde-me ele em tom vitorioso.
E...o que é que fazes do teu tempo?
Agora é que chamo a isto viver! Comprei um Lancia - sempre quis ter um Lancia - e vou à pesca todos os dias nele.
Fiquei bloqueado, não esperava tal resposta. Em fracções de segundo vislumbrei mentalmente um belo Lancia estacionado algures na Marginal, de mala aberta forrada a jornais, com um balde de peixinhos à espera da frigideira.
Para mim, Lancia era igual a estradas, viagens, liberdade de movimentos, descoberta de outros lugares. Nunca a Marginal para pescar.
Titubeante, sem saber o que dizer faço-lhe a pergunta mais estúpida da minha vida: e...tens pescado muito?
hs

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